segunda-feira, 27 de abril de 2009

A História da Chapeuzinho Vermelho em diferentes mídias

Devo essa postagem ao coisinha de nóis e vida, blog da maravilhosa Cathola. Muito bom.

A historia de Chapeuzinho vermelho


JORNAL NACIONAL(William Bonner): 'Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um Lobo na noite de ontem...'.(Fátima Bernardes):'... mas a atuação de um caçador evitou uma tragédia'.

PROGRAMA DA HEBE(Hebe Camargo): '... que gracinha gente. Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?

'BRASIL URGENTE (muiiito boa)(Datena): '... onde é que a gente vai parar,cadê as Autoridades?Cadê as autoridades? ! A menina ia para a casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público! Não tem transporte público! E foi devorada viva... Um lobo, um lobo safado. Põe na tela!! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não.'

REVISTA VEJA Lula sabia das intenções do lobo.

REVISTA CLÁUDIA Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no Caminho.

REVISTA NOVA Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama.

FOLHA DE S. PAULO-Legenda da foto: 'Chapeuzinho, à direita, aperta a mão de seu salvador'.Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.

O ESTADO DE S. PAULO- Lobo que devorou Chapeuzinho seria filiado ao PT.

O GLOBO- Petrobrás apóia ONG do lenhador ligado ao PT que matou um lobo pra salvar menor de idade carente.

ZERO HORA- Avó de Chapeuzinho nasceu no RS.

AGORA- Sangue e tragédia na casa da vovó.

JORNAL SUPER NOTÍCIAS-Lobo mastiga as tripas da chapeuzinho e lenhador destrói tripas do lobo para retirar a garota (foto ao lado da barriga do lobo com as tripas pra fora).

REVISTA CARAS (Ensaio fotográfico com Chapeuzinho na semana seguinte)Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS: 'Até ser devorada, eu não dava valor para muitas coisas da vida. Hoje sou outra pessoa'

PLAYBOY (Ensaio fotográfico no mês seguinte)Veja o que só o lobo viu.

REVISTA ISTO É- Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.

G MAGAZINE (Ensaio fotográfico com lenhador)Lenhador mostra o machado.

SUPER INTERESSANTE- Lobo mau!Mito ou verdade?

DISCOVERY CHANNELVamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver.

Gostei tanto que me permiti escrever mais um... quem quiser entrar na brincadeira fique à vontade:

NELSON RODRIGUES: Usava vestidinho vermelho e foi devorada pelo lobo.

sábado, 25 de abril de 2009

Wes Montgomery






Até os anos 40 a guitarra (ou, anteriormente, o banjo) desempenhava uma função meramente rítmica dentro das formações jazzísticas. Isso seria mudado pelo guitarrista Charlie Christian: com ele, a guitarra passa a construir linhas melódicas, e sofisticam-se os solos.




Wes Montgomery (John Leslie Wes Montgomery) nasceu em Indianapolis (Indiana) no dia 6 de Março de 1925 e faleceu no dia 15 de Junho de 1968. Filho do meio de três irmãos, todos músicos, mudou-se ainda criança para Ohio. Autodidata, Wes começou a tocar só aos 19 anos, e por influência de Charlie Christian, de quem ouvia os discos e memorizava os solos. Seis meses mais tarde, já tocava profissionalmente.Wes tocava guitarra de uma maneira pouco ortodoxa, já que usava o polegar em vez da palheta, bem como um modo único de tocar em oitavas ou em block chords,o que tornava a sua guitarra mais expressiva e melodiosa. 
Muitos guitarristas do jazz atual nomeiam Wes como uma das suas principais influências, entre os quais: Pat Metheny e George Benson, por exemplo.

Levou algum tempo para que Wes entrasse para a cena jazzística, até que no final dos anos 40 excursiona com a banda de Lionel Hampton por dois anos, voltando depois a Indianápolis. Passa ali a maior parte dos anos 50, fazendo bicos durante o dia e tocando à noite em casas noturnas.
Tocou com diversas formações, trios, quartetos e orquestras. Quando sua gravadora, a Riverside, vai à falência, assina com o produtor da Verve Records, Creed Taylor, que vislumbra uma trajetória mais ampla para sua carreira, enveredando por caminhos que ultrapassavam as fronteiras do jazz. A gravação do clássico do R&B, “Goin Out of My Head” lhe valeu um Grammy que definitivamente o lançou a um maior público. Isso também lhe possibilitou sustentar seus sete filhos, até sua morte prematura e inesperada aos 43 anos, de ataque cardíaco.




















Sua extrema liberdade e fluidez no instrumento chamaram, desde o início, a atenção de músicos como Cannonball Adderley, e em 1960 lhe valeriam o prêmio New Star da revista DownBeat.
Wes definiu aquela que viria a ser a sonoridade clássica da guitarra de jazz nos anos 60 e tornou famosa a formação Guitarra, Órgão Hammond e bateria (The Wes Montgomery Trio 1959).


Fontes:



quarta-feira, 1 de abril de 2009

Algumas Obras Literárias

Agradeço ao grande Breno pelas referências. Valeu mano. Pra quem não conhece, recomendo que leiam o moçambicano Mia Couto. É muito bom.

MIA COUTO

A chuva Pasmada
A Varanda do Frangipani
Cada homem é uma Raça
Contos do Nascer da Terra (1-4)
Despedida
O Fio das Missangas
Vozes Anoitecidas
FERNANDO PESSOA

Alvaro de Campos - Poemas.doc
Prosa.pdf
Poemas (Antologia) ed_bilingue.pdf
O Marinheiro.pdf
Mensagem.doc
Cancioneiro.pdf
Bernardo Soares - Livro do Desassossego.doc
Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos.doc

http://www.esnips.com/web/e-booksFERNANDOPESSOA


JOSÉ SARAMAGO

O Evangelho Segundo Jesus Cristo (rev).pdf
O Homem Duplicado (rev).doc
Terra do Pecado (rev).pdf
Todos os Nomes (rev).doc
conto da ilha desconhecida.doc
Ensaio Sobre a Cegueira.pdf
Ensaio Sobre a Lucidez.doc
História do Cerco de Lisboa (rev).doc
Levantado do Chão (rev).doc
Memorial do Convento (rev).doc
O Ano da Morte de Ricardo Reis (rev).doc
A Caverna.doc
A Jangada de Pedra (rev).doc
As Intermitências da Morte.pdf
Folhas políticas (rev).pdf
Manual de pintura e caligrafia (rev).pdf

http://www.esnips.com/web/e-booksJOSSARAMAGO

ANTÓNIO LOBO ANTUNES


Auto dos danados.doc
As naus.doc


http://www.esnips.com/web/e-booksAntnioLoboAntunes



GABRIEL GARCIA MARQUEZ


Gabriel Garcia Marques & Carme Solé Vendrell - María dos Prazeres.pdf
cem anos de solidão (rev).pdf
Memorias de minhas putas tristes (rev).pdf
A Aventura de Miguel Littin (rev).doc
A Incrível e Triste História da Cândida (rev).doc
Crónica de Uma Morte Anunciada (rev).doc
Do Amor e Outros Demônios.doc
Doze Contos Peregrinos (rev).pdf
ninguém escreve coronel.rtf
O Aviao da Bela Adormecida (rev).doc
O Outono do Patriarca (rev).doc
O Rasto do teu Sangue na Neve (rev).doc
O Verao Feliz da Senhora Forbes (rev).doc
Os Funerais da Mae Grande (rev).doc
Se, por um Instante.doc
Só Vim Telefonar (rev).doc
Textos do Caribe (rev).doc
Tramontana (rev).doc
Viver para Conta-la (rev).doc


http://www.esnips.com/web/e-booksGABRIELGARCIAMARQUES


Italo Calvino

Palomar.doc
As Cidades Invisíveis.doc
O Castelo dos Destinos Cruzados.doc
O Cavaleiro Inexistente.doc
O visconde partido ao meio.doc
O barão trepador.doc

http://www.esnips.com/web/e-booksItaloCalvino

quarta-feira, 25 de março de 2009

A Mpbtização do samba


O samba voltou à moda. É claro, de fato ele nunca deixou de ser tocado, mas estava meio afastado daquela parcela da classe média que define qual o tipo de música de prestígio. Desde aquela redescoberta do samba do morro nos anos 60, ela havia substituído o samba pela MPB, deixando-o para o consumo das camadas populares. Porém mais do que isso, o samba a que se volta é uma certa concepção do que seria o este antes dos tempos do pagode, antes de Exaltasamba, Soweto, Zeca, Fundo, Martinho e Beth Carvalho. O estilo de samba dos anos 60 para baixo, que seria mais puro ou autêntico, de raiz. Não que se toque exclusivamente música de compositores já mortos (embora haja baladas dessas, em que a música mais recente é contemporânea de Ary Barroso). Mas o tipo novo de composição e, principalmente, sua forma de execução procura recuperar aquele tipo de sonoridade tida por mais autêntica - e que obviamente nunca foi isso de fato.

