sábado, 26 de maio de 2012

O novo velho canto de Gal Costa – conversas sobre Recanto (2011)

Publico aqui uma crítica excelente feita por um amigo (o mesmo que escreveu o artigo sobre a propaganda do Renault Clio, um dos sucessos do blog e que você pode conferir clicando aqui) ao último trabalho de Gal Costa, o albúm Recanto (2011) que conta com a produção de Caetano Veloso, que assina todas as composições. Na sequência, publico também os comentários que eu fiz sobre o seu texto, falando de minhas impressões sobre o disco. Achei esse formato fragmentário mais interessante do que produzir um texto mais orgânico, para manter a tensão nas opiniões (eu, por exemplo, vejo o tropicalismo e a cultura de massas com muito mais simpatia do que ele), e por preguiça, evidentemente.

O RECANTO

"Recanto" do Caetano, cantado pela Gal, aparelhado pela nova geração carioca. Diante do inesperado acordo entre otimismo e pessimismo, triunfante aqui desde 2003 (esse, um produto do que as duas oposições aos Golpe Militar construiram no país), o disco toca o tempo, por voltar-se para o exemplar no caminho dos dois artistas, em clima meio de fim de linha, meio de renovação. Postiços e verdadeiros, a velhice é o momento do balanço típico da madureza. A juventude, no entanto, com sua têmpera frugal e sonhadora, formando a liga entre as duas pontas, força caminho. E às vezes contribui para a disposição de compreender, às vezes arrebata tudo, com pretensão, reatualizado os limites do passado.


O resultado é cativante desde o começo, depois, vai aparecendo em suas qualidades e defeitos. No geral, predomina uma impressão nada semelhante às que se tem com os outros discos do Caetano de 80 para cá. Mas que, além de constituir a marca de seu projeto Cê, lembra muito a década de 70 dos Tropicalistas: um clima de desistência vitoriosa, um paradoxal movimento de constatação dos próprios limites, abertura para a nova realidade, caracterizado, porém, por iluminação e cegueira em igual medida. Um querer regojizar-se com que não se compreende bem, porque é novo; mas, ao mesmo tempo, um estar quites com o passado e o presente, de onde se espera tirar vontade, insinuando-se nessa báscula ora superioridade, ora espírito democrático; ora pendor memorialista, ora olho firme na "cara do mundo", ora transcendência vazia com "sexo e dinheiro". Ponto alto desta fase do Caetano - feito de muitos acertos - na qual, para ver no que foram dar os corações de "Muito" (e o julgamento, mesmo ambíguo, não é favorável), ele está revisitando, com rock, com o videogame sonoro do Kassin e com sua antiga pegada experimental (de "Joia", mais que de "Araçá Azul") o segundo tempo do projeto Tropicalista.


Nisso, o ouvinte se surpreende com o quanto um olhar historicamente carregado pode iluminar o presente.


Por exemplo, na canção de abertura "Recanto Escuro", fixando a perspectiva da terceira idade - e dos tempos em parte sombrios - justamente ao aludir ao caminho da mata virgem para a cidade, "preso ao dinheiro", com o "azul do outro lado do muro". Em "Autotune autoerótico", reflexão sobre o fetiche (sexual, técnico, mercadológico, musical), marcada pela ponderação lúcida sobre o que distingue (e não distingue) o canto autorizado, supostamente belo e carnal, da mania técnica democratizada (iniciada, talvez, com o jazz vindo dos EUA, de que João Gilberto, Jovem Guarda e Caetano são parte). Na house music "Neguinho", cuja inconfundível batida remonta à era FHC, e vem descobrir as raízes do presente, para o qual o filminho arteplex e a violência bruta bastam, desde que com algum ganho autoerótico (mesmo que no final, "neguinho que eu digo seja nós"). Tudo resultando na toada extremamente aguda "Segunda", comparável aos grandes poemas de Chico Alvim, em que as dissonâncias racistas, incontornáveis no presente, são expostas com toda força (o Eu, com algo de português e suas prerrogativas traídas, é quem arrasta os tamancos no dia de branco, já o chefe é meio mulato).


A súmula da qualidade do disco talvez seja "Miami Maculelê", que fundindo funk e maculelê, no mesmo movimento, legitima o gênero estigmatizado, pela ligação com a cultura negra, dos escravos, e sublinha o trânsito entre sensualidade e violência de ambos os gêneros (maculelê é uma dança marcial). Canção que, além disso, retoma a linhagem arcaico-moderno querida ao Cinema Novo (a do bandido comunitário), mas de modo afinado ao presente: ou seja, quando o malandro de verdade não é aquele que dança com o novo acordo de regra e subversão, mas aquele que dança com o novo acordo de regra e subversão. Sem contar a referência ao São Dimas, cantado pelos Racionais Mc em Vida Loka, onde o grupo, tentando encontrar um compromisso entre sua terceira e segunda fase, afirma a ambiguamente a disposição de sobreviver acima do vínculo comunitário (pois assim é o paradoxal horizonte imposto ao pais, junto às recentes melhorias - desagregador e, no entanto, progressista).


Como não poderia deixar de ser, no entanto, também sobram ilusões, mistificações e bobeiras gratuitas no disco, ficando indicado, assim, no todo, o que havia de velho e ineficiente antes e aqui permaneceu. Tome-se por exemplo o filosofê "Sexo e dinheiro", no qual, ao contrário do que o Eu-lírico assegura, o par arrebanhador, representado pelos cães de igreja, não está tão distante. O fecho de "Recanto escuro", em que mesmo a disposição de olhar o decurso histórico sem ilusões redunda em afirmação acrítica, autocomplacente, do próprio canto (como em "Força Estranha"), sem que desta vez a melodia referende o ascenso. "Cara do mundo", que, reciclando o prazer infantil da flanerie, em 22 e no modernismo europeu subversivo, - modelo inadequado para se tratar a barafunda atual, pois auspicioso - se perde em contrastes fracos de doce e amargo, bem como em caetanices tais quais "dor de tanto prazer". E por fim, certamente, a linda canção de Wisnik, central no disco, "Madre Deus", cuja letra transforma a difícil compreensão do momento e o lusco-fusco da velhice, predominantes no disco, em caos repousante, pacificado, transcendente em si mesmo ("frente às estrelas/costas para o planeta", "sou uma seta sem direção").


Em suma, num disco tão excepcional como este, as estrelas, vistas do ancoradouro, brilham e requerem um peso negado pelo assunto. Coisa que se deduz, não só da audição do disco, mas também da ponderação de seu resultado com o panorama atual da música popular. Aliás, em poucos momentos isso ficou tão claro, quanto no último episódio do TV Folha. Quem viu, viu. A Gal comentando o disco, louvando e alinhando-se mais uma vez com João Gilberto, detalhando o projeto do parceiro, gabando-se de seus agudos. E, desta vez, tentando ficar à vontade diante da câmera, exposta como estava ao impiedoso close sobre suas rugas (que, de passagem, assegurava a parcial leitura intimista do disco). Enfim, uma posição difícil de sustentar e no entanto sustentada, que não faz jus à parte boa do disco, mas indica muito bem a ruim. Especialmente tendo em conta que, no bloco anterior, o assunto foi o show que o Racionais MCs fez na ocupação Mauá em SP, com destaque para "Marighella".

OS COMENTÁRIOS

Puta disco neh? Estranho, sombrio, reflexivo. Eu concordo com você que é bem Caetano, porque continua algumas reflexões dele desde o Ce, sobre a velhice, sobre a negritude. Mas é Caetano comentando a Gal, e daí toda a reflexão sobre a voz, sobre o cantar.

Também acho que é um disco com altos e baixos. Acho o filosofê de "Sexo e dinheiro" horroroso, superficial mesmo, cantada burocraticamente. Ao mesmo tempo, as últimas faixas são fantásticas. Gosto da do Wisnik (Madre Deus) porque, apesar de todo deslumbramento da letra e da melodia,  acho que o arranjo dá uma boa balanceada (aquele breque do meio é incrível). Mas o minimalismo sombrio de Recanto Escuro, com aquele baixo que vai se perdendo na marcação, é melhor e vai mais longe, mesmo com a redenção final pelo cantar - e pelo violão, que entra só no finalzinho também. Mansidão é ainda o deslumbramento Bossa Nova mais tradicional, que se encanta com o potencial da voz e da melodia só que de maneira mais contida. Aliás, vc lembrou bem a relação com o experimentalismo pós tropicalismo: esse tipo de arranjo que vai traçando comentários à canção é muito bem realizado, e ainda soa "experimental" mesmo hoje em dia. No geral, penso que os arranjos vão tensionando a crença no canto, no poder da melodia (melodias que, no geral, são bem mpb tradicional, daí a impressão que deu para alguns que o disco não vai tão longe na experimentação. É certo que ele não vai, mas é certo também que o que se discute no disco é justamente o significado da experimentação), refletindo sobre ele.

Mas, no geral, tendo a concordar com você: depois de todos os tensionamentos e “radicalismos” o que resta é ainda a afirmação do poder do canto, ainda que de uma nova forma de cantar, um Recanto, espaço que comporta a dor e o prazer. Renovação que não vai ao fundo, e que tende a reafirmar mais que modificar, apesar dos bons momentos, que são em maior número que a média MPB atual.

Outra coisa interessante é que Caetano continua dando alfinetadas na concepção de mundo do RAP, que ele julga equivocada para o Brasil por ser racialista e importada dos EUA (como se lá ela não fosse tão "falsa" como aqui, apesar de ser falsidade de outro tipo). Esse diálogo tem sido explícito nos últimos tempos, e ficou bem claro no último disco de Caetano, com a canção "O homem". Aqui, em "Segunda" ele volta ao tema (e também na última faixa, indicando a centralidade do tema em sua produção), ao mostrar um patrão negro que tem um empregado branco, a quem é dada a voz. Caetano desloca o debate da questão racial para o social, da cisão entre pobres que consomem e que não consomem. Nem uma palavra sobre o exemplo que ele escolhe (padrão negro) ser um caso de exceção no país, e não modelo a partir de onde se pensar a totalidade de nossas relações complexas. Pra mim, ele não precisaria deslocar o foco para mostrar que o segundo aspecto é também interessante (os que consomem e os que não consomem).