Curiosamente, essa autenticidade é assegurada por dois movimentos complementares. O primeiro, mais comum, é o distanciamento temporal. Quanto menos presente de forma concreta do mundo real mais tradicional é aquela forma. Daí chega-se a absurdo, como por exemplo considerar um Diogo Nogueira mais tradicional ou autêntico que Fundo de Quintal. O segundo é um progressivo distanciamento do batuque, o que se aproxima muito mais de uma concepção que vem da MPB do que propriamente do samba. O que se busca de fato nessa concepção é a elaboração de um samba de raiz e refinado, dois termos questionáveis e muitas vezes contraditórios, pois o refinamento vem com o tempo, em especial nessas manifestações de caráter mais popular. E lembrando que, se fossemos voltar às raízes do samba, iríamos nos deparar com o maxixe (pegue a gravação original de “Pelo Telefone”, por exemplo, ou algumas composições de Noel, oscilantes) e com os batuques de cunho religioso. Age-se como se a gravação de Cartola nos anos 60 com acompanhamento de choro fosse a maneira mais tradicional de performance do samba, e não a novidade que de fato representou na época (graças em grande parte, diga-se de passagem, as gravações de Bossa Nova). A Bossa redefiniu o tipo de olhar que define o que seja mais autêntico (na verdade, sejamos justos, João Gilberto e cia redefiniram o antigo samba, criando uma outra coisa, mas nunca disseram que aquilo que estavam fazendo era o verdadeiro samba. Ao contrário, faziam questão de frisar o seu avanço e diferença. O problema se coloca depois, quando a noção de bom gosto da classe média é transferida para o conjunto de manifestações culturais do país) como se fosse mais tradicional aquilo que mais se afasta do caráter de ritual que o samba tinha em seu início, ou seja, como se fosse mais autêntico justamente aquilo que se afasta do... autêntico.

Entretanto, paga-se certo preço ao livrar o samba da batucada. O batuque na música feita no Brasil, especialmente no samba, não é um elemento acessório como na música clássica – até certa época. Ele é constitutivo da própria forma. Ao se retirar o acompanhamento rítmico de determinados tipos de canção, sem se realizar todo um esforço harmônico e melódico para recriar aquele sentido em outro lugar, a música acaba sendo mutilada. Um samba-enredo regravado no esquema voz e violão não fica só estranho. Ele é completamente descaracterizado, deixando de “funcionar” esteticamente. Pode-se fazer, desde que seja com intenções de criar algo original, ou que este enredo seja o “Vai passar”. Em muitos sambas, é menos prejudicial em termos estéticos retirar o acompanhamento harmônico do que a percussão. O samba é feito para se ouvir sim, mas com o corpo. Ele pega pelo estômago, e não propriamente pela audição atenta de uma sala de concerto – como exige a Bossa Nova. Tirar o batuque do samba é tão grave quanto tirar o contrabaixo de um quarteto de cordas. O mesmo defeito ocorre se um grupo de funk e groove faz uma apresentação para uma platéia que não se move. A música não funcionou, a menos que seja algum tipo de variação jazzística. Ao procurar transpor a concepção ocidental de música para ouvir na execução de um samba que obedece a outros critérios (novamente, sem a transposição formal correspondente), perde-se justamente aquilo a que se procura exaltar. Como certos grupos de rock progressivo que pretendem fazer música erudita a partir do rock, mas inevitavelmente acabam soando como uma caricatura de uma música clássica já ruim, por desconsiderar a concretude da forma com que operam. Quando o fazem a partir do pop, como Pink Floyd, o resultado é muito mais interesssante, menos esquemático e mais criativo.


Na verdade, o problema assume dimensões ainda maiores, pois a tradição Ocidental (da qual a gente participa, e que sistematizou as normas musicais usadas por todos) não faz a menor idéia de como lidar com a percussão. No geral se pensa que a percussão (a cozinha, termo significativo por conter uma dimensão dupla, a de cômodo mais essencial da casa e ao mesmo tempo o mais desprezado) acompanha do jeito que dá as transformações harmônicas – concepção eurocêntrica – sem se fazer a menor idéia de como explicar as transformações que a harmonia e a melodia sofrem por conta do batuque. De fato, muitos sequer consideram a hipótese, sendo que nas tradições mais antigas é a partir do ritmo ditado pela percussão que os gêneros tomam forma. Mesmo a história da música brasileira é a narrativa dos impasses e percalços da harmonia e da melodia para se ajustar ao batuque. Foi isso que ocupou todos os nossos arranjadores e maestros ao longo do século XX. Mas ninguém consegue de fato pensar em como a batida original de João da Baiana para o pandeiro influiu no contorno melódico do samba, ou em como as transformações da linguagem do samba para o pagode da turma do Cacique de Ramos foi condicionada por suas inovações no campo dos instrumentos. É claro que sempre se pode explicar tudo em termos harmônicos, mas o quanto dessa nova harmonização não passa pelo ritmo, pela diferença de acento que existe entre o suro, a timba e o tantan, ou pelo novo molho introduzido pelo repique de mão? A voz tem que ser colocada de outra forma, responder em outra intensidade e interagir com a nova dinâmica proposta pela cozinha, etc. Em suma, criar uma nova forma de dizer, condicionada em grande medida pela percussão. Em certo sentido, toda a riqueza e complexidade de nossa música só conseguiu ser descoberta quando a Bossa transformou a linguagem rítmica em harmônica. Ai não só o Brasil, mas o mundo compreendeu que fazíamos arte. Por isso se colocam sempre os nomes da MPB como os maiores compositores do país. Não porque de fato o sejam, mas por uma incapacidade cognitiva de compreender (e explicar) a genialidade de Cartola, por exemplo.


Aliás, esse esquema de livrar o samba da batucada aproxima-se muito do esquema de padronização e massificação daquele novo estilo de musica brega, tornada possível pela difusão e barateamento do teclado eletrônico (aquele tipo de som feito pelo Frank Aguiar). Com a diferença que no caso do Frank o problema é menor porque a padronização que ele cria está visando à música para dançar. Tanto faz se é Beethoven, Jobim ou Calcinha Preta: o que importa é se dá pra dançar e gritar junto. Já a MPB visa à escuta mais atenta, e ao padronizar o samba mais ritual, faz com que o mesmo decaia em qualidade, e deixe de prestar enquanto música para se ouvir.

Outro movimento do qual acaba se aproximando, embora a princípio por razões opostas, é o tão temido e abominado pagode romântico paulista, que tem no afastamento do batuque uma de suas principais característica, e novamente com vantagens para o pagode, porque o tipo de sonoridade por ele buscada parte dessa separação, enquanto que a higienização do samba é realizada em lugares que a princípio não lhe cabem – novamente, a não ser que a estrutura musical sofra uma alteração correspondente, o que não é o caso. Os pagodeiros faziam música para ser Fabio Junior (os mais ousados, Djavan), já os sambistas da MPB querem sempre soar como Chico Buarque. Até funciona, quando se toca Chico, Baden Powel, Paulinho da Viola, João Bosco, que fazem samba também, mas de um outro tipo, fazendo aquela transposição estrutural que comentamos. Quando a história muda pra Zeca Pagodinho, Ismael Silva, Silas de Oliveira, Geraldo Filme, Candeia, Clementina, Ivone Lara, Martinho da Vila (talvez “disritmia” funcione), aí a sonoridade resultante só consegue marcar a distância com o que aquela música é de fato. Torna-se uma espécie de samba da falta (de vergonha?).

O samba mpbzado das Vilas Madalenas do Brasil padecem do mesmo defeito amadorístico daquelas gravações iniciais do samba, em que era preciso ter voz de tenor e orquestrações empoladas que limpavam o gênero. Foram necessários 50 anos para se perceber que a estrutura daqueles sambas se sustentam no e pelo batuque, tanto quanto (e por vezes ainda mais) na harmonia e na linha melódica. E só a partir dessa descoberta é que puderam de fato criar uma estrutura própria que o prescinde. Tocar “Aquarela Brasileira” de Silas de Oliveira sem a percussão sustentando seu peso não é uma opção estética entre outras, padecendo da mesma pasteurização promovida pelo cãozinho dos teclados. E sem os méritos que porventura aquele possa ter.

A discografia da polêmica

O pessoal que acompanha o blog que me desculpe, mas é que ta difícil de atualizar porque eu acabei de mudar, e nessa nova morada ainda não tem internet. Além disso, o computador bichou feio. Mas aos poucos eu vou colocando uma coisinha aqui, outra ali (pra ver se a Bia para de me encher), nem que seja só uns discos que eu gosto.
Conversa mole a parte, eu não poderia deixar de colocar os links de alguns discos para ilustrar o tema do post anterior. Pra ser o mais imparcial possível, escolhi o primeiro e o último de cada um, além de um outro que eu acho que é o melhor (ou um dos melhores) disco deles.

CAETANO VELOSO - 1968


DOWNLOAD

CHICO BUARQUE 1966
DOWNLOAD

O primeiro disco do Caetano é bem mais interessante, criativo e ousado, porém não tão bem acabado quanto o primeiro do Buarque. É um album ainda ingênuo, mas isso não chega a ser defeito. Ao contrário, transmite uma leveza que faz muito bem pro conjunto. Tirando "A banda" que, na moral, já deu é um disco gostosíssimo. Tem "Ole, Olá", que é linda, "A Rita", delicinha, "Amanhã ninguem sabe", fantástica, "Tem mais samba", descoberta pela Elis, e "Juca", que eu adoro. O compositor já nascia pronto. Já Caetano mostra claramente que está experimentando coisas, e umas funcionam mais do que outras. Tem-se a concepção, mas não se sabe ao certo como ligar as coisas. Faltava ainda o acompanhamento dos mutantes com os arranjos do Duprat. Mas tem "Tropicália", que é um marco da música brasileira de toda sua história. Tem "Alegria Alegria", uma resposta a "Banda" do Chico, e que é muito superior. Tem poemas de Capinam e Gullar. Enfim, ao invés de consolidação, um passo a frente. Mas em termos de estréia, os discos de Jorge Ben e de Gilberto Gil acertaram mais.

CARIOCA - 2006

DOWNLOAD


CE - 2006
DOWNLOAD

Esse pra mim não tem dúvidas. Chico apresenta um disco correto, bonito, previsível e repetitivo. Um isco de velho babão. Mais do mesmo. Enquanto Caetano se arrisca pela música indie, ataca temas atuais, muda a fórmula de seus trabalhos anteriores e volta a fazer canções mais cruas. E se sai muito bem. Não é a melhor forma, mas é muito melhor que 90% do que há por aí.

ÓPERA DO MALANDRO - 1979

DOWNLOAD

TRANSA - 1972
DOWNLOAD

Nesse caso eu não me arrisco. Os dois discos, cada um a seu modo, são brilhantes. Os dois compositores em um momento criativo privilegiado. Cada canção na "ópera do malandro" é perfeita, algumas são clássicos absolutos. E nesse caso nem dá pra dizer que ele não arrisca. Chico faz rock, faz uma adaptação brilhante de Brecht, abrasileira uma ópera, faz valsa, escreve duas das mais belas canções romanticas da MPB ("Folhetin" e a genial "O meu amor"), cria sambas deliciosos e improvisa até um tango. Além disso, o disco tem uma unidade conceitual (é uma peça) que lhe faz muito bem estruturalmente - o que nem sempre acontece com os discos do Chico, pouco importando se se trata de um album próprio ou de uma coletânea. E os vários intérpretes convidados não deixa que ele se torne cansativo. Pra mim, é um dos grande albuns da MPB. Agora quanto ao "Transa" é um dos meus discos prediletos. Aquele que formalmente conseguiu mostrar que a música brasileira é a música do mundo, o que realizou a fusão mais perfeita de pop internacional e regionalismo, que marcou de vez o limite entre o experimental e o pop. As canções são ótimas, o acompanhamento é fabuloso (em especial a guiarra de Jards Macalé), as misturas são geniais. É um verdadeiro acontecimento na música mundial, sem precedentes e sem continuadores. É uma jóia. Talvez o "Transa" leve vantagem por questões históricas. O disco, juntamente com "Expresso 2222" do Gil marca o ponto máximo de inflexão da Tropicália. Ambos são suas maiores realizações, e a partir dali o projeto deixaria de existir.
Mas o bom da MPB é que não precisamos eleger ganhadores. Tem lugar pra todo mundo

domingo, 22 de março de 2009

A polêmica Chico x Caetano: malandragem sem morro e a vanguarda do brega (I)

Para Tati, donde veio a inspiração

Nunca escondi de ninguém que sou um caetanete. E como bom tiete de Caetano, adoro tomar seu partido em suas polêmicas, encontrar alguma razão mais profunda, mesmo que absurda, para seus gestos. E não é muito difícil, porque o cara é o maior intelectual vivo do país, e mesmo que você não concorde com aquilo que ele diz, quase sempre há uma razão mais profunda pra ele ter dito isso ou aquilo. O que se nem sempre torna as coisas melhores, ao menos revelam alguma coerência.

O babado mais quente no quesito Caetano é sem dúvida a eterna polêmica com Chico. Na verdade, não entre os dois, que estão cagando pra essas brigas, mas entre os adoradores de um e de outro. Mas mesmo os chicólatras tem de admitir que é muito mais complexo você ser um caetanete, seja por ser ele muito menos unânime, mais arrogante, ou mais polêmico. Posso dizer inclusive que começa daí minha admiração: o esforço mental exigido para se posicionar pró Caetano é, pela própria natureza do objeto, muito maior. Enquanto o Chico veio pra estabelecer, pra ser a própria definição do que é bom, Caetano veio pra incomodar, pra questionar o que é belo. Na verdade, a razão mais profunda para esse debate ser tão animado é que no fundo ele é bem menos radical do que parece a princípio. De fato, a questão realmente radical nem se coloca (a não ser por loucos meio idiotas ou excêntricos, como Caetano), pois o conflito verdadeiro está na oposição Chico Buarque x Roberto Carlos, ambos compositores de primeira linha, mas aquele que chega a sugerir uma aproximação do gênero é imediatamente desqualificado como mentalmente desequilibrado. O que não quer dizer que Chico x Caetano não seja uma polêmica reveladora, pelo contrário. Apenas oculta uma questão muito mais complexa e perigosa, que implica em colocar Robertão e Chico num mesmo patamar.

Primeiro algumas questões de ordem mais formal, que são as que contam de fato no momento da audição. Comecemos com aquele que é tido como o ponto mais forte do carioca, suas letras. Nesse quesito o cara de fato é bom, mas temos de lembrar que quem realmente inovou foi Cae, ao ser o primeiro cara a abolir das letras seu cunho narrativo. Ele elimina das letras o tom narrativo que sempre caracterizou a canção nacional, primeiro com a concepção tropicalista de construção via fragmento, e depois ao construir letras que são explanações teóricas, muito mais do que as desventuras de um sujeito lírico ou a exposição de dada situação. A voz narrativa da canção se moderniza com Caetano, apesar de que Chico sem duvida a eleva a um patamar de excelência grandioso.

Quanto a forma propriamente dita, uma anedota de Tom Zé é reveladora. Quando perguntado sobre o que pensava de Chico Buarque, lá pelos anos 70, o baiano de Irará respondeu: “a gente tem que respeitar muito o Chico Buarque, afinal, ele é o nosso avô”. Para além do chiste e da ironia, a afirmação carrega também um caráter de revelação. Desde o início o projeto de Chico se apoiava, ainda que o transformando, no projeto estético da Bossa Nova, de re-apropriação do passado. Com a diferença de que a Bossa se propunha a reler sobre nova chave os autores que ela própria elegia como os representantes da genuína música nacional, enquanto que Chico – na onda da música de protesto – procurava resgatar as formas antigas, só que lidas agora na chave do bom gosto – seja em termos das letras, do estilo de interpretação e dos arranjos. No início, alguns tipos de samba (canção, exaltação, chorinho, gafieira) e depois ampliando o escopo – modinha, frevo, valsa, fado. É certo que por influência da Tropicália Chico passou também a enveredar por outros gêneros e estilos – principalmente após seu 5° disco, Construção - mas até os dias atuais cria canções basicamente em formas pré Bossa Nova. O próprio compositor admitiu em uma de suas raras entrevistas que é um compositor à moda antiga, que se dedica a um tipo de canção em vias de desaparecimento. Na verdade, é todo um modo de compor – do qual Chico é o maior representante – que se acostumou a identificar com a MPB, que está em vias de desaparecimento.