Já Miami Maculelê é foda mesmo, desde o título que junta o Miami bass, origem do funk carioca, com o maculelê, que hoje em dia é bem difundido em rodas de capoeira. Uma mistura fudida de bem feita. Mas de novo eu penso que tem provocação (afinal, o que o Caetano faz de melhor, criar um modelo de argumentação que te obriga a tomar posição, e faz a gente ficar discutindo que nem besta), porque ele escolhe o funk e não o rap como lugar de afirmação de identidade e resistência, ligando o Racionais (via Dimas) e o Jorge Ben numa linhagem de resistência festiva que não é exatamente a do Racionais.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Não é sobre você que devemos falar, por Ana Maria Gonçalves


O melhor texto que li sobre o caso Monteiro Lobato, com argumentos muito bons a favor da nota esclarecedora. De fato, sempre que alguém tenta colocar limites a certas posturas que claramente  são contrárias à dignidade humana, surge alguém dizendo que é uma afronta a liberdade de expressão, e que se está propondo um retorno aos tempos da censura ditatorial. Mas uma coisa é a arte que representa situações de racismo para dar conta de uma estrutura social contra a qual ela se coloca, e outra é a que faz essa representação para ratificar seu conteúdo. Se é valido denunciar o Datena, porque não é valido denunciar o Monteiro Lobato, eugenista declarado e que escreveu O presidente negro, em que os brancos americanos se unem para acabar com a população negra por meio de uma proposta genial de introduzir uma substância que causa esterilidade nos produtos de alisar cabelo? Qual o problema de falar que Gregório de Mattos tem versos com conteúdo racista? Isso diminui sua genialidade - aliás, isso não é uma questão urgente para a crítica literária, identificar o peso dos vários momentos em suas obras clássicas? E se não diminui, não é um problema a ser discutido, um critério de valor que tolera o racismo (não como mera representação de uma situação social, mas como uma recomendação ética) não pode ser problematizado? Porque a literatura é inquestionável, ela é sempre um bem por si só? É um problema identificar o racismo não problematizado nessas obras ou é um problema para a literatura ser capaz de produzir grandes obras com conteúdos racistas, sexistas e homofóbicos? É claro que isso está no mundo, mas no mundo as pessoas deveriam ir presas por isso. E na literatura, devem passar em branco?
O mais importante, contudo, é que o livro de Lobato é usado nas escolas, e a lei é clara: "De acordo com a Coordenação Geral de Material Didático do MEC, a avaliação das obras que compõem o Programa Nacional Biblioteca da Escola são feitas por especialistas de acordo com os seguintes critérios: "(...) a qualidade textual, a adequação temática, a ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações, a qualidade gráfica e o potencial de leitura considerando o público-alvo". 
Ora, se a obra contém aspectos preconceituosos, não cabe esclarecer aquele leitor em formação? As adaptações de Monteiro Lobato para a TV já fazem esse trabalho de "censura". Seria o caso de cobrar maior fidelidade ao texto?

Não é sobre você que devemos falar, por Ana Maria Gonçalves





Monteiro Lobato: um homem com um projeto para além do seu tempo - Caçadas de Pedrinho, publicado em 1933, teve origem em A caçada da onça, de 1924. Portanto, poucas décadas após a abolição da escravatura, que aconteceu sem que houvesse qualquer ação que reabilitasse a figura do negro, que durante séculos havia sido rebaixada para se justificasse moralmente a escravidão, e sem um processo que incorporasse os novos libertos ao tecido da sociedade brasileira. Os ex-escravos continuaram relegados à condição de cidadãos de segunda classe e o preconceito era aceito com total normalidade. Eles representavam o cisco incômodo grudado à retina, o "corpo imperfeito" dentro de uma sociedade que, a todo custo, buscava maneiras de encobri-lo, desbotá-lo ou eliminá-lo, contando com a colaboração de médicos, políticos, religiosos e outros homens influentes daquela ápoca. Um desses homens foi o médico Renato Kehl, propagador no Brasil das idéias do sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon, que defendia a "superioridade racial e correlacionava as raças humanas com as espécies animais, baseando-se em critérios anatômicos como a cor da pele e o formato do crânio", segundo o livro Raça Pura, - Uma história da eugenia no Brasil e no mundo, de Pietra Diwan para a Editora Contexto. Renato Kehl reuniu ao seu redor uma ampla rede de intelectuais, com quem trocava correspondência e ideias constantemente, todos adeptos, defensores e propagadores da eugenia, assim definida por ele em 1917: "É a ciência da boa geração. Ela não visa, como parecerá a muitos, unicamente proteger a humanidade do cogumelar de gentes feias".
Em 1918 foi fundada a Sociedade Eugênica de São Paulo - SESP, contando com cerca de 140 associados, entre médicos e membros de diversos setores da sociedade que estavam dispostos a "discutir a nacionalidade a partir de questões biológicas e sociais", tendo em sua diretoria figuras importantes como Arnaldo Vieira de Carvalho, Olegário de Moura, Renato Kehl, T. H. de Alvarenga, Xavier da Silveira, Arhur Neiva, Franco da Rocha e Rubião Meira. A sociedade, suas reuniões e ideias eram amplamente divulgadas e festejadas pela imprensa, e seus membros publicavam em jornais de grande circulação como Jornal do Commercio, Correio Paulistano e O Estado de São Paulo. Lobato, como um homem de seu tempo, não ficaria imune ao movimento, e em abril de 1918 escreve a Renato Kehl: "Confesso-me envergonhado por só agora travar conhecimento com um espírito tão brilhante quanto o seu, voltado para tão nobres ideais e servido, na expressão do pensamento, por um estilo verdadeiramente "eugênico", pela clareza, equilíbrio e rigor vernacular." Era o início de uma grande amizade e de uma correspondência ininterrupta até pelo menos 1946, dois anos antes da morte de Monteiro Lobato. Os eugenistas agiam em várias frentes, como a questão sanitária/higienista, que Lobato trata em Urupês, livro de contos onde nasce o famoso personagem Jeca Tatu, ou a racial, sobre a qual me aterei tomando como ponto de partida outro trecho de uma das cartas de Monteiro Lobato a Renato Kehl: "Renato, Tú és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. [...] Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade pecisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato."
O livro mencionado é O Choque das raças ou o presidente negro, de 1926, que Lobato escreveu pensando em sua publicação nos Estados Unidos, para onde ele se mudou para ocupar o cargo de adido cultural no consulado brasileiro de Nova York. Em carta ao amigo Godofredo Rangel, Lobato comenta: "Um romance americano, isto é, editável nos Estados Unidos(...). Meio à Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco. Consegue por meio de raios N. inventados pelo professor Brown, esterilizar os negros sem que estes se dêem pela coisa".Resumindo bastante, as coisas tremendas são: em 2.228, três partidos concorrem às eleições presidenciais americanas. O partido dos homens brancos, que pretende reeleger o presidente Kerlog, o partido das mulheres, que concorre com a feminista Evelyn Astor, e o partido dos negros, representado por Jim Roy. Com a divisão dos brancos entre homens e mulheres, os negros se tornam maioria e Jim Roy é eleito. Não se conformando com a derrota, homens e mulheres brancos se unem e usam "a inteligência" para eliminar a raça negra, através de uma substância esterilizante colocada em um produto para alisamento de cabelos crespos.
A composição dos partidos políticos parece ter sido inspirada por um dos livros preferidos de Lobato, que sempre o recomendava aos amigos, o L’Homme et les Sociètes (1881) de Gustave Le Bon. Nesse livro, Le Bon diz que os seres humanos foram criados de maneira desigual, condena a miscigenação como fator de degradação racial e afirma que as mulheres, de qualquer raça, são inferiores até mesmo aos homens de raças inferiores. Lobato acreditava que tinha encontrado a fórmula para ficar milionário, como diz em 1926: "Minhas esperanças estão todas na América. Mas o 'Choque' só em fins de janeiro estará traduzido para o inglês, de modo que só lá pelo segundo semestre verei dólares. Mas os verei e à beça, já não resta a menor dúvida". Com o sucesso do livro, ele esperava também difundir no Brasil a ideia da segregação racial, nos moldes americanos, mas logo teve suas esperanças frustradas, como confidência ao amigo Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tanto séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Deve ter sido uma grande decepção para Lobato e seus projetos grandiosos, visto que, em carta de 1930, também a Godofredo Rangel, ele admite fazer uso da literatura para se dizer o que não pode ser dito às claras: "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".
Achei importante contextualizar esse livro porque acredito que todos que estão me lendo são adultos, alfabetizados, com um certo nível cultural e, portanto, público alvo desse romance adulto de Monteiro Lobato. Sendo assim, peço que me respondam com sinceridade: quantos de vocês teriam sido capazes de, sem qualquer auxílio, sem qualquer contextualização, realmente entender o que há por trás de O Choque das raças ou o presidente negro? Digo isso porque me lembro que, na época das eleições americanas, estávamos quase todos (sim, eu também, antes de ler o livro) louvando a genialidade do visionário e moderno Monteiro Lobato em prever que os Estados Unidos, um dia, elegeriam um presidente negro, que tinha concorrido primeiro com uma mulher branca e depois com um homem branco. Mas há também o que está por detrás das palavras, das intenções, e achei importante contextualizá-las, mesmo sendo nós adultos, educados, socialmente privilegiados.
O lugar do outro - Peço agora que você faça um exercício: imagine uma criança na sala de aula das escolas públicas de ensino médio e fundamental no Brasil. Negra. Sei que não deve ser fácil colocar-se sob a pele de uma criança negra, por isso penso em alternativas. Tente se colocar sob a pele de uma criança judia numa sala de aula na Alemanha dos anos 30 e ouça, por exemplo, comentários preconceituosos em relação aos judeus: "............ ...........", "............ .............. ...... .. ....". Ou então, ponha-se no lugar de uma criança com necessidades especiais e ouça comentários alusivos ao seu "defeito": "............. ............", "................. ..............". Talvez agora você já consiga sentir na pele o que significa ser essa criança negra e perceber a carga histórica dessas palavras sendo arrastada desde séculos passados: "macaca de carvão", "carne preta" ou "urubu fedorento", tudo lá, em Caçadas de Pedrinho, onde "negra" também é vocativo. Sim, sei que "não se fala mais assim", que "os tempos eram outros". Mas sim, também sei que as palavras andam cheias de significados, impregnadas das maldades que já cometeram, como lâminas que conservam o corte por estarem sempre ali, arrancando casca sobre casca de uma ferida que nunca acaba de cicatrizar. Fique um pouco de tempo lá, no lugar dessa criança, e tente entender como ela se sente. Herdeira dessa ferida da qual ela vai ter que aprender a tomar conta e passar adiante, como antes tinham feito seus pais, avós, bisavós e tataravós, de quem ela também herdou os lábios grossos, o cabelo crespo, o nariz achatado, a pele escura. Dói há séculos essa ferida:
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"Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime." 
Luiz Gama
Volte agora para o seu lugar e se ouça falando coisas do tipo: "Eu li Monteiro Lobato na infância e não me tornei racista", ou "Eu nunca me identifiquei com o que a Emília disse", ou "Eu não acho que chamar alguém de macaco seja racista", ou "Eu acho que não tem nada de ofensivo", ou "Eu me recuso a ver Lobato como racista", ou "Eu acho um absurdo que façam isso com um autor cuja leitura me deu tanto prazer". Se você não é parte do problema, nem como negro nem como racista, por que se colocar no centro da discussão? Você também já não é mais criança, e talvez seja a hora de entender que nem todas as verdades giram em torno do seu ponto de vista. Quando criança, talvez você tenha crescido ouvindo ou lendo expressões assim, sempre achando que não ofendiam, que eram de brincadeira e, portanto, agora, ache que não há importância alguma que continuem sendo ditas em livros dados na escola. Talvez você pense que nunca tenham te afetado. Mas acredito que, se você continuar não conseguindo se colocar sob a pele de uma criança negra e pelo menos resvalar a dor e a solidão que é enfrentar, todos os dias, o peso dos significados, ouso arriscar que você pode estar enganado. Elas podem ter tirado de você a sensibilidade para se solidarizar com esse grave problema alheio: o racismo. Sim, porque tenho a sensação de que racismo sempre foi tratado como problema alheio - é o outro quem sofre e é o outro quem dissemina -, mesmo sua erradicação sendo discutida no mundo inteiro como direitos humanos. Direitos de todos nós. Humanos. Direito de sermos tratados com dignidade e respeito. E é sobre isso que devemos falar. Não sobre você.
Esse é um assunto sério, para ser discutido por profissionais que estejam familiarizados com racismo, educação infantil e capacitação de professores, e que inclusive podem contar com o respaldo do Estatuto da Criança e do Adolescente, instituído em 1990 pela Lei 8.069. Destaco dois artigos do Capítulo II - Do Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade:
Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.
Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.