Já o projeto de Caetano sempre foi o de fazer música de hoje. Em comum entre ambos a busca por se criar música de qualidade – critério que é preciso definir, pois se trata menos de juízo de valor estético do que certo procedimento formal. Porém o lugar onde os dois procuram estabelecer esse critério de gosto marca uma ruptura radical de postura. Cae já compôs metal, musica indie, blues, reggae, axé (dizem as más línguas inclusive que foi ele quem o inventou), música concreta, samba de roda, hip hop, música brega, e já se apropriou de outros tantos gêneros, como o funk carioca. Isso sem falar de sua especialidade, que é o de misturar os registros. Sua postura estética é muito mais ousada, o que o torna a meu ver um compositor bem mais interessante, mesmo quando Chico – cultor do belo - consegue criar canções de acabamento formal perfeito. Do ruído também se faz arte.

A polêmica Chico x Caetano: malandragem sem morro e a vanguarda do brega (II)



Mas a consideração da forma conduz imediatamente à outra, essa sim o verdadeiro pano de fundo sobre o qual se desenrola a polêmica, ou seja, a posição ideológica que ocupam os dois artistas. Em certo sentido, a diferença de postura de Chico e Caetano marca duas opções distintas da elite popular universitária, que na época da Bossa Nova deixa de considerar a arte popular como um tipo inferior de manifestação cultural, e passa ela mesma a eleger seus representantes mais legítimos.

A Bossa, com sua mistura original de samba e jazz, promoveu a higienização necessária que tornou possível transformar o samba em produto de exportação e, como tal, digno de ser apreciado por um público mais “refinado” (definição de classe, mas que de gosto). Entretanto, a Bossa apresenta o mesmo problema que o jazz a partir do bep-bop, que seja: é de muito bom gosto afirmar que acha excelente, mas daí a entender de fato é outra história. É tão complexo compreender a dimensão da transformação que a batida de violão de João Gilberto representou para a música nacional quanto entender de fato o que Charlie Parker fez pelo jazz. Sabe-se que tudo mudou, mas daí a entender e explicar é outra história, sendo necessário não apenas um conhecimento musical mais aprofundado, mas também de cultura e do processo histórico-social. Isso sem falar que a Bossa é radicalmente avessa a entrar em debates políticos e ideológicos e, portanto, a adesão a ela é dada forçosamente em termos musicais, a menos que se opte por uma opção declaradamente “alienada”, o que para essa parte da elite universitária é pecado grave, especialmente na época de acirramento do debate político no período da ditadura, que exigia um tipo de arte mais engajada, ou explicitamente ancorado no social. Para suprir essa necessidade, surge a música de protesto. É certo que Chico Buarque não surgiu já fazendo letras engajadas e atacando o regime político, mas um dos debates da época era entre o que seria o genuinamente nacional e o que era estrangeiro e alienante, a que a música de protesto veio responder procurando fazer uma música de temática mais regional ou mais voltada para o samba (o show opinião é emblemático nesse sentido por trazer representante das três vertentes, o regionalismo de João do Vale, o sambão do morro de Zé Keti e a nova musica universitária, via Nara Leão). Nesse contexto, Chico optou por um retorno ao que seria o autêntico samba, aos moldes de Noel Rosa. Logo se tornou o símbolo maior do que era a MPB no início, que seja, música nacional genuína de qualidade, sendo que o adjetivo final indica a separação dessa música com a que de fato se fazia no morro.

Já no período mais duro da ditadura, Chico fez sua opção, via esquerda, se tornando o exemplo acabado de compositor combativo e ao mesmo tempo refinado (o que é muito importante por marcar a diferença entre ele e outros, como Vandré). Alias, o mais belo exemplo que se poderia imaginar, sendo rico, bonito pra porra, de família influente, que em certo sentido “renega” os benefícios de sua posição para lutar em pró de um bem comum (quase um Che Guevara de Walter Salles), não só de sua classe, mas também dos pobres – a ilusão de um possível conciliação entre as classes foi comum a toda esquerda nesse período, até o AI5 abortar de vez o projeto. O próprio movimento de apropriação das elites da cultura popular já inevitavelmente manifesta esse caráter de aproximação de classe. O projeto da MPB que o Chico representa é em certo nível o de criar uma forma popular de composição, mas que escape ao mau gosto e a reificação da cultura de massas. Uma música popular esclarecida, por assim dizer, que no limite conduz a um afastamento dos pobres da forma por eles mesmos criados, como no samba enredo “vai passar” que é muito bom, mas que ao mesmo tempo é o que de mais distante poderia haver de um samba enredo. O que seria uma aproximação de classes – os membros da elite que passam a se identificar com as classes populares – se torna uma nova forma de imposição, pois são esses que acabam definindo a partir de fora o que é ou não mais genuíno e autêntico. A figura do malandro exaltada por Chico em suas letras, já era bem raro mesmo nos morros cariocas, assim como os pobres de fato estavam em grande parte mais interessados na novidade representada por Roberto Carlos, em boleros e em musica brega, (Maysa, Agnaldo Timóteo e Rayol, Odair José, esses sim os grandes vendedores de disco da época) do que em samba canção aos moldes de Noel. O popular evocado por Chico e, principalmente, por seus seguidores, é já uma concepção higienizada que afasta o mau cheiro que inevitavelmente exala a pobreza. O que não diz nada sobre a qualidade dessa obra, excelente, mas revela muito sobre seu radicalismo e posição histórica, revelando muito mais que sua qualidade estética (existem dezenas de outros autores tão ou mais geniais) as razões de sua unanimidade. O que comprova que nem sempre a opção mais à esquerda é de fato a mais contestadora.

Por sua vez a obra de Caetano realiza o movimento quase oposto, e ao invés de definir o que seria uma música popular de qualidade, procura no interior da cultura de massa os exemplos já existentes de musica de qualidade. Ao invés de procurar inserir certo padrão importado de outras formas de arte, como o conceito de obra de arte orgânica, que recupera a noção de autor, adota o pressuposto concretista (que faz mais sentido para musica popular que para a poesia, a propósito) de que a arte é já mercadoria, e que este dado a priori interfere na constituição, mas não necessariamente na qualidade das obras como quer certa crítica mais radical da industria cultural. A canção popular, assim como o cinema, toma forma com o desenvolvimento da industria fonográfica, e isso naturalmente não é um atestado da falência de sua capacidade crítica ou estética, como não poderiam compreender aqueles que nasceram em países em que a arte pós industrial representou o desaparecimento de um determinado tipo de sujeito criador. Caetano procura qualidade artística naquilo que efetivamente a cultura popular está produzindo, seja Roberto Carlos, Vicente Celestino, Odair José, Beatles, Michael Jackson, Peninha ou Fernando Mendes, porque para Caetano também não existe essa distinção entre nacional genuíno e estrangeiro. A arte popular é industrial, e como tal, rompe as fronteiras territoriais, e a MPB deve sua existência tanto à João Gilberto quanto aos Beatles, na mesma proporção. Ao realizar esse movimento, ele procura romper com o preconceito que direciona a audição da classe média, e que fica explicito quando essa classe taxa uma música de Peninha como brega e a rejeita, só para aplaudir a mesma música quando gravada por Caetano. Por estar menos a esquerda que Chico, seu procedimento estético é mais radical. É anárquico. Seu real interesse é o mundo agora, e não uma utopia sustentada por um mito, mito que a própria postura pessoal de Chico ajuda a sustentar, ao escolher se esconder da opinião pública. Caetano não existe fora do espaço de debate e polêmica. Fora do mundo de agora, ele perde o sentido, pois sua função é desestabilizar o coerente.

Alias a MPB deve sua existência basicamente a dois movimentos: a depuração da Bossa Nova e a abertura da Tropicália, cujo mentor intelectual é Caetano – por mais que não tenha sido de fato ele que tenha organizado o movimento, foi sem duvida o que levou o conceito mais longe, e o sistematizou. Pois até a Tropicália, contando inclusive com a canção de protesto e Chico, o que nós temos é uma variação do projeto da Bossa Nova de depuração da canção nacional, um projeto definidor por excelência. Com Cae e Cia é que MPB ganha esse caráter de forma inorgânica, definida mais como um jeito de se fazer a coisa do que a coisa propriamente dita. Por isso eu também acredito que Caetano Veloso é a figura mais importante (inclusive em termos simbólicos) da MPB, e um dos principais nomes da canção brasileira moderna em geral (juntamente com Gilberto Gil e Jorge Ben). Do mesmo modo que Chico Buarque é seu maior símbolo, o que ajuda a entender o porque da MPB vir gradativamente deixando de existir enquanto gênero.


Chico é o exemplo mais bem acabado da família dos compositores artesãos. É o mais completo, embora não seja tão importante quanto João Gilberto ou Tom Jobim. Em todo caso, é inegável que Chico Buarque é muito bom. Entretanto, Caetano Veloso é brilhante e acima deles, talvez, somente os gênios como Gilberto Gil. Mas aí já é outra história.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Complete Ella Fitzgerald Song Books



Pois é meu povo gente boa.. tava aqui pensando em como comemorar algumas coisas junto com voces... as entradas do ano que vem ai (é sempre bom comemorar antes que ele começe, porque depois é só derrota...), os 30.000 acessos do blog que logo logo vão chegar (não me contentei e quero comemorar logo)... o contato com o Falcão, de que já falei... minha dissertação de mestrado finalmente concluída (pra quem se interessar, ela é sobre Murilo Rubião, um escritor de literatura fantástica... logo eu vou postar ela aqui pra quem quiser ler e daí falo mais...).. o Ronaldo Fenômeno que veio pra Sampa e vai morar no Largo do Arouche.. minhas férias em Pernambuco... o OSAMA, que foi perdoado pela embaixada americana e se tornou o primeiro presidente Talibã... enfim, muita coisa boa por esses tempos. Portanto, nada melhor que comemorar em grande estilo.
Segue então os links para todos os sonkbooks dessa que é uma das maiores cantoras de todos os tempos... eu não sei se gosto mais dela, que pra mim é a mais perfeita tecnicamente - a mulher não canta, ela toca com a voz - ou daquela dor em forma de mulher que é a Billie Holliday. Tem artistas que encarnam estados de espírito. Kurt Cobain é o próprio tédio depressivo tornado canto, Billie é a melancolia. Depois posto alguma coisa bacana dela tambem... por enquanto fiquem com essa diva, e comecem bem 2009.

Cole Porter Disc 1 & 2

http://www.megaupload.com/jp/?d=6V1F5S51
http://www.megaupload.com/jp/?d=8S7J6EFK

Rodgers & Hart Disc 3 & 4

http://www.megaupload.com/jp/?d=TKRFABY0
http://www.megaupload.com/jp/?d=USXYAX7B


Duke Ellington Disc 5,6 & 7

http://www.megaupload.com/jp/?d=756IMS4I
http://www.megaupload.com/jp/?d=336YIGLA
http://www.megaupload.com/jp/?d=ELP6HNXU



Irving Berlin Disc 8 & 9

http://www.megaupload.com/jp/?d=ATT1EXAX
http://www.megaupload.com/jp/?d=ONSJ0UW5

George & Ira Gershwin Disc 10,11 & 12

http://www.megaupload.com/jp/?d=IZQU37TN
http://www.megaupload.com/jp/?d=1H5QCYR9
http://www.megaupload.com/jp/?d=KP6N1NY9



Harold Arlen Disc 13 & 14

http://www.megaupload.com/jp/?d=97Z3I8HY
http://www.megaupload.com/jp/?d=GRIK5SXV

Jerome Kern Disc 15

http://www.megaupload.com/jp/?d=2TSBL4Z1


Johnny Mercer Disc 16

http://www.megaupload.com/jp/?d=LI2SLC5S


domingo, 21 de dezembro de 2008

Amarante, Camelo e a Vitrola


(ou três discos pra ouvir ou sei lá).

Que sou Fã dos Los Hermanos - com re-salvas - nunca foi segredo. Gosto do miolo da carreira. as pontas não me agradam. O primeiro homônimo "Los Hermanos" acho Cru, o último, muito 'profundo', coisa que me assunta e aborrece, pois sou "um meio intelectual, meio de esquerda" [pra entender o que quero dizer ao me descrever assim, sugiro a leitura de um conto do Machado de Assis: "Teoria do Medalhão"]. Digo mais: fui num show do primeiro disco da banda numa 'feirinha' de gente descola na Pompéia e o show não me agradou. Era uma bandinha qualquer, ouvi o disco e desconfiei: meu primo de 13 anos gostou - cuidado com o que pode ser -. Não gostei. Depois acidentalmente, fui num show do "Bloco do eu sozinho". O jogo mudou. Sai de lá em choque, parei na primeira loja e comprei o disco e ouvi incessantemente. Muito bom. Gostei tanto que dei o meu disco de presente pra uma amiga [faço muito isso] para ela ouvir e se convercer de que podia também esquecer o primeiro disco - como a banda 'meio' que fez - e gostar dos caras. Dito e feito. A moça virou super-fã. Daí os caras se exilaram e lançaram o Ventura. Nessa época, passei uma parte do verão em Parati. Alternavamos os campeonatos de Winning Eleven no Playstation2 com bebedeiras onde eu e meus amigos [quase todos músicos ou pretenços a tal] ouviamos e tiravamos as músicas do Ventura. Foi mágico. De fato o disco marcou. Gostei bastante que acabei indo nuns 5 shows deste disco. Muitos destes num local chamado Kasebre rockbar....Lugar fantástico, que se um dia você tiver a chance e a coragem de ir [é aqui na Zona Leste - perto de casa!] você não vai se arrepender...O Kasebre é a Meca do Rock. Repare nos Unos pretos de jovens, motos e capacetes dos motoboys...raro não possuir um adesivo do lugar. Multidões se arrastam para lá para ver Pearl Jam cover ou Ramones covers e coisas do tipo. Mas enfim....acabei comparecendo no Show do 4. O disco é bom, mas do tipo que qualquer distração pequena, nos tira a atenção dele. Enfim, não gosto e vou falar muito porque ouvi pouco. Repito: gosto do miolo da carreira. as pontas não me agradam.
Seguindo minha vida, nos últimos dois meses, me deparei com três discos ligados em si de alguma maneira (além de todos serem atuais [2008]):
(i)Sou/nóS do Marcelo Camelo
(ii) Little Joy - Little Joy
(iii) Notícias - Vitrola Sintética
Vou falar pouco. Vou dar umas informações que vi por aí e a minha visão [limitada, mas honesta e limpa], daí os discos ficam aí pra serem baixados e cada pessoa pensa o que quer e depois me conta pra ver onde podemos chegar como tudo isso, vamos lá:

(i)Sou/nóS - Marcelo Camelo
Wikipedia: É o primeiro trabalho solo do cantor. É um albúm mais experimental e com músicas mais introspectivas. Vem sendo bastante elogiado pela crítica especializada;Destaque para as músicas "Mais Tarde", "Doce Solidão", "Janta", " Liberdade" e " Téo e a Gaivota".

Gostei do disco. Embora tenho achado um disco um tanto "pobre" no conjunto, fica positivo o fato do Marcelo ter se 'libertado' e assumido como trabalho o que ele colocava como influência: Músicas com fortes tendências MPBísticas. Um disco criativo, e se o Camelo trilhar esse caminho, uma hora ele acerta na mosca. Vale lembrar que a atual banda de Apoio é o Hurtmold. Banda do qual sou fã desde o começo do começo na garagem da Rua Pinto Monteiro, e se acontecer do Camelo entrar na onda do Marinho e Cia, a coisa vai dar samba. Ou melhor, dar música alternativa, criativa e de altíssima qualidade.

(ii)Little Joy - Little Joy


Rolling Stone: O Little Joy, projeto criado por Fabrizio Moretti, baterista do Strokes, e Rodrigo Amarante, cantor e guitarrista do Los Hermanos  .
Gostei muito do Disco. Parece trilha de comercial de carro wagon na praia. Escutei muitas vezes, e a única conclusão que cheguei é que é muito bom. Viva os projetos paralelos.