Combate ao racismo no Brasil
‘Só porque eu sou preta elas falam que não tomo banho. Ficam me xingando de preta cor de carvão. Ela me xingou de preta fedida. Eu contei à professora e ela não fez nada''
[Por que não querem brincar com ela]‘‘Porque sou preta. A gente estava brincando de mamãe. A Catarina branca falou: eu não vou ser tia dela (da própria criança que está narrando). A Camila, que é branca, não tem nojo de mim''. A pesquisadora pergunta: ‘‘E as outras crianças têm nojo de você?'' Responde a garota: ‘‘Têm''. 
Depoimento de crianças de 6 anos no livro "Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar: racismo, discriminação e preconceito na educação infantil", de Eliane Cavalleiro - Editora Contexto
Colocando-se no centro da discussão, como se a "censura" não existente ao livro de Lobato as ofendesse pessoalmente, e como se fosse só isso que importasse nessa discussão, tenho visto várias pessoas fazendo os comentários mais absurdos, inclusive interpretando e manipulando outros textos ficcionais de Lobato para provar que ele não era racista, ou que era apenas um homem do seu tempo. Algo muito importante que não devemos nos esquecer é que nós também somos homens e mulheres do nosso tempo, e que a todo momento estamos decidindo o que a História escreverá sobre nós. Tenho visto também levarem a discussão para o cenário político, no rastro de um processo eleitoral que fez aflorar medos e sentimentos antes restritos ao lugar da vergonha, dizendo que a "censura" à obra de Lobato é mais um ato de um governo autoritário que quer estabelecer a doutrina de pensamento no Brasil, eliminando o livre-pensar e interferindo na sagrada relação de leitores com seus livros. Dizem ainda que, continuando assim, daqui a pouco estaremos proibindo a leitura de Os Sertões, Macunaíma, Grande Sertão: Veredas, O Cortiço, Odisséia, Dom Casmurro etc, esquecendo-se de que, para fins de comparação, esses livros também teriam que ser distribuídos para o mesmo público, nas mesmas condições. Às vezes parece-me mais uma estratégia para, mais uma vez, mudar de assunto, tirar o foco do racismo e embolar o meio de campo com outros tabus mais democráticos como o estupro, o incesto, a traição, a violência, a xenofobia, a homofobia ou o aborto. Tabus que, afinal de contas, podem dizer respeitos a todos nós, sejamos brancos ou negros. Sim, há que se lutar em várias frentes, mas hoje peço que todos apaguem um pouco os holofotes que jogaram sobre si mesmos e suas liberdades cerceadas, concentrem-se nas palavra "racismo" e "criança", mesmo que possa parecer inaceitável vê-las assim, uma tão pertinho da outra, dêem uma olhada no árduo e necessário processo que nos permite questionar, nos dias de hoje e dentro da lei, se Caçadas de Pedrinho é mesmo um livro indicado para discutir racismo nas salas de aula brasileiras.
Os motivos do parecer - De acordo com a Coordenação Geral de Material Didático do MEC, a avaliação das obras que compõem o Programa Nacional Biblioteca da Escola são feitas por especialistas de acordo com os seguintes critérios: "(...) a qualidade textual, a adequação temática, a ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações, a qualidade gráfica e o potencial de leitura considerando o público-alvo". A simples aplicação dos critérios já seria suficiente para que o livro Caçadas de Pedrinho deixasse de fazer parte da lista do MEC. No parecer apresentado ao Conselho Nacional da Educação pela Secretaria da Educação do Distrito Federal, a professora Nilma Lino Gomes, da UFMG, salienta que o livro faz “menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano, que se repete em vários trechos”. Destaco alguns: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou na árvore que nem uma macaca de carvão”, ou (ao falar de um possível ataque por parte de onças) "Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne preta", ou "E aves, desde o negro urubu fedorento até essa joia de asas que se chama beija-flor". Muita gente diz que contextualizar a presença no texto de trechos e expressões como essas seria menosprezar a inteligência de nossas crianças, que entenderiam imediatamente que não se faz mais isso, que a nossa sociedade se transformou e que atitudes assim são condenáveis. Aos que pensam assim, seria importante também levar em conta que "macaco", "carvão", "urubu" e "fedorento" ainda são xingamentos bastante usados contra os negros, inclusive em "inocentes brincadeiras" infantis durante os recreios nas nossas escolas por esse Brasil afora. E não apenas nas escolas, pois também são ouvidos nas ruas, nos ambientes de trabalho, nos estádios de futebol, nas delegacias de polícia e até mesmo nos olhares dos que pensam assim mas que, por medo da lei, não ousam dizer. Apesar disso, em reconhecimento ao importante caráter literário da obra de Monteiro Lobato, optou-se por sugerir que a obra fosse contextualizada e somente adotada por educadores que tenham compreensão dos processos geradores do racismo brasileiro. Como se fosse um problema fácil de compreender.
Pensando aqui com meus botões, sou capaz de me lembrar de inúmeras obras infanto-juvenis que valorizam o negro e tratam racismo com a seriedade e o respeito que o assunto merece, e que foram editadas principalmente depois da Lei 10.639/03, que inclui nos ensinos fundamental e médio a História e a herança africanas. Posso estar errada, mas me parece que Caçadas de Pedrinho entrou para o Programa Nacional Biblioteca da Escola antes disso; sendo o contrário, pela lei, nem deveria ter entrado. Há maneiras muito mais saudáveis, responsáveis e produtivas de se levar o tema para dentro da escola sem ter que expor as crianças ao fogo para lhes mostrar que queima; e sem brigada de incêndio por perto. Isso é maldade, ou desconhecimento de causa.
A causa - a luta pela igualdade de oportunidades no Brasil - Vou relembrar apenas fatos dos períodos mais recentes, que talvez tenham sido vividos e esquecidos, ou simplesmente ignorados, pela maioria das pessoas que hoje brada contra o "politicamente correto" da esquerda brasileira. Um breve histórico das últimas três décadas e meia:
1984 - o governo do General João Batista de Oliveira Figueiredo decreta a Serra da Barriga, onde tinha existido o Quilombo dos Palmares, como Patrimônio Histórico Brasileiro, num ato que reconhece, pela primeira vez, a resistência e a luta do negro contra a escravidão.
1988 - Durante as comemorações pelo Centenário da Abolição, o governo de José Sarney cria a Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura, que terá como meta apoiar e desenvolver iniciativas que auxiliem a ascensão social da população negra. Ainda nesse ano é promulgada a nova Constituição que, no seu artigo 5º, XLII, reconhece o racismo como crime inafiançável e imprescritível, ao mesmo tempo em que abre caminho para se estabelecer a legalidade das ações afirmativas, ao legislar sobre direitos sociais, reconhecendo os problemas de restrições em relação aos portadores de deficiências e de discriminação racial, étnica e de gênero.
1995 - durante o governo de FHC adota-se a primeira política de cotas, estabelecendo que as mulheres devem ocupar 30% das vagas para as candidaturas de todos os partidos. Nesse mesmo ano, em novembro, acontece em Brasília a Marcha Zumbi contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida, quando foi entregue ao governo o Programa de Superação do Racismo e da Desigualdade Racial, com as seguintes sugestões: incorporar o quesito cor em diversos sistemas de informação; estabelecer incentivos fiscais às empresas que adotarem programas de promoção da igualdade racial; instalar, no âmbito do Ministério do Trabalho, a Câmara Permanente de Promoção da Igualdade, que deverá se ocupar de diagnósticos e proposição de políticas de promoção da igualdade no trabalho; regulamentar o artigo da Constituição Federal que prevê a proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei; implementar a Convenção Sobre Eliminação da Discriminação Racial no Ensino; conceder bolsas remuneradas para adolescentes negros de baixa renda, para o acesso e conclusão do primeiro e segundo graus; desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta; assegurar a representação proporcional dos grupos étnicos raciais nas campanhas de comunicação do governo e de entidades que com ele mantenham relações econômicas e políticas. Como resposta, em 20 de novembro de 1995, Fernando Henrique Cardoso cria, por decreto, o Grupo de Trabalho Interministerial - GTI - composto por oito membros da sociedade civil pertencentes ao Movimento Negro, oito membros de Ministérios governamentais e dois de Secretarias, encarregados de propor ações de combate à discriminação racial, promover políticas governamentais antidiscriminatórias e de consolidação da cidadania da população negra e apoiar iniciativas públicas e privadas com a mesma finalidade.
Como base para o GTI foram utilizados vários tratados internacionais, como a Convenção n.111, da Organização Internacional do Trabalho - OIT, assinada pelo então presidente Costa e Silva naquela fatídico ano de 1968, no qual o país se comprometia, sem ter cumprido, a formular e implementar políticas nacionais de promoção da igualdade de oportunidades e de tratamento no mercado de trabalho. Somente após pressão e protestos da sociedade civil e da Central Única dos Trabalhadores, é então criado o Grupo de Trabalho para Eliminação da Discriminação no Emprego e na Ocupação - GTEDEO, composto por representantes do Poder Executivo e de entidades patronais e sindicais, também no ano de 1995.
1996 - A recém criada Secretaria de Direitos Humanos lança, em 13 de maio, o Programa Nacional de Direitos Humanos - PNHD, que tinha entre seus objetivos "desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta", "formular políticas compensatórias que promovam social e economicamente a comunidade negra" e "apoiar as ações da iniciativa privada que realizem discriminação positiva".
2002 - no final do governo de Fernando Henrique Cardoso foi lançado o II Plano Nacional de Direitos Humanos, que reconhece os males e os efeitos ainda vigentes causados pela escravidão, então tratada como crime contra a humanidade.
2003 - o governo de Luiz Inácio Lula da Silva promulga o decreto que reconhece a competência do Comitê Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial - CERD, para analisar denúncias de violação de direitos humanos, como previsto no art. 14 da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, de 7 de março de 1966. Também em 2003 é criada a Secretaria Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial - SEPIR e, subordinada a ela, o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial - CNPIR, visando apoio não apenas à população negra, mas também a outros segmentos étnicos da população brasileira, combatendo o racismo, o preconceito e a discriminação racial, e tendo como meta reduzir as desigualdades econômica, financeira, social, política e cultural, envolvendo e coordenando o trabalho conjunto de vários Ministérios. Nesse mesmo ano também é alterada a Lei 9.394, de 1996, que estabelece as diretrizes da educação nacional, para, através da Lei 10.639/03, incluir no currículo dos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, segundo seu artigo 26-A, I, "estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil."
2010 - entra em validade o Estatuto da Igualdade Racial que, entre outras coisas, define o que é discriminação racial ("distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em etnia, descendência ou origem nacional"), desigualdade racial ("situações injustificadas de diferenciação de acesso e oportunidades em virtude de etnia, descendência ou origem nacional"), e regula ações referentes às áreas educacional, de propriedade rural, comunidades quilombolas, trabalhista, cultural, religiosa, violência policial etc.