(iii)Notícias - Vitrola Sintética


Uma senhora estréia de um projeto entre amigos e afins que começou a pouco tempo. Imagine um disco intermediário entre o primeiro disco do Los Hermanos e o segundo Bloco do eu sozinho". É essa a sonoridade que você vai encontrar. Ótimo início. Nas músicas, algumas pouco cruas (nada que desvalorize as músicas), já podemos encontrar um certo lirismo abstrado valioso. Vale destacar "Rótulo", composta e cantada pelo pianista do grupo Mascos Alma. O vocalista, Felipe Antunes alterna Genialidade no cantar com momentos no qual tira a atenção de si  carregando a voz de uma maneira que faz lembrar Sergio Filho da Gram ou Dinho Ouro Preto - e faz sem necessidade, pois canta bem e alinhado com a proposta. Isso pode ser valioso para alguns, mas pessoalmente não me agrada. Otávio Carvalho faz um bom trabalho nos baixos, barulhos e pós-play do disco. Tive a oportunidade de vê-los ao vivo numa pré-estréia do disco Notícias, e pude atestar a competência na qual executam magistralmente as músicas com a mesma qualidade e sonoridade do CD, e fazem isso sem matar possíveis improvisos do calor do momento. O primeiro disco vale, e a banda promete.
E pra quem prefere escapar fedendo do que morrer cheiroso, ficam os discos pra download (clique no nome que o link aparecerá):



Mais uns discos no migué:
Outros discos comentados aqui (clique para fazer download):
Los hermanos:
"4"
Gram:
"Gram"
Hurtmold:

.t






Uma grande vitória....


É com grande orgulho e satisfação que venho informar a todos que acompanham esse papo todo aqui que nosso guru em pessoa (ele mesmo, o genial Falcão) não só leu o nosso blog, conforme declarado via email, como adicionou nossa página no seu blog, como favorito. Que todos sintam-se tão orgulhosos e felizes quanto eu.


Pra quem duvida, ACESSE AQUI:

O próximo passo é conseguir com que o Roberto escreva uma música pra minha mulher... aí já posso morrer em paz...
E como diria o mestre: "É melhor cair em contradição que do oitavo andar"
Valew Falcão!


E abaixo essa pérola do nosso cancioneiro, o clip de "Holiday foi muito"!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Cavaleiro das Trevas

É isso ai galera, uma boa notícia pra vocês. Depois de muita pressão e chantagem emocional consegui convencer meu grande amigo e renomado intelectual (que dentro em breve estará lançando seu primeiro livro) a publicar algu,ma coisa nesse blog. E logo um texto sobre o melhor filme dos últimos tempos.
Qual a semelhança entre o Batman, Coringa, Estado de excessão, duas Caras, Barak Obama e Kunk Fu panda? Porque o Batman pediria pra sair caso encontrasse com o Cap. Nascimento? Quais os problemas estéticos deocorrentes do desejo de se fazer um filme de arte com a velocidade hollywoodiana? De que forma o Batman se torna mero fantoche nas mãos do Coringa, o verdadeiro diretor do filme? O que Batman e Tropa de Elite revelam da própria matéria social a partir da qual se constituem, no caso, a brasileira e a americana? Leia pra ficar mais sabido e contar pros seus amigos...
E para quem ainda não assistiu:
Clique aqui para baixar Batman - o Cavaleiro das trevas Via torrent

O Cavaleiro Democrata das Trevas e a Tropa Brasileira da Elite

Cavaleiros das Trevas

A discussão sobre o estado de exceção é a primeira que parece se impor ao assistirmos a um filme como O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight). Até que ponto o Batman pode ir, e vai, além da lei para garantir o cumprimento da lei é o que parece estar em jogo sob os nossos olhos extasiados pelas seqüências espetaculares de um filme hollywoodiano. Exemplar nesse caso é o uso de um absurdo recurso tecnológico para ter acesso a todas as conversas de celulares de Gotham City e assim poder rastrear o perigoso Terrorista do outro lado da linha... Ora, difícil não escutar aqui o eco das “relativas” liberdades individuais virtualmente perdidas pelos cidadãos americanos pela declaração de um ato alcunhado patriótico – o Patriot Act – uma regulação emitida pelas agências de segurança de George Bush, de caráter abertamente paranóico e repressivo. Com a diferença de que o que o Batman está fazendo aqui é claramente secreto e não tem legitimação legal nenhuma.
Liberdade aliás é aqui a idéia da vez, pois o que Coringa está conduzindo ao mesmo tempo – tendo determinado certas “regras de segurança” (ninguém deve sair das barcas e por em risco a vida de todos etc) – é um grande experimento que poderíamos chamar de democracia de emergência. Dois contingentes de passageiros, um de “doces e inocentes civis” e outro com a “escória criminosa” condenada por Harvey Dent – o promotor-herói-monstro – tem em suas respectivas mãos as vidas dos outros, sob o risco de perderem as suas. O que essa singela cena mostra é que o lado “bom” escolhe – democraticamente, organizadamente, pelo voto – a morte sumária dos criminosos em geral. O que ele não tem é a coragem de executar a sua escolha. Como, por sinal, na outra barca, não se consegue igualmente negar com veemência essa escolha. O que o experimento, o jogo do Coringa demonstra é que a democracia – cujo modelo é o americano – é tudo, – um sistema de escolhas alienantes e falsas, se quiserem – menos um sistema de sujeitos políticos, uma vez que a grande maioria não é capaz de sustentar a própria escolha.
Quando o Batman tenta rastrear a voz do Coringa através da infinidade de vozes do sistema de comunicação contemporâneo, o que ele procura é o Real dessa voz em meio ao emaranhado dos significantes, em meio ao Outro de Gotham – Outro que ele julga defender e que constitui uma multitude (Hardt e Negri) mais do que um povo. É por isso que para chegar até o Coringa ele deve aqui driblar e desembaraçar o emaranhado vítima-terrorista-refém-louco-criminoso. Tudo para chegar até o Coringa, que finalmente ri e lhe diz “você acha que eu arriscaria perder a batalha pela alma de Gotham numa briguinha de mão com você?” E como sustentaremos aqui e mais adiante que o Coringa é o verdadeiro arquiteto, o próprio diretor do filme – sem falsa metalinguagem – não cabe contrariar a hipótese de que o filme é mais do que um filme de super-herói com seqüenciazinhas de ação. Não? (ainda que estas devam estar presentes para justificar o enorme gasto – cada vez maior como diz a lei da acumulação do Capital – que constitui um filme de ação hollywoodiano).


Profundidade artística

Sim. Há uma pretensão artística n’O Cavaleiro das Trevas. E há também um perigo tão grande quanto essa pretensão. O insight é de um blogueiro americano muito inteligente que usou o aparato crítico de Slavoj Zizek para ler esses e outros problemas do filme (http://poserorprophet.wordpress.com). Este texto lhe faz (ao blogueiro) inúmeras desapropriações que eu torço para os meus propósitos. Peço licença para citar Slavoj: “Em contraste com a oposição simplista entre mocinhos e bandidos, suspenses de espionagem com pretensões artísticas demonstram toda a “realista complexidade psicológica” dos personagens que estão do “nosso” lado. Longe de demonstrar uma visão equilibrada, no entanto, essa “honesta” aceitação do nosso “lado escuro” assinala o seu contrário mesmo, a secreta asserção de nossa supremacia: nós somos “psicologicamente complexos”, cheios de dúvidas, enquanto os oponentes são fanáticas máquinas assassinas unidimensionais” (In defense of lost causes, tradução minha). Como nos filmes de super-herói? Pois então não é verdade que muita gente que assistiu ao filme saiu dizendo que o Coringa estava muito bom, ou seja, completamente insano? E as crises existenciais e morais do homem-morcego não seriam exatamente o que fariam dele distinto e superior ao Coringa? Não acho que se trata de apontar profundidade psicológica também no personagem do Coringa, não se ganha nenhum esclarecimento sobre o filme com isso. Por outro lado, desde Batman Begins, temos essa tentativa por parte de Wayne de vivenciar e entender “por dentro” o que é ser um criminoso, estratégia que também evidencia o seu oposto aparente, qual seja, trata-se da melhor maneira de neutralizá-lo como Outro enquanto tal. Nesse sentido o filme é um propriamente um espetáculo na acepção de Debord, tornando vivenciável uma ideologia em escala exponencial.
Entre o Batman e o Coringa, entretanto, fica o Duas Caras. Ele é a verdadeiro alvo do Coringa, o centro de seu plano, e a razão de seu triunfo final. Ele não leva uma vida dupla e com lógicas diferentes (mas complementares), como o Batman, e nem se entregou à monstruosidade da máscara por completo como o Coringa (que tem ambos os lados desfigurados). Este triunfa porque faz de Dent uma bizarrice a meio caminho entre ambos: um errante vingador dos pais que persegue seu plano com interferências de um desfigurado, ao mesmo tempo insano e ridículo, senso de justiça. Não deixa de ser incrível que o grande Cavaleiro Branco da justiça esfumaça suas pretensões universais num jogo pessoal de gato e rato, provando ser muito menos racional do que o Coringa.
Aliás, racionalidade é com ele mesmo. Tenho minhas dúvidas de quem é realmente o diretor desse filme, pois tudo se passa como se o Coringa fosse o cara por trás de tudo. A arquitetura do filme é toda dada pelos planos do vilão, e como todo filme hollywoodiano ainda fiel às suas raízes dramáticas esses planos não se mostram em seu elemento de montagem intelectual (sem falso brechtianismo, portanto). O que eu quero dizer é que nesse filme, em grande parte, os planos de imagens, cinematográficos, coincidem com os “planos” criminosos do Coringa mesmo. É ele que dá a pauta. É ele que está no controle o tempo todo. É ele que dirige. Enquanto o Batman... reage, corre atrás, tenta salvar esse, aquele, como um personagem de videogame onde os caminhos estão pré-traçados – numa triste semelhança com a esquerda contemporânea... Enquanto a trilha sonora apresenta-se como um conflito entre uma estereotipada música de aventura sombria, que alimenta a nossa fantasia de ser Batman, e a risada propriamente diabólica do Coringa, considerando que o Diabo é o Criador desse mundo. E enquanto tal ele é a própria ruptura, a fenda do Real, a perturbadora risada inscrita na realidade, desconfigurando-a, tornando-a inconsistente, um pouco como o sorriso daquele gato de Alice no País das Maravilhas. O Coringa é o Trauma enquanto tal – daí a multiplicidade de histórias quanto às origens de suas cicatrizes – trauma cujo referente é ninguém menos que o nosso conhecido sujeito moderno. O que entendemos por sujeito moderno? Um sujeito libertado de sua substância coletiva, de seu núcleo substancial (étnico, comunitário, familiar...), individualizado, que sacrificou tudo aquilo pelo qual ele anteriormente sacrificaria tudo... em troca de uma nova Ordem de indivíduos igualitários e livres – mesmo que apenas formalmente na grande parte dos casos. O trauma desse sujeito diz respeito à sua essencial não-identidade, à sua potencial indeterminação no solo social, indeterminação que diz respeito também – para voltarmos ao filme – às inclinações e estruturas morais socialmente partilhadas, justamente àquilo pelo qual o Batman luta. A “cruzada” do Coringa “pela alma dos cidadãos de Gotham” diz respeito a essa tentativa de confrontá-los com esse potencial subversivo que a modernidade trouxe em seu bojo. O Coringa é o gozo corporificado que orquestra os seus atores e cria o cenário perfeito para que a experiência da “noite do mundo” (Hegel), o caos ou o vazio fundamental, torne-se generalizado. E o seu grande trunfo, sua conquista propriamente extraordinária, é roubar para si o gozo da lei e fazer vislumbrar uma violência desvinculada do direito e do misticismo que insiste em se afirmar no nosso fascínio ridículo pelo Batman. Why so serious?


Anti-heróis subterrâneos
Que o Batman sempre foi um anti-herói nos seus melhores momentos, os leitores dos seus quadrinhos já sabem. A “crise” em que ele entra no filme reafirma-o como anti-herói: até onde infringir a lei é fazer a lei? Daí a questão de procurar um White Knight para substituir o Dark Knight, um Cavaleiro Branco que agiria absolutamente dentro da lei e a faria cumprir sem a necessidade de um Cavaleiro Negro, excesso da lei em relação a ela mesma. É aqui que o Batman se insinua como uma alegoria dos EUA: a atual auto-imagem do país não pode se legitimar buscando uma simples afirmação de si heróica, a fantasia do cowboy Bush versus os índios talibãs é uma fantasia demasiada ingênua. É claro para todo o mundo e para parte de sua sociedade que o país está conduzindo uma guerra sem legitimidade e quebrando sistematicamente qualquer apoio da comunidade internacional, que o país decidiu romper unilateralmente os seus acordos, romper o – mesmo que frágil – direito internacional. “Pouco importa o que os outros pensem, vocês europeus (o resto do mundo eu não ouço mesmo) podem me criticar à vontade, eu vou travar a minha batalha sozinho e salvar os inocentes dos terroristas custe o que custar”: tal a auto-imagem anti-heróica dos EUA, sua maneira de extrair gozo disso. E como disse o blogueiro americano, “a América se tornou um vigilante”. Só faltava o seu filme.
Um segundo ponto decisivo que transforma o Batman numa alegoria americana diz respeito às suas instalações subterrâneas secretas – ironicamente disfarçadas de um prédio civil. Susan Willis – uma das mais inteligentes hippies americanas vivas – num seminal texto intitulado “Somente o Sombra sabe”, aponta a qualidade fantasmática do real – através do qual constatamos não o quanto o Cavaleiro das Trevas é o mais realista dos Batmen, mas o quanto do novo Batman já está inscrito na realidade. Tudo indica e já toda a imprensa sabe que o governo americano já tem a sua batcaverna – a base de infra-estrutura de um governo paralelo. O segredo não foi bem mantido no entanto como o de Bruce Wayne (certos governos ainda insistem em ser públicos!): existem quarenta abrigos subterrâneos construídos em montanhas num raio de cem milhas de Washington. Um deles, “por exemplo, em monte Weather, Virgínia... destinado ao porta-voz do Congresso, a chefes de gabinetes e oficiais da Suprema Corte”. Parece que o Batman não estava sozinho em sua paranóia, dado que nos anos 50 muitos de seus compatriotas americanos construíram abrigos nucleares em seus quintais, superando assim seus medos (pensem em Batman Begins, de como o medo de morcegos é superado). A imagem – difundida até a medula pelos seriados norte-americanos – da família nuclear americana é parte da fetichização dos anos 50, da criação de uma nostalgia imaginária de uma “família ideal” rechaçada pela contracultura e o feminismo dos anos 60. Não à toa o assassinato dos pais de Wayne dá-se na saída de uma ópera. Não à toa a fraqueza do personagem Duas-Caras é ser guiado por essa fantasia da família ideal (vingança pela morte da noiva, seqüestro da família de Gordon). O Batman vê mais longe, mas não necessariamente melhor. Como sombra da justiça, seu projeto é garantir a realidade desta. Seu aprendizado oriental permite com que veja sem ser visto, e é esse aprendizado aliado à alta tecnologia que o distingue enquanto sombra real. O radar do morcego é seu símbolo. Ele é a figura mesma da paranóia disseminada, da indistinção entre real e sombra na fantasmagoria da tela.
Em sua vinda ao Brasil há algumas semanas, Zizek disse que não gostou do Dark Knight porque ele é um filme de justificação permanente da mentira (assim como o Kung-fu Panda). O desespero social é tamanho que a verdade deve ser escondida para que a ela não se desintegre na anomia caótica. É nesse contexto que a figura de Harvey Dent se impõe como o Salvador, a última esperança da Ordem. Sabemos, entretanto, que ela não dura muito. Assim como age o serviço secreto norte-americano, algumas coisas parecem dever ser feitas sem o conhecimento do público. Daí o elemento novo que vislumbramos aqui: o que era velado torna-se explícito – para o público do filme, evidentemente. Batman e Gordon encobrem o fato de que Dent está enlouquecendo, apagam e mesmo assumem seus crimes. A cena em que ele mostra-se disposto a matar um capanga do Coringa é paradigmática pela solidariedade entre os dois pólos: é o Batman que vem impedir que ele decida na sorte a vida de alguém. O plano da imagem já divide seu rosto entre luz e sombra.