A "caçada" a Caçadas de Pedrinho - Acima estão apenas alguns dos "melhores momentos" da luta contra o racismo e a desigualdade. Há vários outros que deixo de fora por não estarem diretamente ligados ao caso. Eu quis apenas mostrar que o parecer do MEC não é baseado em mero capricho de um cidadão que se sentiu ofendido pelas passagens racistas de Caçadas de Pedrinho, mas conta com o respaldo legal, moral e sensível de ativistas e educadores que há anos estão lutando para estabelecer políticas que combatam o racismo e promovam a formação não apenas de alunos, mas de cidadãos.
Em junho de 2010, o Sr. Antônio Gomes da Costa Neto (Técnico em Gestão Educacional da Secretaria do Estado da Educação do Distrito Federal, mestrando da UnB em Educação e Políticas Públicas: Gênero, Raça/Etnia e Juventude, na linha de pesquisa em Educação das Relações Raciais) encaminhou à SEPPIR denúncia de conteúdo racista no livro Caçadas de Pedrinho. A SEPPIR, por sua vez, achando a denúncia procedente, protocolou-a no Conselho Nacional de Educação. Foi providenciado um parecer técnico, por pedido da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD/MEC), realizado pela técnica Maria Auxiliadora Lopes, que é subcoordenadora de Educação Quilombola do MEC, e aprovado pelo Diretor de Educação para a Diversidade, Sr. Armênio Bello Schimdt. O parecer técnico diz assim:
"A obra CAÇADAS DE PEDRINHO só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil. Isso não quer dizer que o fascínio de ouvir e contar histórias devam ser esquecidos; deve, na verdade, ser estimulado, mas há que se pensar em histórias que valorizem os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, dentre eles, o negro."
Em outro momento:
"Diante do exposto, conclui-se que as discussões pedagógicas e políticas e as indagações apresentadas pelo requerente ao analisar o livro Caçadas de Pedrinho estão de acordo com o contexto atual do Estado brasileiro, o qual assume a política pública antirracista como uma política de Estado, baseada na Constituição Federal de 1988, que prevê no seu artigo 5º, inciso XLII, que a prática do racismo é crime inafiançável e imprescritível. É nesse contexto que se encontram as instituições escolares públicas e privadas, as quais, de acordo com a Lei nº 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), são orientadas legalmente, tanto no artigo 26 quanto no artigo 26A (alterado pelas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008), a implementarem nos currículos do Ensino Fundamental e no Ensino Médio o estudo das contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente as matrizes indígena, africana e européia, assim como a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena."
Não há censura, boicote ou banimento. O parecer técnico fala sobre orientação, contextualização, preparo do educador para trabalhar a obra na sala de aula. Ouvi pessoas bradando contra uma possível nota acrescentada ao livro, dizendo que isso em si já seria uma mordaça ou um desrespeito à obra de Lobato. Será que isso valeria também para a nota existente no livro, alertando as crianças que já não é mais politicamente correto atirar em onças? É assim:
"Caçadas de Pedrinho teve origem no livro A caçada da onça, escrito em 1924 por Monteiro Lobato. Mais tarde resolveu ampliar a história que chegou às livrarias em 1933 com o novo nome. Essa grande aventura da turma do Sitio do Picapau Amarelo acontece em um tempo em que os animais silvestres ainda não estavam protegidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), nem a onça era uma espécie ameaçada de extinção, como nos dias de hoje." (p. 19).
Não que eu tenha nada contra as coitadas das onças, espécie ameaçada de extinção, mas será que as crianças não mereceriam também um pouco mais de consideração? O próprio Lobato, depois de ser acusado de ofender os camponeses com sua caracterização de Jeca Tatu como o responsável por sua própria miséria, reconhece o erro e pede desculpas públicas através do jornal O Estado de São Paulo, escrevendo também o mea-culpa que passaria a integrar a quarta edição de Urupês, em 1818:

"Eu ignorava que eras assim, meu caro Tatu, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharada cruel que te faz feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não".
Ou seja, o próprio Lobato, nesse caso, levou em consideração o que é dito em uma de suas frases mais citadas por quem quer demonstrar a importância dos livros na formação de uma sociedade: "Um país se faz de homens e livros". Não devemos nos esquecer que, tanto na frase como no ato citado acima, ele coloca o homem em primeiro lugar.

Outras contextualizações - Não é a primeira vez que uma obra considerada clássica sofre críticas ou até mesmo revisões por causa de seu conteúdo racista. Aconteceu, por exemplo, com o álbum "Tintim no Congo", do belga Hergé. Publicadas a partir de 1930, as tirinhas reunidas nesse álbum contam as histórias de Tintim em um Congo ocupado pela Bélgica. Por parte de Hergé, a obra foi revisada duas vezes, a primeira em 1946 e a segunda em 1970, reduzindo o comportamento paternalista dos belgas e suavizando algumas características mais caricaturadas dos personagens negros. Para justificá-las, Hergé declarou que as tiras tinham sido escritas "sob forte influência da época colonial", chamando-as de seu "pecado da juventude". O álbum revisado é publicado hoje no Brasil pela Companhia das Letras, a mesma editora de Caçadas de Pedrinho *, e traz a seguinte nota de contextualização:

"Neste retrato do Congo Belga, hoje República Democrática do Congo, o jovem Hermé reproduz as atitudes colonialistas da época. Ele próprio admitiu que pintou o o povo africano de acordo com os estereótipos burgueses e paternalistas daquele tempo - uma interpretação que muitos leitores de hoje podem achar ofensiva. O mesmo se pode dizer do tratamento que dá à caçada de animais.”
Tintim na França - matéria reproduzida da France Presse e publicada na Folha de São Paulo, em 24/09/2007, conta que o O Movimento Contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos (MRAP), uma das mais importantes organizações francesas contra o racismo, solicitou à editora Casterman que incluísse em suas edições de Tintim um alerta sobre o conteúdo e contra os preconceitos raciais. Outras organizações, como o Conselho Representante das Associações Negras (CRAN) já tinham se manifestado contra o álbum anteriormente, chegando a solicitar, inclusive, que a editora parasse de publicá-lo. Segundo Patrick Lozès, presidente da CRAN, "os estereótipos sobre os negros são particularmente numerosos" e "os negros são mostrados como imbecis e até mesmo os cachorros e os animais falam francês melhor".
Tintim na Inglaterra - em julho de 2007, depois de pronunciamento da Comissão Britânica pela Igualdade das Raças (BCRE), acusando o álbum de racista, uma das grandes redes de livrarias Britânicas resolveu passá-lo da prateleira de livros infantis para a prateleira de livros para adultos, reconhecendo que os congoleses são tratados como "indígenas selvagens parecidos com macacos e que falam como imbecis". Alguns anos antes, a editora britânica de Tintim no Congo, a Egmont, tinha se recusado a editar o álbum, voltando atrás por pressão de leitores, mas publicando-o com uma tarja de advertência sobre seu conteúdo ofensivo.
Tintim na Bélgica - um congolês, estudante da Universidade Livre de Bruxelas, entrou na justiça belga com queixa-denúncia e solicitação para que o álbum fosse retirado de circulação.
Tintim nos Estados Unidos - o álbum Tintim no Congo foi retirado das prateleiras da Biblioteca do Brooklyn, em Nova York, ficando disponível apenas para consulta solicitada.

Adaptações e a integridade de um clássico - Creio que alguns dos que hoje exaltam a genialidade do escritor Monteiro Lobato podem não tê-lo lido de fato, conhecendo seu universo através das diversas adaptações de suas obras para a televisão. Esses, com certeza, conhecem uma versão completamente filtrada do conteúdo dos livros; e seria interessante ficarem atentos os que reclamam de censura e de ditadura do politicamente correto. Segundo matéria do Estado de São Paulo em 01/11/2010, uma parceria entre a produtora Mixer e a Rede Globo levará ao ar em outubro de 2011 uma temporada em animação de 26 episódios baseada no Sítio do Picapau Amarelo. Em entrevista ao jornal, o diretor executivo da Mixer contou que "resquícios escravocratas em referência a Tia Nastácia serão eliminados da versão". Outra mudança, segundo ele, é em relação ao pó de pirlimpimpim: "No original, eles aspiravam o pó e 'viajavam'. Na versão dos anos 80, eles jogavam o pó uns sobre os outros. Ainda não decidimos como será agora".
Ou seja, desde que foi para a televisão, a obra de Monteiro Lobato tem sido adaptada, suavizada, contaminada pelo "politicamente correto". Talvez seja essa a "lembrança" de boa parte dos que dizem não ver racismo na obra de Lobato. Não seria o caso de brigar para que as referências racistas sejam mantidas, porque assim os pais também podem discutir racismo com os filhos que assistem TV Globinho? Ou que o pó de pirlimpimpim volte a ser cheirado para que as crianças, em contato com uma possível incitação ao consumo de drogas e sem nenhuma orientação, descubram por si só que aquilo é errado? Ou é ilegal, como também o é a adoção no Programa Nacional Biblioteca da Escola de obras que não obedeçam ao critério de ausência de preconceitos e estereótipos ou doutrinações.
Mesmo assim, o MEC pede apenas um preparo do educador, uma nota explicativa, uma contextualização. E as pessoas, principalmente as brancas, dizem que não pode, que é um absurdo, um desrespeito com o autor. Desrespeito maior é não se colocar no lugar das crianças negras matriculadas no ensino público médio e fundamental, é não entender que uma nota explicativa que seja, uma palavrinha condenando o que nela causa tanta dor, pode não fazer diferença nenhuma na vida de adultos, brancos, classe média ou alta e crianças matriculadas em escolas particulares; mas fará uma diferença enorme nas vidas de quem nem é levado em conta quando se decide sobre o que pode ou não pode ferir seus sentimentos. Desrespeito é não reconhecer que o racismo nos divide em dois Brasis; um que se fosse habitado só por brancos (ricos e pobres), ocuparia o 30º lugar no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), e cairia para 104º lugar se fosse habitado só por negros (ricos e pobres). Ainda pretendo escrever um texto sobre manifestações de racismo na escola e sua influência nos primeiros anos de vida e de educação de brancos e negros. Mas, por enquanto, para quem chegou até aqui e continua achando que não há nada demais em expressões como "macaca de carvão", "urubu fedorento", "beiço", "carne preta", seja nos dias de hoje ou nos dias de escravidão, deixo apenas uma frase que poderia ter sido dita por outro personagem negro de Monteiro Lobato: "O vício do cachimbo deixa a boca torta".

sábado, 14 de abril de 2012

“Ai se eu te pego meu reitor”: Michel Teló, xerife Rodas e o recrudescimento do conservadorismo nacional (parte I)

“Só que tem muito intelectualzinho de esquerda que ganha a vida defendendo vagabundo. E o pior é que esses caras fazem a cabeça de muita gente”

(Capitão Nascimento)

ai-se-eu-te-pego

Em vista dos últimos acontecimentos, o paranaense Michel Teló deve estar vendo sua vida desdobrar-se diante de si como num sonho. Ou antes, como no estágio de vigília, em que ainda estamos completamente acordamos, e os eventos vivenciados durante os sonhos noturnos se misturam à realidade cotidiana. Entretanto, contrariando certa concepção do senso comum, são nesses momentos - em que a realidade ainda não foi completamente simbolizada pelos sentidos - que o Real de sua dimensão fantasmagórica se revela. São momentos de revelação, quando as estruturas desvelam toda sua fragilidade, correlata da fragilidade do próprio sujeito que as configurou.

Tudo começou quando Teló, cantor de relativo, porém, modesto sucesso nacional, teve sua gravação de “Aí se eu te pego” transformada no maior sucesso musical de 2012 no mundo todo, tornando-se uma das canções mais gravadas e executada de todos os tempos, igualando-se a outras mais canônicas, como “Garota de Ipanema” e “Aquarela do Brasil”. Uma matéria elogiosa da revista Forbes chegou a comparar Teló com Carmem Miranda (comparação mais pertinente do que pode parecer, de início) e a revista Época lançou uma matéria de capa – também elogiosa - em que dizia que o cantor conseguia transmitir os valores da cultura popular para todas as classes (particularmente, eu acho que a Gaby Amarantos faz isso melhor). O cantor também conseguiu emplacar seu hit no top 100 da Bilboard, feito antes conseguido apenas por nomes que projetaram sua carreira voltada para o exterior, como Sérgio Mendes, Bebel Gilberto, Céu e Sepultura.

Vertiginosamente o hit ganhou numerosas gravações nas mais diversas línguas, levando o rapaz ao estrelato mundial da noite para o dia. O mais curioso, interessante ou assustador, a depender da perspectiva, é que seu sucesso não foi fruto de uma estratégia de lançamento internacional minuciosamente planejada (creio que sua produtora ou gravadora sequer teriam forças para esse empreendimento). No que pude averiguar - e aqui posso estar enganado - o movimento foi mais ou menos aleatório (é claro que no interior de um sistema altamente gerenciado, ou administrado, para ressuscitar uma expressão algo “fora de moda” dos frankfurtianos) e se deu para além das determinações diretas da Indústria Fonográfica. Neymar, mais novo xodó arrepiado dos brasileiros, craque de bola e fã declarado do artista, comemorou alguns gols fazendo a coreografia da canção. “Delícia... Delícia... Assim você me mata”. Na sequência, alguns jogadores brasileiros também fizeram a dancinha na Europa e, sobretudo, ensinaram para alguns craques consagrados do futebol europeu, como Cristiano Ronaldo. Depois disso, a moda foi se espalhando e versões da canção com a dança começaram a circular na rede (algumas inclusive muito interessantes, como a que mostra soldados israelenses fazendo a coreografia, o que acaba conferindo uma dimensão inusitadamente sombria para os versos “Aí se eu te pego”), chegando a assombrosos números de acessos na rede. E o verão mundial nesse ano foi verde-amarelo.

epoca1 Para além dos méritos da composição - que nesse caso creio que é um dos aspectos menos significativos e, por isso mesmo, dos mais explorados por aqueles que criticam o artista. Em todo caso, só pra não passar batido, é um caso absolutamente comum, presente em qualquer canção mais somática, de refrão temático para celebrar a conjunção entre sujeito e objeto - esse caso inédito em território nacional é preciosamente revelador dos mecanismos atuais de funcionamento da Indústria Cultural, sendo fundamental que se atente para as relações de parasitismo e complementariedade no interior das ramificações da Indústria do Entretenimento. Pensar, por exemplo, em como a Indústria Fonográfica, que passa por um processo profundo de crise, se retro-alimenta da ascensão vertiginosa da Indústria do Futebol, e como a partir disso pode elaborar novas estratégias para se manter no topo – pensando, por exemplo, em vínculos contratuais mais diretos de cantores e artistas em geral com o mundo da bola, promovendo espetáculos bizarros, divertidos e altamente lucrativos no futuro. O que de cara coloca uma série de questões para uma concepção muito rígida de planejamento da Indústria Cultural, ou certo mito de passividade da recepção, exigindo que se estabeleça uma série de mediações de ordem subjetiva para se pensar as relações no interior do sistema. O caso serve também para refletir sobre a condição híbrida de um objeto de cultura de massas, como é a canção desde seus primórdios (mas que após Michael Jackson chega a seu momento de maturidade). Tal objeto parece constituir-se a partir de um processo cada vez maior de fragmentação, cujo segredo consiste em inserir em cada uma das partes relativamente autônomas – arranjo, coreografia, apresentação, vídeo, marketing, etc – a relação com o todo, de modo que a genialidade está na possibilidade de sustentação infinita dessa tensão, sem deixar que se desfigure o sentido. A questão no caso, não é mais a construção de um objeto pleno autônomo, e com isso os critérios de avaliação que pensam a partir de uma concepção imanente de forma precisam ser re-avaliados. Não estou dizendo que Teló consegue fazer isso com sucesso (Billie Jean consegue, assim como Pink Floyd e os Tropicalistas), e sim buscando tirar conseqüências do fato de que o sucesso da composição se deve inicialmente mais à reprodução de sua coreografia – muito pobre, é bom que se diga, assim como é bom que se diga que as do É o Tchan eram muito melhores, e várias do Funk também – do que a relação da melodia com a letra. Nesse caso, qual será o “centro” da composição? Será possível ou desejável determiná-lo?episc3b3dio-264-ai-se-eu-te-pego