Tropas e Cavaleiros

O tema da procura por um substituto é muito caro a, e determina mesmo a forma de, um muito polêmico filme brasileiro, anterior ao Cavaleiro das Trevas, o filme-fenômeno Tropa de Elite. Assim como o Batman, o capitão Nascimento não consegue ter uma vida familiar normal por causa de seu trabalho, e tenta achar um substituto. Ambos são guiados por um senso ético absolutamente questionável. Ambos – guardando as devidas proporções – são tecnológica e militarmente equipados. Se tecemos tais aproximações é justamente para nos ajudar a medir suas distâncias, e respectivamente a de suas comunidades imaginadas – brasileira e americana. Se Bruce Wayne decide tornar-se um vigilante mascarado numa cruzada contra o crime, a sua empreitada aparece como fortemente individual e altruística: a imagem clássica disso aparece nos seus saltos solitários das torres de Gotham em direção aos seus abismos. Esta extrema mobilidade horizontal sugere que a sua vigilância não tem barreiras de classe. Mas o fato de ser um dos homens mais ricos do mundo explica não só seus apetrechos, roupas, carro e brinquedos de última tecnologia – uma espécie de rapel de ponta – mas principalmente o fato de ele ser um homem sem nenhuma necessidade e, portanto, de poder se dar ao luxo de dedicar-se ao outro, protegê-lo, sem se importar consigo mesmo. A mensagem ideológica então se torna clara: trata-se do mito do altruísmo americano, de um país que age sozinho para garantir a existência livre e democrática de nações ao redor do mundo... Já em Tropa de Elite, bem, trata-se de garantir a exploração e reprodução pacífica da miséria, trocando-se a “tranqüilidade” afluente de um dos lados pelo genocídio permanente do outro. O altruísmo americano soa ridículo ante ao pragmatismo programático da guerra contra o tráfico, que aqui encontra a usa expressão cinematográfica, do ponto de vista, evidentemente, de quem se engaja no “contra”. A comparação ganha um incentivo a mais quando é a própria direita brasileira que busca refúgio no cinema americano, argumentando que lá o ponto de vista sempre foi o da lei, como sempre deveria ter sido aqui, no lugar de um suposto elogio ao malandro num “cinema do bandido camarada” (Vera Lúcia Follain de Figueiredo). Tropa de Elite, portanto, é aquele filme que viria para por “os pingos nos is” (Veja, “A realidade é só a realidade”). Que pena para a nossa direita que um simples filminho de super-herói exponha e problematize a questão da lei muito mais do que qualquer matéria que a sua querida revista já tenha escrito – ao menos desde que a direita assumiu o seu comando. A simplicidade com que o ponto de vista do policial – e portanto daquele que está na ponta do monopólio da violência – é exposta é inversamente proporcional à sua eficácia, ou melhor dizendo, a sua eficácia depende mesmo dessa simplicidade. O problema é que tal simplicidade não é nada simples, dado que ela dependente de uma estrutura de cumplicidade com o opressor. O filme tem um propósito claro: pretende dissipar a antipatia da multidão contra o direito, substituindo-a por uma simpatia. Ele o faz de duas maneiras distintas e complementares.
Em primeiro lugar por intimidação. Peço licença para citar um trecho da Crítica da Violência/Poder de Walter Benjamin: “Pois a violência mantenedora do direito é um poder ameaçador. Só que sua ameaça não tem o sentido de uma intimidação, como costumam interpretá-lo teóricos liberais desinformados. A intimidação no sentido exato exigiria uma definição contrária à essência da ameaça e não é atingida por lei nenhuma, uma vez que existe a esperança de escapar a seu braço. A lei se mostra ameaçadora como o destino, do qual depende se o criminoso lhe sucumbe”. No universo de potencial anomia generalizada em que se vive hoje – cujo nome paulistano é uma conquista poético-conceitual dos Racionais e se chama vida loka – aderir ao capitão Nascimento é deixar-se seduzir pela esperança de escapar ao destino comum. Tal esperança tem, entretanto, a espessura da ética auto-apregoada pelo policial.
A segunda maneira de garantir uma simpatia ao direito se dá através da estrutura de identificação ao mesmo personagem que representa esse braço principal do estado de exceção que é a polícia. A atuação de Wagner Moura, que indica de forma perfeitamente dramática a cisão entre a sua função pública e sua vida privada, por melhor que seja, entretanto, não pode sozinha garantir essa adesão. Esta é garantida por um mecanismo duplo: a montagem e a voz em off. A montagem garante não só o ponto de vista unilateral da polícia – que atua paralelamente às cenas de cerco às vítimas ou ao inimigo – mas a exposição de sua atuação tática em seqüências vertiginosas cujo ritmo tende a suspender o julgamento do espectador de maneira técnica. A feitura das cenas tende a sobrevalorizar a situação de emergência e a inevitabilidade das ações como elas se dão. Ela instaura, como disse Laymert Garcia dos Santos, um clima de seleção natural ou lei da selva. A perversidade maior, entretanto, está na voz em off. Com ela, estabelece-se um segundo plano que não aquele das imagens, no qual se dá a narrativa do policial como que a posteriori, ou seja, como que de um ponto ulterior à história representada pelas imagens. A função da voz é pontuar – com comentários, conjecturas, opiniões e principalmente justificativas – o fluxo de imagens. O tom da voz, entretanto, é insidiosamente mais calmo – mais sossegado – do que o tal fluxo imagético violento, por vezes levemente irônico, cordialmente informal. Exemplo. Enquanto o Matias chega à faculdade e caminha pelos corredores a procura de seus ex-amigos de curso, o capitão Nascimento fala em nossos ouvidos: “O nosso curso prepara os policiais pra guerra. E não adianta me dizer que isso é desumano. Enquanto os traficantes tiverem dinheiro pra se armar... a guerra continua. Todo policial do BOPE aprende isso. O Matias tava aprendendo. E quer saber, parceiro? Já tinha passado da hora de ele afrontar aqueles maconheiros.” Segue-se então a tal afronta. Apesar dessa disparidade entre som e imagem, elas parecem possuir um encaixe tão “natural” (para nós brasileiros?), que é por vezes difícil notá-la em sua complementaridade problemática. O que essa forma opera é a transformação da voz do narrador em uma espécie de garantia, de fiador último... da Ordem, pois todas as “contradições” – que se quer ver no filme por alguns comentadores – são ao fim e ao cabo absolvidas por essa sábia voz providencial que nos salva da “violência da realidade” para nos garantir a violência do direito. O efeito é portanto propriamente cínico, dado que a violência explícita de decretos permanentes (plano da imagem) só faz alimentar a autoridade da voz, uma vazia violência administrativa.

Pra onde, cavaleiros?


A partir da sucinta análise dos dois filmes que aqui abordamos, podemos tentar estabelecer uma comparação cruzada entre certas coordenadas que os põe em confronto. O pano de fundo comum para tal talvez esteja num certo sentimento de corrupção generalizado – o fato de Tropa de Elite ter sido antes de tudo um grande fenômeno de difusão pela pirataria não seria a melhor prova disso? Corrupção que não poupa e aliás a torna ainda mais devastadora por incluir a polícia. Tal pano de fundo fundamenta e alimenta de modo particular um certo enobrecimento ético dos nossos respectivos cavaleiros. O fato do Batman (teoricamente) não matar o separa do abismo moral oferecido pelo Coringa e constitui o mínimo traço que o mantém no interior do direito. Paradoxalmente, no entanto, ao abrir mão do exercício de poder de vida e morte sobre o outro, ele abre mão de uma identificação com o direito como tal, uma vez que na origem o direito não se distingue de uma violência terrível (Benjamin). O que torna o Batman um americano essencialmente liberal é o fato de ele não conseguir romper esse limite. Apesar de legitimar abertamente a tortura – o que os liberais haviam até ontem apenas “discutido” – ele não pode assumir as conseqüências desfiguradoras/desidentificadoras dessa identificação (com o direito-poder). Tal o impasse americano, que o Coringa veio escancarar. Será o “cavaleiro negro” Obama capaz de encará-lo?
Ora, o nosso capitão Nascimento demonstra sim ser capaz de assumir em sua inteireza essa identificação. Ao tornar-se mais policial do que a própria polícia ele demonstra em sua forma, digamos, pura, o fato de que essa instituição singular da modernidade se emancipou de toda legitimação dos meios, assim como qualquer subordinação a um fim que não seja a garantia cega do destino divino – abram alas que o Papa vai passar... Se o Mathias é o nosso “cavaleiro negro”, não custa sugeri-lo como a cifra do real da diferença entre os nossos negros e os de lá, e não só em termos de simpatia – o nosso está perdendo feio –, o que, aqui, não deixa de ser uma vantagem.