Passado pouco tempo após toda essa euforia inicial da Teló-mania, e  invertendo a equação que geralmente se atribui aos mecanismos da cultura de massas - o excesso de exposição não fez o autor ser cada vez mais exaltado, contrariando a máxima adorniana de transformação do quantitativo no qualitativo. Ao contrário, nesse caso, as reações contrárias começaram a se tornar mais e mais freqüentes. Primeiro as já costumeiras críticas contra a baixa qualidade estética da composição foram ficando mais duras e desabusadas, incluindo um episódio constrangedor no Jornal Nacional, quando foi lançado um clipe com a versão em inglês da música, que foi seguida por risos dos apresentadores, atentando para o quanto a canção era “grudenta”. O interessante aqui é apontar a contradição: a canção foi lançada no horário mais nobre do “padrão globo de qualidade”, entretanto, o desconforto foi cinicamente marcado, e não pode ser tomado com irrelevante, marcando uma fissura nas relações entre simbólico e econômico. Depois as coisas foram saindo do campo da opinião e atingindo áreas mais sérias da vida do cantor, como a acusação de que a canção teria sido composta por um grupo de sete paraibanas em viagem à Disney.. Apesar da acusação tocar num ponto problemático do sistema de direitos autorais no Brasil, que sempre foi algo próximo do descaradamente criminoso, convém se perguntar sobre o grau efetivo de culpabilidade do rapaz - como se ele fosse uma espécie de ladrão de sambas pós-moderno - uma vez que a canção havia tido pelo menos duas outras versões antes da que se consagrou. O que levanta ainda outra questão ainda mais delicada sobre a própria noção de autoria nesse caso. Pois não foram os elementos estéticos introduzidos na versão de Teló os responsáveis pelo sucesso da canção, aonde as outras fracassaram? Não seria ele, no caso, tão autor quanto os demais? O que é, afinal, um autor, nesse caso?

Em todo caso, a coisa ficou tão feia para o cantor que teve até revista de fofoca que tinha como matéria de capa o “Inferno Astral de Michel Teló”. Mas o que essa rejeição em massa pode nos dizer sobre os padrões de legitimidade presentes em nossa sociedade, e sobre o momento político atual? Será que esse movimento tem relação exclusiva com a qualidade da composição? O brasileiro só produz e consome canções de qualidade e de bom gosto, de altíssimo padrão de qualidade? Enquanto o sucesso do rapaz era uma “aberração” nacional, dava pra esconder a sujeira debaixo do tapete. O sucesso no Brasil sempre pode ser explicado a partir da falta de cultura e senso crítico do povo brasileiro, que adora consumir porcarias. O povo associado com a carência, com a falta, numa espécie de olhar complacente de superioridade sobre a miséria. Mas a questão se complica quando nossos pecados íntimos são mostrados e aprovados pelos padrões internacionais de qualidade – aprovação que faz todo sentido, uma vez que a canção de Teló não fica nada a dever as de ícones pop globais como Shakira, Beyoncè, U2, Justin Bieber, e tantos outros. Nesse caso, fica difícil o reducionismo de sustentar que mesmo os europeus sofrem de defasagem cultural – afinal, como macular nosso modelo? No momento em que “Ai se eu te pego” cruza a porteira do curral para ganhar o mundo, é fundamental que seu valor seja imediatamente rejeitado e questionado, marcado como ilegítimo e visivelmente inferior. Aberrante. O movimento principal no caso consiste em desvincular essa canção de certa imagem de Brasil construída para nós mesmos, tipo exportação. Colocá-la para fora da boa tradição cancional brasileira, que é o verdadeiro modelo de representação da nossa identidade, aquele em que devemos nos reconhecer.  charge2

Esse movimento não é, alias, exclusivo do caso Teló. Na história da canção brasileira, foram sendo desenvolvidos dois modelos de avaliação complementares. O paradigma da modernidade, que consiste em uma determinada maneira de se apropriar do material sonoro e que tem por modelos paradigmático a Bossa e a MPB, e que comporta alguns sistemas de valores próprios, como forma crítica e bom gosto. E o paradigma da tradição, que confere legitimidade a formas populares ancoradas em uma pretensa experiência comunitária mais orgânica, como o samba. Assim, toda uma longa tradição de canções que não guardam relação direta com algum lugar “tipicamente nacional” (sertão, morro, comunidade) ou com algum projeto de subjetividade nacional é colocada no segundo escalão da música nacional, como se essa obra, produzida aqui, em certo sentido não preenchesse os requisitos de brasilidade.

O movimento propriamente perverso e sagaz da ideologia nesse caso é apresentar esse juízo social e ideológico de estabelecimento de cânones como um caso de juízo estético. Teló e toda a música tida como brega ou romântica é atacada como sendo de mal gosto e mal feita, sem que se explicite ou mesmo se compreenda os mecanismos de feitura desse tipo de composição, adotando indistintamente valores de modelos tidos como paradigmáticos. Os argumentos estéticos, nesse caso servem para encobrir, em primeiro lugar, a evidência de que não é em nome da boa Arte que se está falando, mas em nome da preservação de certo lugar sócio-simbólico (que não se resolve facilmente com a distinção entre ricos e pobres, pois a rejeição do Teló, por exemplo, “transcende” as classes), e em segundo lugar, a própria análise estética, que nunca é feita de fato, sendo no máximo substituída por adjetivações que explicam pouco do objeto e muito mais do lugar de fala daqueles que os emite (mal feita, brega, pobre, pouco articulada, repetitiva, grudenta, e outras adjetivações que cobrem de pompa e sobriedade o vazio argumentativo). Não que se esteja aqui caindo na também equivocada postura do pseudo-especialista, que cobra do ouvinte um discurso especializado (sempre nos termos da música Ocidental), estabelecendo uma equivalência duvidosa entre domínio de jargão técnico e conhecimento de causa. No caso da canção, esse objeto híbrido localizado entre necessidades práticas e estéticas da linguagem (Luiz Tatit), nada mais equivocado que tal exigência pela exploração de apenas um dos pólos. O ouvinte médio não precisa do especialista para entender os mecanismos de funcionamento da canção – bem diferente do que se passa com o discurso literário, por exemplo. A crítica no presente caso não está reivindicando um maior rigor “científico” na análise do objeto. Ao contrário, o que se cobra é que se assuma claramente que questões formais, nesse caso, ficam em segundo plano, para evitar justamente que julgamentos morais e políticos assumam a máscara de considerações estéticas imparciais.

“Ai se eu te pego meu reitor”: Michel Teló, xerife Rodas e o recrudescimento do conservadorismo nacional (parte II)

Michel-TelóSou feio mas estou na moda, afirma cantor em entrevista para Folha
Entretanto, o caso de rejeição de Michel Teló permite traçar ainda outras considerações sobre o atual momento que vive a sociedade brasileira. Um momento em que certa ética de ressentimento generalizado é mobilizada em nome de uma guinada à direita que tem trazido conseqüências cada vez mais nefastas, como o aumento dos chamados grupos de ódio, o ataque direto a diversas minorias, com ênfase nos homossexuais, a repulsa imediata de movimentos de contestação social de qualquer ordem, seja uma greve de professores, uma passeata de estudantes ou um simples passeio noturno de bicicleta, a perda dos limites éticos entre piada e pura violação dos direitos em determinados programas de humor, etc. É claro que a sociedade brasileira sempre foi profundamente conservadora, não sendo possível afirmar que o momento atual o seja mais que os anteriores. Mas é possível observar um movimento mais ou menos conjunto de recrudescimento da direita em diversos níveis da opinião pública, e uma desfaçatez cada vez mais declarada de adotar a perspectiva conservadora como algo decididamente positivo, ou mais engraçado, jogando por terra todas as últimas conquistas em sentido contrário. Como se o sucesso estrondoso do capitão Nascimento (e não estou culpabilizando o filme por captar esse movimento da sociedade) houvesse exorcizado todos os fantasmas e a sociedade pudesse, sem culpa, vomitar todos os seus preconceitos e desejos obscenos para cima do Outro, afinal, vivemos numa democracia onde impera a liberdade de expressão. Esquece-se que a liberdade de tudo dizer desvinculada de conseqüências éticas para o que foi dito implica que, em algum lugar sob o nosso discurso, existe alguém amordaçado.
Pensando esse movimento em termos de separação de classes, é aparentemente mais fácil criar uma teoria explicativa redutora para dar conta do processo. Os ricos do país continuam sofrendo de horror aos pobres – patologia de matriz colonial com conseqüências nefastas – e rejeitando toda manifestação que não passe pela clivagem de uma lógica paternalista. O tom cada vez mais desabusado e, por vezes, criminoso, da revista Veja, é expressão perfeita desse movimento, que coincide com a guinada do neoliberalismo para uma política mais “social” nos anos do governo Lula. A classe média, por assim dizer, – acostumada com o apagamento do Outro - teve uma overdose de pobreza – considerando isso dentro de todos os limites, evidentemente - e se apavorou. Dessa perspectiva, a rejeição de Michel Teló é facilmente compreensível, e se enquadra no mesmo movimento de exclusão de artistas como Waldick Soriano, Nelson Ned, Fábio Júnior e gêneros como o bolero, o tecno brega e o funk carioca. Evidentemente que o movimento foi um tiro no pé em termos políticos, uma vez que os discursos sociais se fortaleciam a partir do contraponto com uma direita claramente assustada com a ameaça vermelha. Os índices de aprovação de Lula e a eleição de Dilma são apenas a ponta do iceberg.
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Eis o perfil de quem perigosamente, segundo a Veja, teria o poder de decidir a eleição a favor de Lula. Detalhe que a revista diz que a “Nordestina” tem 27 anos, quando o título de eleitor dela diz que tem 30. Para que essa distorção, descarada, na capa?


Entretanto, a questão se complica quanto começamos a perceber que os discursos de rejeição de Michel Teló - apesar dos índices de venda continuarem altos em ambas as esferas sociais - também tem sido elevados entre as camadas populares, aumentando proporcionalmente com seu sucesso no exterior. O esquema lógico armado no parágrafo anterior acaba desabando, ao menos que se elabore alguma teoria estapafúrdia de total coincidência de interesses entre as classes, em que todos adotam, em comunhão, a mesma escala de valores. No entanto, em certo sentido, é justamente esse o imbróglio a se resolver, pois a ação efetiva nos dois pólos é, de fato, coincidente. A solução do problema é aparentemente simples em sua enunciação: o que as classes desfavorecidas rejeitam em Teló não é a mesma coisa que as elites. O complicado no caso é compreender no que consiste, exatamente, essa coisa, e de que maneira desse antagonismo é possível surgir certa “conciliação” que está na base do recrudescimento direitista em todas as camadas sociais, que passam a considerar com simpatia movimentos profundamente conservadores – por exemplo, o massacre de um cantor que não se enquadra no cânone, sempre estabelecido de cima para baixo, mas que não deve ser contestado. Ou a ostentação de gestos e posturas homofóbicas, vistas com simpatia. Novamente, não é que a sociedade se tornou mais conservadora. Mas é como se o conservadorismo tivesse se tornado mais desabusado. Soltaram as bruxas.
Acredito que o fundamental aqui é que, independente do ângulo de observação, o autor de “Fugidinha” continua sendo o Outro. Não há uma identificação em nenhuma das esferas sociais – sempre pensando da perspectiva daqueles que criticam o cantor. E aqui acho que cabe uma comparação algo abrupta - mas que tenta tirar vantagem desse salto - com os acontecimentos recentes na universidade de São Paulo. A USP é, sob muitos aspectos, uma instituição conservadora, mantendo-se muito aquém de transformações importantes no cenário universitário atual, como a discussão sobre cotas, a reformulação profunda do sistema de ingresso, entre outras coisas. Ainda assim, tem uma forte tradição de debates e de força política estudantil de esquerda – a coincidência entre uma postura excludente e a produção intelectual à esquerda é, por sua vez, um dos principais nós não só da universidade, mas da própria intelligentia crítica nacional, razão maior de sua eterna crise, e responsável direta pelo fenômeno Rodas. O reitor atual dessa universidade é o senhor João Grandino Rodas, que foi louvado pela revista Veja como o xerife que a universidade precisava, aquele que apareceu para colocar ordem no circo, fazendo parte da mesma estirpe de figuras como Jair Bolsonaro, Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo. A imagem de xerife é bem escolhida, pois aponta a truculência e o despreparo dessa figura para lidar com quaisquer tipos de problemas da universidade, consistindo sua principal função a de ser pau mandado direto do governo do estado (sua nomeação foi totalmente arbitrária), impedindo qualquer manifestação contrária aos rumos desse modelo político falido. Criminalização de movimentos sociais de estudantes e funcionários, abolição de todo debate, fechamento cada vez maior dos espaços públicos, gastos indevidos e suspeitos, punição para os que tentam contestar quaisquer das arbitrariedades, relações direta com uma policia com suspeitas de ligação com o PCC. Enfim, tudo o que de melhor há na história cheia de máculas da universidade é enfim jogada no lixo pelo grande xerife que não tem o menor peso na consciência. Entre outras coisas, por uma razão bem óbvia, que foi a grande sacada da direita paulistana nos últimos tempos: a opinião pública está ao seu favor.
Que a elite mais estúpida apóie nosso Clint Eastwood tabajara não causa389_rodas nenhum espanto. Afinal, o xerifão está defendendo diretamente os seus interesses, tornando a universidade um lugar mais “digno de respeito”. Agora, como acontece com Teló, o xerife Rodas tem apoio não só das elites, mas do grosso da população, inclusive dos principais prejudicados por sua política. O episódio chave desse processo, até onde consigo perceber, foi o violento ato de desocupação da reitoria em 2007, quando a tropa de choque entrou na Universidade para retirar os estudantes que tentavam negociar, sem sucesso, com seus representantes (ainda na gestão anterior). O ponto central nesse processo foi o apoio absoluto da opinião pública, todos aparentemente afinados com a lógica Datena de tratar questões sociais como caso de polícia. Creio que foi a primeira vez que todos os envolvidos se deram conta de que os interesses da sociedade eram opostos aos interesses da universidade, principalmente daqueles que lutavam em nome do “povo” marginalizado. Logo depois veio o Tropa de Elite I, que é a mais brilhante formalização sobre essa mudança de ânimos – e por isso, a meu ver, é a obra cinematográfica brasileira mais significativa dos anos 00, por captar todo um espírito de época. Quer dizer, a percepção de que há um abismo entre as reivindicações dos estudantes e os interesses da sociedade existe desde o surgimento do movimento estudantil. Mas essa foi talvez a primeira vez que a população tinha satisfeita a sua necessidade sádica de desforra, de revanche, expressando claramente o desejo de não querer ser representada, com a consciência profunda da impossibilidade dessa representação, que nunca se deu, a não ser como promessa.
Acredito que esse episódio é paradigmático na compreensão daquilo que a direita enfim aprendeu nos últimos tempos. O modo como o ressentimento de classe pode ser mobilizado não para um desejo de transformação social, uma mudança profunda no modo de relação entre as classes, mas em sentido contrário, na defesa feroz da manutenção atual dos papéis. A percepção, profunda e correta, é a de que os estudantes que ocuparam o prédio da reitoria em nome de uma causa a princípio justa só podem fazer isso por conta de seu privilégio de estar na USP. A ética do ressentimento apaga então as razões do movimento (uma efetiva necessidade de transformação) para se concentrar nas condições presentes de produção do gesto (o privilégio de classe). Pois se a gigantesca multidão de desprivilegiados do país não pode sequer pensar em fazer algo parecido (na melhor das hipóteses, só apanham e vão presos) – não podem mas fazem, haja vistas os inúmeros e crescentes movimentos de ocupação rural e urbana - e haja vista que aquele movimento dos estudantes, no limite, não se reflete nos interesses dessa população (independente das intenções dos agentes), tudo o que resta é a exposição desse privilégios, no momento mesmo em que se luta para eliminá-los. Nesse momento, basta a direita inverter o foco do discurso: não é mais o pavor dos pobres que os move, o desejo de fechar cada vez mais aquele espaço público, mas um desejo de democratização da violência, onde todos, ricos e pobres, devem se submeter ao estado de coisas atual, sob pena de ser punido violentamente da mesma maneira. I have a dream.
charge Essa foi a verdadeira carta branca para o xerifão, que tem, entre outros privilégios, o apoio total do governo do Estado e uma polícia toda para si. Quem quiser reivindicar algum direito pode ser preso ou ser mandado embora por justa causa. Enfim, todas as arbitrariedades do setor privado e que já é realidade para a ampla maioria da população há muito tempo. A questão é assim invertida: ao invés de se lutar para que os privilégios da USP se estendam a todos, de modo a deixarem de ser privilégios e passarem a condição de direito, a cobrança é para que aquele espaço se subordine totalmente a lógica de precariedade que reina absoluta. O que se exige é uma espécie de nivelamento por baixo, muito por conta da consciência de que as coisas têm sido assim há muito, muito tempo.
Dessa maneira, exige-se que os manifestantes sejam punidos porque, ao invés de aproveitar a oportunidade de ficar estudando 12 horas por dia como nos mitos correntes sobre estudantes exemplares, ficam fumando maconha, fazendo baderna e impedindo as aulas. Ignora-se a legitimidade do que é reivindicado para comprar totalmente um discurso que, no limite, tende a acabar com a possibilidade de sequer se pensar em um modelo efetivamente democrático de universidade pública. Da mesma maneira, acredito que Michel Teló (opa, voltamos) representa também esse mesmo esquema do elemento que escapa ao controle e é rejeitado como ilegítimo. Afinal - para colocarmos as coisas de maneira bem direta - porque ele, tão simpático e tão clarinho, vai fazer essa porcaria de música de empregada? Ao invés de se colocar no seu lugar junto com a MPB ou a música alternativa, vai fazer música ruim? E ainda mostrar pra todo mundo? Levar essa imagem para fora do país consiste em crime da maior gravidade. De um lado, rejeita-se todo o estilo musical, e junto com ele, a ralé que lhe deu forma. De outro, rejeita-se mais a figura do bom moço que parece ocupar um lugar ao qual não deveria pertencer, fugindo do papel que lhe seria reservado. Ao fundo, a sensação incômoda de que Teló deve seu sucesso ao adjetivo universitário (artista\maconheiro\desviantes) que qualifica o seu sertanejo. Assim sendo, ele não deveria fazer o sucesso que fez, da mesma maneira que todo mundo, em seu estilo, não faz, a não ser como o lixo que é. Destacar-se sem o apadrinhamento dos poderosos é um grande risco – curiosamente, inclusive nessa rejeição posterior ao sucesso mundial segue valendo a comparação de Teló com Carmem Miranda: em ambos os casos não é a qualidade estética que está em jogo, mas a adequação aos padrões do que deve e do que não deve ser valorizado - e a vingança dos outros desapadrinhados é cruel. A narrativa é breve: o cantor não recebe as bênçãos da Comissão Defensora da Moral e Bom Gosto Estético, condenado por partilhar uma linguagem rebaixada que revela uma parcela ignorante, vergonhosa e desdentada da sociedade. Na sequência, essa parcela social que não rejeita o estilo e poderia ver no sucesso do cantor (ou na luta dos estudantes) a confirmação de seus padrões realiza o movimento oposto, e passa a considerar o sucesso do rapaz (da ocupação) como privilégio ilegítimo, por não se filiar diretamente aos interesses de certa camada do poder. Assim como os “maconheiros” da USP, que muito provavelmente também não irão gostar muito de serem comparados com o Michel Teló.
O ressentimento acaba unindo os pólos opostos bem demarcados da sociedade brasileira, ainda em detrimento do lado mais fragilizado - embora, sob muitos aspectos, mais forte. Existe outro famoso momento da história em que os impulsos conservadores da elite e do povo foram catalisados em torno da eleição de um bode espiatório. Judeu, no caso. Por enquanto, parece que essa simpatia conservadora se concentra, sobretudo, no sudeste, em especial na política paulistana. Ainda assim, é motivo para preocupação, uma vez que nenhuma conseqüência positiva pode sair desse estado de coisas que vem se sustentando.

04 \ 2012

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Como continuar a escapar fedendo?


Em tempo de SOPA e PIPA, conseguir baixar aqueles discos legais ou o último episódio do House ou do The Big Bang Theory ou aquele filme descolado para o fim de semana ficou osso.
Em época de globalização, tio Sam encoxa lá e a gente sente aqui.....


Para manter nosso projeto de democratização da informação, cultura e lazer, vou ensinar como continuar baixando coisas, por outros meios internéticos que não dependem de sites de hospedagem (como o Megaupload e o Fileserve) e sim usando o velho companheiro TORRENT.

As instruções são as mesmas para todo tipo de mídia.

Primeiro passo: Baixar um programa de TORRENT. Eu gosto muito do Bit Torrent (clique no nome para acessar a página de download), mas você pode entrar em qualquer baixaki da vida e escolher o que te agrada mais.

tendo o programa instalado no computador, já estamos aptos a compartilhar o que quer que seja para (e do) nosso computador.... mas como baixar?

Segundo passo: encontrar na internet os link de onde baixar o arquivos. Existem muitos repositórios de conteúdo... eu gosto muito dos:

(i) piratebay (clique para acessar) - quem quiser se inteirar na parte política da coisa de compartilhar informação, pode acessar o http://partidopirata.org/;
(ii) http://torrentz.eu/ (esse é bom porque procura o arquivo em várias bases e espelhos de repositório de links!) e


Para filmes e séries da TV (do mundo todo) eu recomendo o http://eztv.it/. E se você precisa de legenda, só procurar no http://www.opensubtitles.org/en ou no http://legendas.tv (esse precisa de cadastro (gratuito), mas é muito amigável e especializado em legendas em Português Brasileiro, Português Europeu e Inglês).

Aí você faz assim quando quiser assistir séries e filmes:

1. Procura o que quer no http://eztv.it/ ou qualquer outro repositório acima, baixa o arquivo torrent do que deseja.
2. Clica no arquivo torrent que você baixou. Provavelmente seu programa de download Torrent vai abrir sozinho e perguntar se você quer baixar o arquivo que o link se refere....
3. Você aceita e espera o download terminar. O tempo dependerá da sua conexão e do tamanho do arquivo que você está baixando....
4. Depois, pega o nome do arquivo de vídeo baixado pelo torrent e entra em um dos sites de legenda listados acima... procura a legenda com o nome exato (às vezes o nome está diferente mas a legenda serve) e baixa o arquivo de legenda.

5. Para assistir a sua série com legenda, você precisará de um pacote de codecs no seu computador e também do Windows Media Player Classic....se você não tiver isso, para baixar tudo clicando aqui!

6. tendo os codecs e o WMP Classic instalado no seu computador, basta abrir o arquivo de vídeo no WMP classic e depois clicar em crtl+L para abrir o carregar legendas. Escolha a legenda (que você baixou - geralmente formato .srt) do programa que você está assistindo e clique em ok. Seu vídeo estará com legenda!


Quem tiver dúvidas, pode perguntar nos comentários que eu dô uma mão.... o que eu não faço para esse povo gostar de saber e compartilhar?




terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Deixem o Teló pegar quem ele quiser!

Na moral, cansei da galera metendo o pau no Teló e "justificando" seu próprio preconceito pela suposta falta de "qualidade" da letra. O sucesso do cara é interessantíssimo, prova de que muita coisa mudou no cenário musical. Estourar assim sem planejamento, sem estratégias de marketing para lançar no exterior, por vias indiretas e não calculadas, cantando em português uma música pop mas totalmente abrasileirada, é no mínimo uma coisa pra se pensar – qual a dinâmica da indústria fonográfica hoje?  Agora tem que esperar pra ver se "ai se te pego" é uma nova Macarena, ou é um novo Khaled (lembra dele). Relacionar sucesso com qualidade é muito "ingênuo", e geralmente usado para sustentar os próprios preconceitos estéticos.

 

                                    Graaande Khaled!

Agora voltando a questão da letra. A qualidade de uma canção não se mede pela qualidade de sua letra. Não estamos falando de poesia. A qualidade de uma letra está em sua relação com todos os demais componentes de uma canção, harmonia, melodia, enunciação, performance, ritmo. Aquilo que se diz se subordina ao modo de dizer. Sinceramente, quer dizer que o James Brown, um dos maiores gênios da música mundial, é uma porcaria porque tem letras do tipo "Hot Pants", ou "Sex Machine"? Quer dizer que Bob Dylan é muito mais incrível que os Beatles porque tem letras melhores? Quer dizer que a cancion latino americana ou o rap é mil vezes melhor que o samba pelo teor mais denso dos conteúdos de suas letras? Quer dizer realmente que nós conhecemos todas as letras das canções americanas que gostamos? Quer dizer que voce realmente acredita que a qualidade da letra em português influenciaria mais ou menos o sucesso de Teló na rússia, em Israel ou na Alemanha?

Existem letras mais densas, em que a palavra torce seu significado imediato para ampliar seus sentidos. Caetano, Chico e outros compõem nesse estilo. Alguns jongos e sambas mais cifrados também. E existem obras primas nesse modelo, tipo Pedaço de mim, Tropicália.


Existem letras mais diretas, em que a palavra busca comunicar imediatamente, sem grandes floreios. A palavra quer dar um recado. Existem obras primas nesse modelo "simples" e direto: Chega de Saudade, Conversa de Botequim, Detalhes, Diário de um detento.


Existem letras que retorcem seu significado não em nome da própria palavra, mas em nome do corpo. Comunicam mais o desejo de dançar que seu próprio sentido. Existem obras primas nesse modelo, como várias do Jorge Ben, alguns sambas e marchinhas, Tim Maia, pra ficar no óbvio e não polemizar.

Não é a escolha do modelo a priori que determina a qualidade da canção. As que sofrem mais preconceito - aqui onde seguimos um modelo racionalista eurocentrico e temos aversão a ameaçadora presença cortidiana do passado escravista - são as do terceiro tipo, que apelam antes para o corpo. Mas não é porque o refrão é Taj Mahal \ Taj Mah \ Te te te re te te ou Ala la oooo \ Mas que calo ooo ooo, que a música é uma porcaria. Pelo contrário, é nessa economia de meios expressivos em nome de uma expressividade de outro tipo que pode estar sua genialidade.

E não estou dizendo que o Michel Teló fez algo genial. Estou dizendo que as críticas são mais baseadas em preconceitos, espírito de porco e zé povinhes do que em preocupações estéticas ou patrióticas de qualquer tipo. Acredito que o sucesso de Teló tem algo pra dizer, para além de juízos estéticos formados a partir de outros parâmetros que servem para deslegitimar ele enquanto fenômeno, e não ajudam a entender o que acontece hoje. Eu não acho que ele é bom, mas acho que deslegitimar pura e simplesmente é um gesto muito mais conservador, que quer manter os lugares bem demarcados como estão, o Olimpo já consagrado e intocável. As perguntas que fazemos às canções podem ser mais reveladoras do que elas próprias. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Aí se eu te pego: versões do hit que dominou o mundo (pelo menos nesse mês)

michel-telo
Você pode até não gostar, mas a música gravada pelo paranaense Michel Teló está fazendo sucesso no mundo inteiro, e bem rápido. É claro, não se trata de nenhuma novidade no cenário pop, mas nesse caso a equação se inverteu, pois geralmente essas canções vem do centro para a periferia, e não o contrário. E “Ai se eu te pego” é por enquanto a canção mais executada nas rádios em todo o mundo. O fenômeno é tão grande que mereceu uma matéria da revista Forbes, em que o novo rei do Country Michel Teló é comparado com Carmem Miranda (aí forçou) e com a Xuxa (o Michel é mais cantor que essa, mas nem se compara em termos de cifras de vendagem de discos, Xuxa tem 4 discos entre os 10 mais vendidos do Brasil).
Aparentemente, o segredo do sucesso é guardado em outro campo que não o da indústria fonográfica, mas nos campos de futebol e nas quadras de basquete. Alguns jogadores famosos, como Cristiano Ronaldo e atletas do Denver Nuggets, contagiados pelos colegas brasileiros, fizeram a clássica coreografia. Daí já era, caiu nas graças do povo e todo o mundo quer dançar e entrar na onda. Por ter uma estrutura pop classica, com um refrão em que é relativamente simples encontrar um equivalente em outra lingua, e um ritmo também de fácil transposição – se fosse um forró tradicional seria mais difícil, mas por ter outros elementos como o reggae, o pop, e o sertanejo, o processo é facilitado – o hit consegue ser tranquilamente transposto para outras linguas. É claro, a questão aqui não é se a música é boa ou não – sucesso não é sinônimo de qualidade, assim como não é sinônimo de dominação cultural. O sucesso do hit nesse caso se deve a uma conjunção de acerto técnico com sorte, à relação dos brasileros com o futebol mundial, à onda dos jogadores de fazer coreografia, aos impulasos “artísticos” dos usuários do youtube de fazer paródias e versões dos vídeos de sucesso, etc, etc. Fatores externos que delimitam e norteiam os internos, e nesse caso pesam mais.
E já que tudo na vida se limita a saber aproveitar as oportunidades, como bem ensinou Machado de Assis, bora aproveitar o sucesso do rapaz pra trazer mais leitores aqui pro blog. Confiram então as principais versões de Aí se eu te pego pelo  mundo afora.
INGLÊS (Apenas uma das versões):
POLONÊS:
ESPANHOL:
ITALIANO:
CATALÃO:
Nem o judeus podem reclamar. Versão pagode em HEBRAICO:
GUARANI:
A versão HOLANDESA, que copiou até a estrutura do clip brasileiro:
FRANCÊS:
Em ALEMÃO macarrônico:
GREGO:
Obviamente, a versão FUNK:
Interpretação em LIBRAS:
Agora sinceramente, eu acho que se a canção valeu pra alguma coisa, foi principalmente por causa desse vídeo aqui. O ridículo do militarismo e, ao mesmo tempo, a literaridade cruel que ganham os versos “Assim voce me mata \ ai se eu te pego”: