segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Ainda é cedo, de Nelson Gonçalves, e a atualidade do bolero.

Para José Virgínio, talvez o último romântico verdadeiro.

Em seu último álbum, Ainda é Cedo, lançado em 1997 pela BMG Ariola, Nelson Gonçalves aproxima-se da música jovem, o pop rock padrão anos 80\90 que foi a febre daquele período. Aproxima-se, contudo, sem abrir mão de sua identidade clássica, inclusive no fato de que essas canções já são peças de museu a seu modo, tocando principalmente em festas e programas de rádio estilo revival. Não é o pop rock que faz a cabeça dos jovens de hoje: é a geração que anda beirando os trinta que considera essas canções como música de jovem, no que vai um acerto do Nelson, pois é esse o público alvo que ele deve ter em mente, que já não é assim tão jovem, e que portanto pode aceitar mais facilmente seu padrão de canto operístico pré anos 60.
Em todo caso, a mistura funciona bem, em alguns casos até melhor que o original, o que nos permite tirar uma série de conclusões - e fantasiar umas outras tantas. Por exemplo, que o defunto nunca esteve assim, tão morto quanto se diz, e que o mal cheiro dele vinha de outro lugar, lá das bandas do inconsciente freudiano. Unheimlich. O padrão bolero operístico que dominou a cena entre os anos 40 e meados dos anos 50 nunca chegou a ser devidamente enterrado, mas mudou de forma e continuou na ativa. O seu principal descaracterizador não foi João Gilberto – esse criou uma outra coisa realmente, um novo padrão – mas Roberto Carlos, que forjou um novo tipo de canção romântica, de padrão melódico mas entoativo e pulsional (ou temático, para sermos técnicos). Um romantismo mais pé no chão, digamos assim, pós João Gilberto. Foi essa basicamente a principal transformação que Roberto Carlos trouxe para a canção brasileira, via rock, o que significa também que uma das principais características do rock entre nós é ser uma atualização do bolero, ou seja, propor um modelo de canção romântica moderna. Por isso, quando o rei deixa de fazer ieieie, depois de passar um tempo perdido na black music (sua melhor fase), para se tornar o modelo hegemônico de música romantica, não se trata de uma ruptura completa (encareteamento carlista) mas, sobretudo, de uma continuidade. E é por isso que um dos aspectos principais do Brock nos anos 80 é também propor um padrão de música passional, atualizando o rei e tirando a primazia da MPB. Legião Urbana é, antes de tudo, um grupo de música romântica, por isso, inclusive, o seu sucesso. O mesmo pro Lulu Santos< Kid Abelha e outros.
Ou seja, por mais que se escreva a história como uma série de rupturas, o que em geral acontece é melhor compreendido como um conjunto de migrações e negociações contínuas que deslocam os objetos para outros lugares. Bora lá observar esses deslocamentos então. E, de quebra, fazer uma listinha classificatória, que é a parte divertida da coisa.
O POST ABAIXO É PARA SER LIDO AO SOM DA NARRAÇÃO DO MILTON LEITE. QUE BELEZA!
1) COMO UMA ONDA NO MAR (NELSON GONÇALVES X LULU SANTOS X TIM MAIA)
A gravação do Nelson nos revela aquilo que a canção sempre almejou ser: um bolerão. Pontos pra ele. Nelson não altera significamente o padrão de interpretação, no que vai outro acerto, uma vez que “Como uma onda” foi criada por Lulu Santos como hit imediato. Mas ela acerta em um ponto que Lulu deixa escapar, na medida em que aceita integralmente seu padrão romântico. Enfim, na versão do Nelson a beleza é ressaltada. Contudo, a canção se torna um lamento, enquanto que no Lulu está em jogo a aceitação do caráter transitório da existência. A canção é mais solar do que pede a interpretação do Nelson, e aí é ponto pro Lulu. Mas não é por isso que ela deixa de conter essa passionalidade proposta pelo bolerão. No limite, trata-se da diferença entre um jovenzinho encarando as mudanças da vida, para quem cada mudança representa a abertura de novas alternativas, e um velho senhor, para quem cada mudança comporta um sinal negativo, o rumo inevitável para a morte.  A versão do Tim Maia fica num meio termo que me incomoda, carregando em clichês no arranjo, como a bateria eletrônica e o string. Pois é, Tim Maia é pior do que Lulu Santos nesse caso.  A principal vantagem da versão do Nelson é o arranjo, livre das convenções carregadas dos anos 80, substituídos por uma bem vinda ênfase no violão. Contudo, apesar da versão do Nelson ser mas bela, existe uma dimensão importante que se advinha na do Lulu. Daí o empate técnico. Segue o jogo. 

NELSON 1 X LULU 1 X TIM MAIA 0
2) FAZ PARTE DO MEU SHOW (NELSON GONÇALVES X CAZUZA)
Aqui o Nelson apanha. Principalmente porque o Cazuza acerta muito na composição melódica dessa canção, e cria uma Bossa Nova debochada (meio Bossa Nova e Rock’n Roll). O padrão de interpretação é mais pra João Gilberto, portanto, o que exige certo despojamento que escapa ao Nelson, o que implica no padrão melódico ser mais propriamente enunciativo (falado) do que cantado, a não ser no refrão. A genialidade do Cazuza nessa canção está em ter acrescentado uma ironia perversa à letra, uma canalhice deslavada, compondo uma anti canção de amor com cara de música romântica. Nelson tenta transformar em canção romântica propriamente dita, e perde a mão. Ponto pro Cazuza. 
NELSON 0 X CAZUZA 3
3) DE MAIS NINGUÉM (NELSON GONÇALVES X MARISA MONTE E ARNALDO ANTUNES)
Marisa Monte, junto com Arnaldo Antunes, se arriscam a fazer um choro canção. E não fazem feio, principalmente pelo arranjo com um regional que casa muito bem. Só que aqui, parceiro, é o Nelson Gonçalves jogando em casa com o apoio da torcida. O arranjo é basicamente o mesmo (escolha acertada de repertório, com uns toques mais abolerados, como o restante do disco), só que com as cores carregadas do samba canção. Ou seja, saem os miados da Marisa para entrar o peso das cordas. Aqui não tem a ironia do Cazuza, onde o Nelson se perde: é a Marisa fazendo aquilo que o Nelson é um dos grandes mestres (ou seja, o deslocamento temporal nesse caso sofre um achatamento, e o caráter fake de releitura despojada se perde). Ponto pro Nelson, que acerta ao carregar na passionalidade do arranjo, rompendo com o despojamento MPB da Marisa (mas, para sermos justos, esse despojamento faz bem para sua versão). A dor do Nelson é mais doída.
NELSON 1 X MARISA MONTE E ARNALDO 0
4) MEU ERRO (NELSON X PARALAMAS)
O modelo escolhido por Nelson nesse caso deixa escapar uma dimensão importante da canção original – essa era a principal crítica feita a esse padrão operístico, que aqui revela seu fundo de verdade. Na versão do Paralamas adivinha-se certo desespero ansioso de um jovem que está tentando se convencer a todo custo, uma dimensão de ansiedade que a versão original deixa mais evidente, assim como o caráter de falsa resolução da primeira parte. Essa falsidade fica clara quando a batida ska perde centralidade após a invocação a Deus, quando o sujeito assume (mesmo que colocando no passado) que tudo o que ele queria era estar ao lado do outro. Enfim, tem um duplo movimento entre o desejo de afastamento e a dor do afastar-se (formalmente, uma diferença de tom entre a primeira parte e o refrão. Quase didaticamente, a guitarra é o Herbet Vianna, o teclado é a moça que quer voltar. No Nelson, que é mais macho, a moça desaparece) que a versão do Nelson acaba por chapar, enfatizando sobretudo a dor da separação (a passionalidade de sua interpretação, que sempre remete ao afastamento do objeto). Perde-se assim uma tensão importante da música, que a versão do Paralamas propõe e mantém, mesmo que com um acompanhamento musical que poderia ser muito melhor.

NELSON 0 X PARALAMAS 1
5) AINDA É CEDO (NELSON X LEGIÃO URBANA)
Ainda É Cedo by Nelson Gonçalves on Grooveshark
Ainda é cedo by Legião Urbana on Grooveshark
O maior acerto do disco. Essa é uma que o Renato Russo gostaria de perder pro Nelson Gonçalves, sendo talvez o primeiro a reconhecer, com prazer, sua superioridade. A versão do Legião soa como aquilo que ela é: um pastiche de pós-punk, decalque do The Cure, com uma historinha de amor vomitada as presas que soa pouco convincente. Aqueles casos, comuns no Brock, em que o original parece uma cópia mal feita. A do Nelson, ao contrário, soa como aquilo que ela deveria ser: música de cabaré. A versão traz um frescor de originalidade, vinda de um veterano máximo da MPB, em estilo pré Bossa Nova. Aqui, de fato, estamos em uma relação de mútua escravidão, e o “Ainda é Cedo” do refrão soa como um grito perdido em um filme do Tarantino. A versão do Nelson ganha em clareza,  o distanciamento do tempo da rememoração, do sujeito que pesa os acontecimentos, e que verdadeiramente aprendeu a lição da moça. A do Legião quer parecer madura (aliás, essa não é uma boa definição pra toda produção do Legião Urbana, que insiste em se apresentar como mais madura do que efetivamente é, sendo que sua qualidade principal não está em sua maturidade?) mas soa fake e afobada em diversos momentos, apegando-se excessivamente ao pós punk, como um clichê. Coisas de banda iniciante (ainda era cedo). Renato diz que uma menina ensinou quase tudo o que ele sabe, e ao fim da canção fica-se com a impressão de que ele não aprendeu quase nada (talvez seja isso mesmo, e a partir do segundo disco ele ia revelar que aprendeu muito mais com homens do que mulheres). Quem sabe mesmo é o Nelson, que inclusive divide o refrão (que contém a moral da história) com vozes femininas… O Ainda é cedo da Legião soa como marca do não saber, que permanece, enquanto que no Nelson, é um estágio já superado. É claro, cantores com longas carreiras também se apegam aos mais diversos clichês, mas não é o caso dessa versão, que soa como um tipo de canção de cabaré com toques etéreos, quase psicodélicos – cairia bem com Jefferson Airplane. É como se o Nelson resolvesse pegar a historinha do Renato Russo: dá aqui, moleque, deixa eu contar isso direito porque você ainda não aprendeu a lição. A música ganha em densidade, camadas, o jogo com o coral e a percussão fazem o arranjo crescer. Enfim, um baile.
*O gol do Legião que o juiz marcou é porque sua versão não é inadequada. O fato do refrão ser aquilo que o sujeito dizia pra moça antes de aprender a lição demonstra consciência da dimensão fake da afirmação de que tal lição foi aprendida. Mas a versão do Nelson, que percebeu faz tempo que um pé na bunda não é o fim do mundo, mas a própria condição humana, mostra que seria muito melhor se a lição fosse aprendida.

NELSON 4 X LEGIÃO URBANA 1
6) VOCê É LINDA (NELSON GONÇALVES X CAETANO VELOSO)
Você É Linda by Nelson Gonçalves on GroovesharkVocê é linda by Caetano Veloso on Grooveshark
Bom, aqui o advbersário é duro, tipo encarar o Anderson Silva, porque o Caetano é talvez o maior mestre nesse tipo de canção pop de amor na MPB. E o cara é simplesmente brilhante quando se trata de interpretação, de decantar aquilo que a canção, delicadamente, exige. E quando ela não exige nada, Caetano cria um tipo de interpretação que ora revela o que ali se ocultava, ora escancara contradições internas à forma, que de outro modo passariam desapercebidas (o caso célebre de Carolina). Em suma, é difícil fazer uma interpretação melhor que a do próprio Caetano (o mesmo vale pro Chico Buarque, diga-se de passagem, um puta intérprete). O que nao quer dizer que seja impossível, primeiro porque Caetano erra (sobretudo porque arrisca), segundo porque em canção é assim que funciona: nada é definitivo. Mas não é esse o caso. Nelson carrega nas cores do bolerão, e o tom Bossa Nova (mas é importante dizer que a canção guarda distância da Bossa Nova, sobretudo se repararmos bem no violão contínuo de Caetano, sem swingue nenhum, quadradão, acentuando os 4 tempos)  de aceitação da beleza da moça como um dado natural, como letra, música e ritmo, se perde. A interpretação do Nelson é excessivamente passional e chama atenção para o intérprete, enquanto que Caetano esforça-se para dar uma imagem precisa (concretude) de seu objeto – moça, mar, abaeté, a própria canção. O “você” do título ocupa o primeiro plano, e toda canção é uma busca pela adjetivação precisa, solar, desse objeto. Mas Nelson é malandro e não descaracteriza a canção, por isso a vitória não é, assim, de lavada.

NELSON 0 X CAETANO 2
7) BEM QUE SE QUIS (NELSON GONÇALVES X MARISA MONTE)
Novamente o embate do Nelson com a última musa da MPB – de certo modo, a negação da possibilidade de musas na MPB. Uma versão de Nelson Motta para uma canção francesa, que foi um grande sucesso nos longínquos anos 90. No primeiro embate Marisa foi jogar no campo do adversário, e até que se saiu bem, mas acabou perdendo. Já aqui se trata do jogo de volta, e é o Nelson que vai se arriscar nesse terreno pop quase pagode (não é a toa que o Exaltasamba gravou a música, que ficou pior que as duas – deixou tudo quadradão) que Marisa domina bem. O resultado é que sua interpretação não consegue se adequar à naturalidade exigida pela canção, sobretudo no seu refrão. A canção se estrutura de uma forma bem convencional de modo a ser toda ela uma preparação para o extase sexual do final, extase esse que exige uma naturalidade entoativa que se aproxime da pulsão corporal. Ou seja, no refrão a melodia tem que ceder espaço para entoação porque é o corpo que vai entrar em cena. Esse é o único charme da canção, aliás, bem pobre – todo o pagode mais convencional se baseia exatamente nesse movimento, assim como parte do repertório romântico mais sexualizado do Roberto Carlos e seus seguidores, como Wando. Mas, ao não conseguir realizar esse mínimo deslocamento, a versão do Nelson fica desconjuntada. Me dói admitir, mas pontos pra Marisa por conseguir simular o orgasmo no final. O Nelsão dá uma brochada.

NELSON GONÇALVES 0 X MARISA MONTE 1
8)CASO SÉRIO (NELSON GONÇALVES X RITA LEE)
Rita Lee era ótima para fazer boleros que soassem modeninhos. Um dos melhores é “Mania de Você”, uma canção excelente, naquele modelo de romantismo sacana que o Tim Maia adorava. “Caso Sério” é um outro exemplo da série, só que aqui marcado por certo certo distanciamento irônico, como se o flerte com o bolerão cafona não pudesse ser assumido integralmente, a não ser mediante ironia. Daí o porque do “Românticos de Cuba” ser pronunciado em portunhol, e de aparecer um “misto quente” que desloca o romantismo da cena com uma imagem de declarado “mal gosto”. Ora, Nelson Gonçalves não tem problemas em fazer a canção soar como um bolero deslavado, retirando qualquer traço de ironia da interpretação (por isso o misto quente fica tão estranho na sua versão), assim como ele já havia feito com Cazuza. Só que aqui o movimento funciona perfeitamente, pois a ironia que Rita aplica não é estrutural, mas antes um certo receio ou vergonha de fazer um bolero deslavado (o que não vai ser problema em “Mania de Você”, que assume integralmente sua sensualidade de Cabaré). Ao fazer a canção assumir integralmente sua vocação, a versão de Nelson supera a original, conseguindo soar ainda mais sensual – e não é muito fácil superar a Rita Lee nesse campo. 

*Só pra servir de contraponto, e pelo prazer do sadismo, acresento uma versão muito inferior -  ainda pior porque quer aparecer como releitura cult. Aqui, a canção desaparece totalmente para ceder lugar a um violão sofrível e a torneios vocálicos absolutamente gratuítos. Nem beleza nem ironia, apenas uma egolatria desnecessária. Agradecemos ao senhor Ed Motta pela pérola.
NELSON GONÇALVES 1 X RITA LEE 0
ED MOTTA rebaixado para a série C do campeonato.
9)NADA POR MIM (NELSON GONÇALVES X MARINA LIMA E PAULA TOLLER)
Nada Por Mim by Nelson Gonçalves on GroovesharkNada Por Mim by Marina on GroovesharkPot-pourri nada por mim fullgás by Emilio Santiago on Grooveshark
Uma canção pop romântica do Hebert Vianna, típica dos anos 80. Aqui ganha quem parecer mais sincero sendo um capacho. A canção por si não possui grandes atrativos, por isso em todos os casos o arranjo e a interpretação são bastante convencionais. A interpretação de Marina Lima e da Paula Toller seguem os clichês definidas por cada uma, e a de Nelson também segue seus próprios cliches. A versão ao vivo de Paula Toller com voz e violão segue o mesmo padrão adocidado das cantoras MPB contemporâneas. A submissão é adocicada e se apresenta sem resistência em todos os casos. A canção não é mesmo grande coisa, e mesmo um grupo péssimo como Sorriso Maroto consegue fazer uma versão que não compromete, porque não tem nada ali para ser comprometido. Talvez a melhor versão seja a do Emílio Santiago, que pelo menos é mais sincero ao revelar despudoradamente todo prazer sexual presente naquela situação de submissão masoquista, em sua versão soul-pagodeira. Enfim, o jogo é bem ruim, sem gols e sem emoção.
NELSON GONÇALVES 0 X MARINA LIMA 0
10)SIMPLES CARINHO (NELSON GONÇALVES X ÂNGELA RORO X SIMONE)
Essa destoa um pouco das outras composições do album pois é uma música cuja base não é o pop rock anos 80. É uma canção de João Donato, com letra de Abel Silva – professor universitário que se tornou letrista por sua aproximação com Raimundo Fagner - e que coloca uma questão interessante. Acredito que exista uma ligeira incompatibilidade entre a letra e a música nessa canção, pois me parece que a letra é mais passional do que o exigido pela melodia. Pra quem não conheçe, sugiro que comece ouvindo a versão instrumental do João Donato, e procure imaginar sobre o que poderia ser a letra. A meu ver, a música tem certa leveza que as cores carregadas da letra (“Amar é sofrer”) fazem perder. E as interpretações acabam por focar mais no sentido da letra do que no da parte musical, até chegar no excesso passional (equivocado) da interpretação da Simone. Elas não são ruins, mas perdem algo da dinâmica proposta pelo João Donato. Aqui, portanto, o problema é anterior as gravações, ainda que a Simone peque por um excesso de passionalidade.

NELSON GONÇALVES 1 X ANGêLA RORÔ 1 X SIMONE 0
11) ESTÁCIO, HOLLY ESTÁCIO (NELSON X LUIZ MELODIA X MARIA BETHÂNIA X MARTINÁ’LIA)

Um dos grandes intérpretes da MPB, em uma canção que está em um dos maiores discos da música brasileira de todos os tempos (Pérola Negra, 1973). Aí o negócio fica difícil. Contudo, essa música não deixa de ser um belíssimo samba canção, ainda que fale de morte e tenha sua dose necessária de esquisitices. E é claro, são essas mínimas sutilezas esquisitas  que ajudam a compor seu brilhantismo, assim como é claro que vão ser a primeira coisa a desaparecer na interepretação mais canônica do Nelsão. Sua versão vai propor uma suavização das arestas proposta pelo maldito Luis Melodia  - o que demonstra o equívoco das interpretações que dizem que esse modelo é sempre exagerado e passional, incapaz de sutilezas. A versão de Nelson Gonçalves prima pela beleza, enquanto que a de Melodia flutua entre beleza e violência (morte, maldição, ódio). A original é mais adequada aos sentidos propostos, mas a de Nelson é uma belíssima interpretação. Como bônus fica a versão da Maria Bethânia em um disco produzido pelo Caetano (Drama), que faz questão de reforçar as “esquisitices” da versão original, e o dueto de Luiz Melodia com Martiná’lia, que é a versão mais equilibrada, belíssima. Ponto pro compositor, que criou essa jóia.
NELSON 1 X LUIZ MELODIA 3 X MARIA BETHÂNIA 2 X MARTINÁ’LIA 3
12) ME CHAMA (NELSON GONÇALVES X LOBÃO)


Lobão é um reacionário conservador com opiniões cada vez mais medíocres (aliás, quem da geração do rock anos 80 se salva? Esse é o preço pago por uma rebeldia juvenil de classe média desvinculada de uma base social concreta. O abismo desa geração para anterior  (MPB) e a posterior (RAP) em termos de alienação é impressionante. Eis o resultado da rebeldia enquanto produto de grife apenas). Dito isso, é preciso reconhecer que ele é o grande intérprete de suas canções (e ele tem algumas excelentes) e que suas interpretações vão ficando cada vez melhores com o passar dos anos. Aqui Nelson perde a mão – como havia acontecido antes com Cazuza – porque a canção ganha muito com um tipo de interpretação mais rock n’ roll. Na voz do Lobão, os versos ganham a intensidade do desespero, que os tornam muito mais contundentes: é óbvio que se a moça não telefonar, o cara vai ter uma overdose de cocaína, que a propósito já deve ter começado. Para o Nelson, é uma dor como qualquer outra, tanto que ele padroniza a distinção que tem entre a segunda parte e o refrão (e que nas versões primárias dos anos 80, do Lobão e da Marina, é reforçada descomedidamente). Nessa interpretação Nelson erra a mão e elimina o desespero que faz a graça da coisa, submetendo-se aos clichês de interpretação. 
Dito isso, meus senhores, é claro que tem a versão do João Gilberto pra essa música… O baiano transforma o desespero da interpretação do Lobão em dado formal, transformando-o em uma relação entre melodia, fala, arranjo e harmonia. O desespero se torna um traço da composição, que faz com que a própria canção se dissolva. É chato de ouvir, não dá pra cantar junto, o desespero angustiado de roqueiro veterano se converte em depressão profunda. É só ler os comentários decepcionados dos fãs do Lobão no youtube pra saber que a visão que João tem da situação cantada é bem desagradável. Enfim, não vou colocar o João Gilberto no jogo, porque ele instaura um outro patamar na canção, difícil de ter termos de comparação… Não se trata de uma fuga, ou de aliviar a barra dos dois de forma condescendente. Mas é como se estivessemos num concurso de literatura contemporânea e de repente alguém dissesse que o Machado de Assis escrevia melhor. Possivelmente é verdade, mas não deixa de ser um disparate. 

NELSON GONÇALVES 0 X LOBÃO 3
…e a BOSSA NOVA É FODA
10\2013

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A insustentável leveza dos pequenos gestos

TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA PÁGINA DA TORCIDA BAMBI TRICOLOR, SOBRE A FOTO PUBLICADO NO INSTAGRAM PELO JOGADOR EMERSON SHEIK, DO CORINTHIANS, EM QUE ELE APARECE DANDO UM SELINHO EM UM AMIGO.

Quando a sueca Emma Green Tregaro mostrou suas unhas pintadas com as cores do arco-íris, recebeu da supercampeã russa Isinbayeva uma reprovação forte: "É desrespeitoso com o nosso país. É desrespeitoso com nossos cidadãos porque somos russos". Isinbayeva se referia, então, à legislação que cerceia direitos dos homossexuais na Rússia, como adotar crianças ou "fazer propaganda homossexual". A imprecisão desse conceito serve bem à homofobia, como ficou claro na tentativa de explicação que Isinbayeva deu, após a repercussão de suas palavras: "Quero expressar de maneira firme que me oponho a qualquer discriminação contra a comunidade gay a respeito de sua sexualidade (...). Se nos permitirmos promover e fazer esse tipo de coisas, tememos muito por nossa nação porque nos consideramos normais, com um padrão. Nós apenas vivemos com homens ao lado de mulheres, e mulheres ao lado de homens. Tudo deve estar bem. Isso vem da história. Nós nunca tivemos problemas assim na Rússia. E não queremos ter problemas assim no futuro."

A homossexualidade seria, portanto, um desvio de conduta, um problema, uma anormalidade que ameaça o futuro e o estilo de vida russo que, segundo Isinbayeva, se calca na existência de casais heterossexuais exclusivamente. Numa lógica de tal forma opressora e contrária à diversidade, não admira que um gesto tão simpático à causa LGBT quanto simples - unhas pintadas com as cores do arco-íris - adquira esse superpoder de contrariar e desrespeitar uma nação, suas leis, seus cidadãos, seu projeto de sociedade, seu futuro. Esse temor pelo diferente, essa necessidade de que ele permaneça escondido, inaudito, invisível, isolado é, ora pois, a raiz primeira da homofobia. E a homofobia, como projeto político, depende de amarras tão apertadas, de um discurso tão restrito que basta um gesto positivo em relação aos LGBT, por menor que ele seja, para que se exponha seus limites e fissuras, sua artificialidade (a despeito de toda pretensão "naturalista" que o homofóbico evoca). Esses gestos apontam, quando não criam, os espaços de resistência que não permitem, afinal, que o discurso homofóbico seja o único possível, ainda que muitas vezes ele seja proferido pela maioria.

Não é muito diferente do beijo do Sheik no amigo. Há quem relativize o gesto sob o argumento de que Sheik não é gay, não saiu do armário, chamou os são-paulinos de "bambis" há pouco tempo, etc. Que seja. Vamos primeiro estabelecer uma coisa: o Brasil não possui leis que proibem "propaganda homossexual" mas sustenta discursos muito alinhados com esta lógica. Basta lembrarmos da presidente Dilma no episódio da cartilha anti-homofobia retirada do programa escolar, da nossa atual Comissão de Direitos Humanos da Câmara, dos casos de agressões e assassinatos provocados por homofobia. Num país em que pai e filho são interpretados como casal gay por demonstrarem afeto publicamente e, por isso, são espancados, um selinho entre dois homens ganha dimensões de resistência. Não importa se Sheik é hetero, gay ou bi pois a ordem primeira é dissolver a ideia de que há eles, os gays, e nós, os normais, o padrão (essa é a conversa da Isinbayeva, aquela que não discrimina gays, lembram?). Dissolver a ideia que essas demonstrações de afeto entre homens é da alçada deles, os gays. Que beijar um homem implica em declarar-se gay, sair do armário, assumir uma opção. Pode ser isso, mas não precisa ser só isso. A possibilidade de que homens, independente de sua orientação sexual, executem gestos de afeto publicamente é algo que nós devemos celebrar e cultivar. Especialmente se esse gesto vem de um atleta, imerso num dos meios mais homofóbicos da atualidade (como temos discutido), consciente da repercussão que causará (como a legenda da foto demonstra). A definição da orientação sexual do jogador não importa em absoluto, importa o beijo.

A reação (de boa parte) da torcida corinthiana lembra um pouco a Rússia de Isinbayeva. "Aqui é Corinthians" é o grito de ordem, a necessidade de delimitar o espaço da interdição e lembrar que, ali, naquela torcida, "não há esse tipo de problema". Que isso é "coisa de bambi". E não nos enganemos, se fosse um jogador de qualquer outro clube, receberia as mesmas chacotas de rivais e a mesma rejeição dos seus. Uma comunidade homofóbica, seja uma nação ou uma torcida de futebol, depende dessa "defesa" de sua honra, dessa manutenção de sua "pureza", uma vez que homossexualidade é defeito de caráter, vergonha, nojeira. Defender-se da acusão de ser gay e, ao mesmo tempo, lançá-la sobre o outro e torná-lo fraco, ridículo, humilhado é a lógica dos discursos dos rivais, e talvez isso explique porque "o bambi" é sempre o outro.

Na nossa cultura, é difícil provar o teor nocivo de uma piada preconceitosa. Nossa maneira de lidar com o riso, com o esculacho, nossa postura acrítica aos discursos "politicamente incorretos" tornam complicada a tarefa. Não raro as mesmas pessoas que reproduzem piadas homofóbicas são aquelas que, diante de agressões físicas contra LGBTs, percebem ali o limite: bater não, tirar sarro sim. Então é preciso entender que, diante de racionalidades e falas em disputa por legitimidade política, é esperado que algumas contradições se apresentem - dentro de certos grupos, de sociedades, de pessoas. Talvez seja o caso de Emerson sheik, que usa a expressão "bambi" pra provocar os são-paulinos e depois posta uma foto dando selinho num amigo e dizendo não se importar com as piadas preconceituosas (que ele sabia que viriam). Isso não diminui seu gesto, apenas torna mais tortuoso o quadro geral dos acontecimentos. Não nos deixa esquecer que assim como "o gay" é sempre o outro, "o homofóbico" também o é; que ninguém está livre de expressar esse tipo de raciocínio negativo quanto à sexualidade, por melhores que sejam minhas intenções.

Reconhecer em si o preconceito, admitir e trazê-lo à tona, tentar desmontar seus mecanismos... nada disso é fácil. É preciso, no mínimo, um ambiente que apresente argumentos, interpretações, possibilidades diferentes das tradicionais, das "normais". E, nesse sentido, o beijo do Sheik, sendo tão único no contexto do nosso futebol, vale muito mais do que suas provocações homofóbicas, que se juntam aos milhões de piadas homofóbicas repetidas e cristalizadas por aí. Todo gesto positivo é bem-vindo.

Domingo na Marcha – uma reflexão do coletivo passa palavra sobre o Fora do Eixo ou, de boas intenções o inferno está cheio…

Para quem está a fim de ficar por dentro do debate sobre o Fora do Eixo, e tiver tempo e paciência para ler cinco artigos densos, vale a pena acompanhar essa série em cinco partes (parte 1, parte 2, parte 3, parte 4 e parte 5) do coletivo passa palavra, de 2011. Os textos são uma resposta bastante séria, com um nível intelectual altíssimo e radicalidade de pensamento de esquerda muito bem vindos, a um ARTIGO bastante fraco da Ivana Bentes em defesa do Fora do Eixo. Um artigo que pode-se dizer que representa o pior daquele pós estruturalismo que, revestido de defesa do novo, na verdade é uma roupagem descolada e cool para a boa e velha manutenção de privilégios.

De quebra, o texto tem uma análise curta do Tropicalismo que é a melhor que eu já vi sendo feita pela esquerda, rompendo com os esquematismos fáceis. Algo assim: o projeto liberal ou libertário do Tropicalismo na época era uma verdadeira alternativa a esquerda, considerando que direita e esquerda coincidiam em diversos aspectos, com seu teor nacionalista, autoritário e ideólogo da modernização. Como tal, foi rejeitado por ambos e não se realizou politicamente, embora fraturasse irremediavelmente a cultura nacional. Passado quarenta anos, a esquerda não mudou (ou pior, aquela esquerda de lá é o Estado de hoje), e o capitalismo passa a se realizar a partir do gerenciamento de agendas libertárias - o imperativo do gozo. Ou seja, o grande nó ideológico do nosso tempo: que o capitalismo realiza-se ali mesmo onde seria o espaço de sua contestação, sendo que a esquerda se converteu em espaço de cooptação e a crítica progressista é o modo mesmo como o capital se realiza. Ou seja, é por ser um novo modelo libertário contestador que põe em cheque práticas regressivas que o Tropicalismo se realiza a direita (posto que a esquerda entra em cena como organismo de cooptação burocrática). É por ser crítico e avançado, e não por ser alienado ou conservador, que realiza mas perfeitamente o desenvolvimento do capitalismo, que adora uma boa inovação crítica. Um belo exemplo de como a verdade é o lugar próprio da ideologia. [As consequências dessa visão são perturbadoras, pois se é a radicalidade que realiza o capitalismo, como fica a questão do valor, uma vez que o mais crítico pode ser o mais reacionário e vice versa?]

Depois desse começo fantástico, os artigos são uma verdadeira aula de como se fazer crítica radical contundente, sem apelar para esquematismos ligeiros e sem fugir das contradições. A questão vai ser como o capitalismo passa a funcionar na pós-modernidade a partir de um modelo de cooptação de suas críticas, que se transformam em novos modelos de comportamento e padrões culturais. Como a contracultura se converte em seu contrário, na medida mesma em que traz avanços para a luta em relação a métodos engessados e aparelhamentos da esquerda. É nessa chave que é lido o FdE, a partir de uma análise cuidadosa da transformação do modo de articulação da indústria cultural (entra aqui até uma análise do mercado do tecnobrega), que funciona a partir do princípio de flexibilização e gerencialmente de mercados descentralizados, modelos agora menos lucrativos. Uma forma de concentrar saber e poder e, sob a desculpa de produzir novos modos de “viver” e “fazer”, criar nichos de mercado, dominar técnicas de acesso a recursos públicos que pretende se legitimar socialmente usando as Marchas da Liberdade como meio. Além disso, o artigo mostra como essa novidade do FdE se articula com o projeto de precarização da cultura no governo Lula, sob o ministério de Gilberto Gil.

Essa série de artigos é fantástica porque oferecem uma resposta consistente para aqueles que acusam a esquerda de preservar velhos dogmas. Aqui fica mais do que claro e evidente que não se trata de negar a radicalidade do novo, e sim reconhecer o problema fundamental da sociedade pós fordismo, pois que é nessa radicalidade que o capitalismo melhor se realiza. Hoje, mais do que nunca, é como se o inferno fosse povoado apenas de boas intenções, a tal ponto que, desprovido de função, o paraíso deixasse de existir. Ou seja, não se trata de negar que esses novos modelos não operam transformações importantes que podem ser lugares desicivos de contestação. Mas compreender que o capitalismo atual não funciona a partir da negação do princípio do prazer, mas antes ressignificando o gozo a partir de seus parâmetros, transformando os 0,30 centavos em espasmos de gigante adormecido.
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Algumas notas sobre a canção (Tropicália, MPB, Roberto Carlos, Funk)

Para marcar na agenda: é preciso deslocar a leitura hegemônica da história da canção brasileira, que busca qualificar seu momento "heroico" a partir da oposição entre MPB e Tropicália, cabendo ao público qualificado escolher com qual dos dois lados se identifica, o da “crítica reformista” tropicalista ou o do “engajamento elitista” da mpb. A história é entendida a partir de pares de oposição: a Bossa Nova cria a forma que é ampliada em todos os níveis pela MPB e, na sequência, rompida pela crítica tropicalista, que desvela seus limites. Pode-se compreender a ruptura tropicalista como avanço ou retrocesso. Em todo caso, nesse momento houve uma fissura, e o festival da canção aparece como polo de interesses políticos irreconciliáveis.

Contudo devemos instaurar um terceiro elemento nesse par de oposição, aquele elemento ausente da narrativa hegemônica, cuja presença invisível (sua rasura) determina o sentido desta, estruturando-a. Trata-se, evidentemente, do fator Roberto Carlos. Esse é o "verdadeiro" elemento de oposição da polêmica, em torno do qual os outros dois fatores entram em disputa por hegemonia (de uma perspectiva mais macro, o grande elemento ausente não é a disputa política - alto modernismo MPB ou pós modernidade tropicalista - mas a disputa pelo mercado, que não era apenas uma reivindicação Tropicalista). A história, contada a partir dessa irrupção carlista, apresenta outro esquema. A ampliação do fator Bossa Nova promovida pela MPB - que a coloca como o gênero mais vendável da época - é interrompida pelo surgimento de Roberto Carlos como elemento alienígena (produzido pelo mercado), abrindo o campo para uma disputa por hegemonia. A Tropicália, assim, não é oposta ao padrão MPB, mas é a forma mesma que a MPB precisou necessariamente assumir para continuar sendo o gênero hegemônico no sistema, expulsando o paradigma proposto por Roberto Carlos do campo. Dois pólos de um mesmo modelo que se transformam para permanecer no topo.

A relação entre MPB e Tropicália é, sobretudo, de continuidade. Uma disputa entre pares, por assim dizer. Tanto que, após esse momento heroico de confronto (que evidentemente tem uma dimensão política, atravessada, contudo, pelo mercado, como aliás enfatizava o tempo todo o próprio tropicalismo), fazer música com guitarra elétrica passa a ser um privilégio da MPB que, desse modo, torna-se a música pop (desdobramento do padrão rock) por excelência do Brasil, até os anos 80, quando o paradigma da formação nacional começa a ruir. Roberto Carlos é expulso do campo e, imediatamente 'envelhece', passando a trabalhar com materiais marginalizados como serestas, boleros, gêneros de matriz latino-americana, etc... Ou seja, sua passagem para esse campo romântico\brega não se deve apenas a um desejo mercenário do rei para aumentar suas vendas, e sim ao fato de ter perdido a disputa pelo gênero pop para a MPB (durante um tempo, entre 68 e 71, Roberto até tentou integrar-se ao campo aberto pela Tropicália - é quando produz seus melhores discos - mas aí seria para sempre um sócio menor, e não o rei). Diga-se de passagem, ele revolucionou os padrões da música romântica brasileira, introduzindo alguns aspectos propostos pela... Bossa Nova (mais Tom Jobim do que João Gilberto).
Tanto a MPB quanto a Tropicália podem ser compreendidas como participantes ativos de um mesmo processo geral de fundamentação da música pop Brasileira a partir do paradigma da Bossa Nova. Sua oposição não é absoluta, tratando-se antes das tensões decorrentes dos mecanismos de adaptação na disputa por hegemonia, um esquema de adaptação ao mercado fonográfico (em seu interior, contra e a favor), para não ficar pra trás. A disputa foi, efetivamente, vencida, mas a fratura retorna, por assim dizer, pela porta dos fundos: o enigma da majestade do rei - e de tudo aquilo que, com ele, foi marginalizado e, incorporado pelo mercado enquanto tal - é uma das questões mais espinhosas da canção brasileira.
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Voltando a distinção polêmica, nos termos colocados pela Ópera dos Vivos, da Cia do Latão. Construção, do Chico Buarque, para alguns o momento de seu amadurecimento, é seu disco mais Tropicalista (não é a toa que o arranjo da canção Construção é de Duprat, e segue o mesmo esquema dialógico dos arranjos tropicalistas). Significa que ele consegue romper com o conservadorismo tropicalista com as armas do inimigo, ou que ele se vendeu, mas depois entra nos eixos? Tom Zé, aquele do comercial da coca cola, é tropicalista. Quer dizer que o Tom Zé é mais conservador do que parece, ou que a Tropicália é mais a esquerda do que se assume? Os mutantes também são tropicalistas. Em que sentido o som que eles fazem pode ser classificado como uma regressão ao mais mercadológico e comercial da canção? Clube da esquina e Novos Baianos só existem via tropicalismo, ou não? E se desautomatizassemos esses pares de oposição, não seriam mais produtivas as leituras? Ou estaríamos sendo por demais tropicalistas (uma reedição no campo da canção do que no plano intelectual aparece como negativismo marxista versus positivismo pós moderno, enquanto Zizek, Jameson, Stuart Hall, Ramond Willians, Spivak, Judith Butler tão dando risada na nossa cara...)

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Se o funk carioca é um gênero que, ao que me parece, consegue dizer mais sobre aquilo que o país se tornou do que o excelente último disco do Chico Buarque, ou a ainda melhor trilogia Cê do Caetano ou o excepcional disco de estreia do Metá Metá. E se, além disso, o gênero causa mais incômodo aos setores conservadores da sociedade (MC Daleste foi morto por sua música, assim como John Lenon e Fela Kuti, e aos que afirmam que ele foi morto pelo posicionamento 'político' e não pelo potencial estético, a rigor, regressivo, pode-se argumentar que uma das complexidades do funk - e do rap, com as correspondentes diferenças de grau - é justamente a promiscuidade entre as dimensões ética, estética e política), gerando um quiproquó valorativo em que esquerda e direita concordam que a Bossa Nova é foda (e é mesmo) e esquerda e direita concordam que o funk é esteticamente 'pobre', ou mal estruturado (em certo sentido é quase uma ilustração didática do caráter regressivo da canção de massa adorniana, em termos de organização dos materiais. E é mesmo). E se ambos os juízos estão, em seus limites, corretos - não se trata de falar que o funk carioca é avançado esteticamente, negando suas limitações - pode ser que o que tenha mudado fundamentalmente seja a própria possibilidade de atribuir valor a partir da relação entre qualidade estética e posicionamento crítico (o fundamento da crítica imanente?). O que não é o mesmo que dizer que de nada serve mais atribuir valor (o mercado sempre atribui valor) mas, antes, que a própria noção do que seja valoração pode ter mudado radicalmente (é claro que isso não é novidade, mas é claro também que a tradição crítica brasileira está devendo em termos de crítica séria da cultura de massas - a mais rasteira - para além dos diagnósticos já conhecidos). Ao menos, essa relação entre forma avançada e crítica radical já não está dada de antemão, sobretudo quando o capital nivela tudo, reproduzindo-se tanto pela crítica mais radical quanto pelas formas mais conservadoras. Nem sempre a qualidade estética é progressista ou menos insignificante por ser foda (mas isso nós sabemos, não é, embora ainda se trate problemas formais em termos de insuficiência de radicalidade) e (aqui é mais complicado de aceitar) nem sempre o que é progressista é o que se precisa no momento para fazer a sociedade avançar em termos progressistas (ainda que as definições precisas sejam, mais do que nunca, necessárias. Afinal, o gigante acordou).

A gata do Laerte

Qnd é que a genialidade migrou pros quadrinhos, a ponto do cartoon ser hoje um dos tipos de arte mais avançadas do país? Um série de tiras de cortar o coração do Laerte, tratando um tema difícil com uma sensibilidade incrível. Gênio!

Publicado originalmente em TRABALHO SUJO.


O Senhor dos ané(a)is


 
Esqueça Grande Sertão: veredas. A grande saga homoerótica da literatura do século XX é O senhor dos an(a)éis. Nunca queimar o anel foi tão celebrado e tratado como um feito tão heroico (Brokeback Mountain passou muito longe disso), capaz de salvar toda humanidade, apesar de seu alto custo em termos pessoais. Um dos trunfos do filme é alegorizar o superego castrador do Hobbit em uma figura repulsiva marcada pela dualidade: a função de Smeagol é evitar a todo custo que Frodo queime seu anel com Sam. Para isso, procura o tempo todo causar discórdia entre o casal. Seu grande trunfo, inclusive, não poderia ser mais explícito: o gesto mais radical de Smeagol pra evitar que o senhor Frodo enfim queime o anel é atirá-lo diretamente para uma ARANHA enorme, cabeluda. Mas o amor vence, e o guerreiro Sam salva a mocinha mais uma vez.

Quando enfim, consumado o ato, e tudo volta à normalidade, Sam arruma um casamento qualquer pra obedecer as convenções homofóbicas da época (é interessante que do quarteto de Hobbits, só ele precise se casar). Frodo imediatamente cai em depressão profunda, até que decide morrer. É o fim da Sociedade do Anel.
 
O texto-piada acima rendeu uma discussão breve no facebook. Uma das críticas, feita pelo amigo de um amigo, é a de que era uma análise vulgar. Segue então a resposta que escrevi.
Primeiro que eu concordo com seu amigo, se por vulgar ele estiver entendendo uma análise rasa, empobrecida. De fato, eu acho que esse misto de 'análise' com piada não se sustenta enquanto proposta analítica do filme, por ser muito redutora. É muito pobre e, nesse sentido, vulgar. E menos ainda com relação ao Grande Sertão, muito superior, mas aí o rebaixamento foi pura provocação (mas... penso também que uma análise séria de gênero do Grande Sertão, que considere o feminino ou a pulsão homoerótica evidente ali como um elemento disruptor de padrões discursivos hegemônicos, pode apresentar conclusões interessantes).
Agora se por vulgar ele estiver recolocando em pauta essa divisão que vc apontou, entre vulgar e não vulgar, aí eu concordo integralmente com vc: para pensar a cultura de massa, é preciso descondicionar o discurso saindo de qualquer variação do dualismo alto x baixo com o qual o discurso hegemônico procura enquadrar o popular (bom x mal gosto; vulgar x elevado; atrasado x progressista). Engraçado que eu tava lendo justamente sobre isso hoje, o como a reencenação desse dualismo é o modo de contenção do poder disruptor do popular, capturado em categorias de gosto, valor, cânone.
Enfim, se vulgar se refere ao alcance analítico da leitura, eu concordo com seu amigo. Agora se está se referindo a um critério metodológico, aí eu concordo com você.
Agora, duas outras coisas. Por mais que seja mais piada que análise, eu acho que capta algo do movimento geral do filme, que é interessante. De fato, é como se o filme tivesse uma dupla ambientação: a parte masculina, ativa, das guerras, e a saga homoerótica dos hobbits. No livro do Tolkien, isso tem a ver com certa valorização da burguesia inglesa, os heróis da nova era. Já no filme, penso ter a ver com uma fragilização do macho presente na ideologia dominante em hollywood, presente em incontáveis níveis, e que marca a passagem a partir dos anos 90 para a forma cínica contemporânea.
O outro ponto que é interessante é um lance bem pós estruturalista, porque tem a ver com tradução. Eu não faço ideia se termos como 'queimar o anel' e 'aranha cabeluda', que são "conceitos" chaves da minha 'interpretação', em inglês tem a mesma conotação sexual! Se não, é como se fossem pontos da sacanagem que só poderiam estar visíveis para quem não compartilha da linguagem de quem produziu a história. Ou seja, só faz sentido no ponto cego da linguagem, mas não deixa de ser 'verdadeira' porque o filme, de fato, tem algo de gay. Derrida adoraria isso...
Abraços mano! Compartilha com o seu brother.

PASTOR QUE FAZIA CURA GAY É PRESO POR ABUSO SEXUAL DE DOIS HOMENS.

Tem uma piada dos trapalhões que é a seguinte: Didi é um dentista, e na frente do consultório tem uma placa grande, onde pode se ler algo do tipo: TRATAMENTO: COM DOR 1000 cruzeiros. SEM DOR 5 cruzeiros. Então o Dedé chega todo animado e pede pra fazer um tratamento sem dor, logicamente. Daí que o Didi chega com uma broca do tamanho de um trem e com um boticão de tirar dente de elefante e parte pra cima do Dedé a seco, sem nenhuma anestesia. Dedé começa a berrar, desesperado. Então o Didi solta, fenomenal: _ Não grita que com dor é mais caro!

Pois algo dessa inversão que se torna ainda mais perversa (e violenta) por ser profundamente cômica está presente também nesse outro caso de cura gay. Da até pra imaginar uma resposta cínica do pastor: _“Mas como é que eu vou saber o quanto de gay o paciente já desenvolveu se não fizer os testes necessários”? A inversão cínica, que tem a estrutura de uma piada, é a base em que se realiza a perversidade, ainda mais cruel por ser uma grande piada de mal gosto, como percebe o Comediante do Watchmen, ou o Coringa de Piada Mortal. Não se trata de dizer, de modo conservador, que o pastor ataca gays porque é um homossexual enrustido - como se o problema da discriminação fosse resolvido quando os sujeitos enfim reconhecessem a integralidade do gênero ao qual pertencem - mas atentar para o quanto que qualquer construção de gênero possui um fratura interior determinante que precisa ocultar-se representando essa insuficiência como imagem de um Outro que em sua fantasmagoria confirma a integridade do EU. Ou seja, é justamente porque as identidades são fundamentalmente fantasias, ou ausências estruturantes, que elas são 'positivadas' por meio de estruturas sociais, ideológicas, políticas, institucionais, etc. A discriminação participa e dá forma a esse processo para benefícios de pastores que confirmam a superioridade social de sua posição hétero no momento mesmo em que abusam sexualmente de outros homens, mulheres ou crianças.


PASTOR QUE FAZIA CURA GAY É PRESO POR ABUSO SEXUAL DE DOIS HOMENS.


MINESSOTA, EUA — Um pastor de Minessota foi preso na última quinta-feira acusado de abusar sexualmente de dois homens durante sessões de “aconselhamento para se libertar de tendências homossexuais” em uma organização cristã anti-gay. De acordo com o jornal local “Kare 11”, o reverendo Ryan J. Muehlhauser - casado e pai de dois filhos - responde a oito acusações criminais por abuso sexual de rapazes que passavam pela “terapia” indicada pelo pastor. Ele pode pegar até dez anos de prisão por cada um dos crimes.
Os abusos teriam ocorrido em datas diferentes: de outubro de 2010 a outubro de 2012, e entre março e novembro deste ano. Uma das vítimas disse a polícia que continuou as sessões mesmo depois do abuso porque acreditava se tratar de um aconselhamento espiritual. Além de ser consultor na organização cristã anti-gay Outpost, Muehlhauser atuou como pastor na Igreja Cristã Lakeside, em Minnesota, por 22 anos.
Em seu site, a organização negou que o pastor fizesse parte da equipe de “cura”. Após o incidente, a Outpost passou a se definir como uma organização que “ajuda as pessoas feridas emocionalmente e sexualmente a encontrarem a cura e restauração por meio da relação com Jesus Cristo.”
“A Outpost está profundamente triste com as alegações sobre Ryan Muehlhauser. Somos fundamentalmente contra o abuso sexual e existimos, em parte, para ministrar aos que sofreram essa violência. Ryan não é e nunca foi um membro de nossa equipe, e nem era um pastor que recomendávamos. Os dois jovens que sofreram esta atrocidade continuam conosco e queremos ajudá-los da maneira que formos capazes. Nossa tristeza e as nossas orações vão para todos os que foram sexualmente violados.”

Leia mais sobre esse assunto no Globo 

Vovô Chico dando aula de preliminares pros funkeiros

Naquele que é o mais explicitamente sexualizado gênero musical contemporâneo no Brasil, o funk carioca, o sexo é tratado como em um filme pornô, ou em uma aula de aeróbica, mal conseguindo ocultar sua profunda fragilidade e a ausência assombrosa daquilo que afirma possuir - seu didático reino de pirocas, xotas e cus pretende a todo custo evitar o confronto com o real da inexistência monstruosa da relação sexual (pra seguirmos Lacan). A pornografia é uma tragédia para a psique masculina, ainda que a sexualização agressiva da matéria social seja talvez o que de mais relevante o funk tem a nos dizer sobre a sociedade contemporânea. A linguagem do funk é a forma por excelência da sociedade atual.

Diante disso, o que o vovô Chico pode nos ensinar? Se você pretende que uma mulher te ame com o corpo (que é muito mais profundo e eterno que o amor da alma) é preciso perder-se nas preliminares, até que se torne o lugar do gozo. Essa é talvez a mais bela canção sobre as preliminares da MPB (e não são poucas). Aqui o velho Francisco consegui bater o Wando e se equiparar a Roberto Carlos, o que não é pouca coisa. Perto dessa sabedoria cunilingual, o didatismo agressivo e condicionador dos funkeiros fica parecendo o sexo desesperado de um bando de moleques com ejaculação precoce. O que é uma pena, pois o potencial estético do gênero é tão grande quanto o do rap, só lhe faltando talvez um pouco mais de tencionamento ideológico.

domingo, 30 de junho de 2013

Tarantino’s Collection

Depois de uma trilha sonora pra arrebentar com os corações dilacerados, segue essa outra feita pra sair explodindo coisas por aí, brigar com os nazis nas manifetações, mandar o Galvão Bueno se foder, encher o rabo de cerveja, rir na cara de quem grita sem vandalismo, tretar sem motivo, curtir música pop como se o mundo fosse acabar, dar um baile na seleção padrão FIFA no final da Copa e ao mesmo tempo mandar a Copa pro inferno, trepar sem responsabilidade, ler pornopopeia, pegar aquele imbecil que é gato pra caralho, e depois trocar ele por um belo pedaço de pizza.

Uma seleção musical pedrada compilada das trilhas sonoras dos filmes do Tarantino, e acrescidas de alguns toques pessoais dessa mão de veludo que vos escreve, tentando aí uma parceria com o maluco – vai que cola! Uma trilha dançante repleta de (in)sucessos pop lado B de diversos partes do mundo. O único critério é botar pra rebolar, bater, escarrar. Pegar com tesão, virar do avesso. Deitar o cabelo.
Recomendado para ouvir bem perto do seu chefe. De preferência, munido de um taco de beisebol.
1. My baby shot me down (Nancy Sinatra)
2. After Dark (Tito & Tarantula)
3. Surfin Bird (The Trashman)
4. Comanche (The Revels)
5. Out of limits (The Marketts)
6. James Bond Theme (The Skatalites)
7. The good, the bad, the ugly (Hugo Montenegro)
8. Ainda é cedo (Nelson Gonçalves)
9. Cancion de Mariachi (Los Lobos & Antonio Bandeiras)
10. No me corra cantinero (Vitico Castillo)
11. Ironside [Exerpt] (Quincy Jones)
12. Fever (Elvis Presley)
13. Son of a preacher man (Dusty Springifield)
14. You never can tell (Chuck Berry)
15. Stuck in the middle with you (Stealers Whell)
16. Coconut (Harry Nilsson)
17. The green hornet (Al Hirt)
18. Bori (Boban Marcovich Orkestar)
19. Belleville Rendez-Vous [Version Française] (Ben Charest)
20. Chiken in the corn (Brushy One String)
21. Ezequiel 25:17 (Jesus)
22. Girl, you’ll be a woman son (Urge Overkill)
23. Glory Box (Portshead)
24. Bullwinkle part II (The Centurians)
25. Chick Habit (April March)
26. Cloud Nine (The Temptations)
27. War (What’s is a good for?) (Edwin Starr)
28. I bet you look good on the dancefloor (Baby Charles)
29. Urami Bushi (Meiko Kaji)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

22 Canções lindas de morrer

Uma postagem pra afastar quizila, chutar olho gordo, tirar zica. Cantar o amor fracassado. Berrar até que os gritos se tornem preces.
Expelir. Botar pra fora. Gozar.
Uma playlist para quem abriu mão de tentar compreender o amor, para deixar ele, enfim, tornar-se (em) canto. Divino ou demoníaco, pouco importa. Um homem com uma dor, é muito mais elegante.
Dedico então a esse grande vazio que é o amor. Porque ele dói.
1) DETALHES (Roberto Carlos \ Erasmo Carlos). Começar com uma canção do Roberto Carlos uma playlist de canções lindas é clichê? Claro, ainda mais com Detalhes. Detalhes está para as canções de amor assim como Drummond está para poesia, a bandeira nacional para o Brasil, Pelé para o futebol. Bem mais do que clichê, Detalhes representa o que entendemos por “lindo de morrer”. Seu símbolo mais bem acabado. Gostou?
2) ONDE A DOR NÃO TEM RAZÃO (Paulinho da Viola \ Elton Medeiros). Sabe aquele nível de sabedoria (guru \ pai de santo \ mestre de Kung Fu  \ Gandhi) que você luta a vida inteira para alcançar, sabendo de antemão do seu fracasso? Pois é: Paulinho da Viola e Elton Medeiros, senhoras e senhores.
3) ÚLTIMO DESEJO (Noel Rosa) Intérprete: Aracy de Almeida. Uma das mais belas composições do poeta da Vila, em uma das poucas gravações que conserva o pulso original do samba. Com isso, mantem-se a ironia final da letra na própria forma. Grande Aracy, que entendeu tudo. Malandro que é malandro apanha sem perder o rebolado, e dá sempre um jeito de ficar por cima da carne seca.
4) ORAÇÃO AO TEMPO (Caetano Veloso). Ok, todo mundo sabe que o místico da turma é o Gil, mas como o Caetano não gosta de deixar por menos, resolver caprichar nessa prece abstrata\concreta para o próprio tempo. Aqui o artista encontra-se com sua matéria prima, o tempo, ao lidar com sua essência, o ritmo.
5) COISA MAIS LINDA (Vinicius de Morais \ Carlos Lyra) Intérprete: João Gilberto. Algumas canções são como jóias. Tudo aqui é perfeito, na exata medida, conduzido pelo mais perfeccionista dos nossos intérpretes e tendo a sua inteira disposição, o maestro soberano Tom Jobim, que procura dar forma ao projeto utópico de João - suspendendo todas as misérias do mundo. Melodia, letra, harmonia, a moça, tudo aqui é um só, mais bonito que o próprio amor.
6) SAN VICENTE (Milton Nascimento \ Fernando Brant). As vezes, fico com a impressão que os anjos existem, e que são melodias.
7) FALA (João Ricardo \ Luli) Intérprete: Ney Matogrosso. Se Milton é um anjo, Ney Matogrosso é… Diadorin. Essa canção quer ser silêncio, que ceder a voz para o Outro, num gesto de amor altruísta. Mas seguindo a ironia da época (talvez o que havia de mais saudável), o gesto é marcado pelo fracasso: a voz do Ney (encontro perfeito do masculino no feminino) é a marca do silêncio do outro, ficando mais pronunciado a cada interpelação. sendo preenchido por pianos, sintetizadores, cordas. Fala nenhuma.
8) MANIA DE VOCê  (Rita Lee \ Roberto de Carvalho). Pelos da nuca eriçados. Sussurro feminino ao pé do ouvido. Irresistivelmente sexy, Marvin Gaye com certeza aprovaria e provaria dessa delícia. Wando também. Titia Rita absolutamente deliciosa, mostrando pra molecada qual é o verdadeiro sentido da palavra tesão. 
9) O MEU AMOR (Chico Buarque). Como é que Chico faz para acertar tanto a mão ao compor personagens femininos? O segredo é simples: nunca abandonando a perspectiva masculina. Nunca. No caso dessa canção, tudo o que gostaríamos de fazer uma mulher sentir (e provavelmente faríamos, se não sentíssemos tanto medo). “Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma\ Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo \ Porque os corpos se entendem, mas as almas não”.
As almas são incomunicáveis.
10) ISSO NÃO VAI FICAR ASSIM (Itamar Assumpção). O amor contemporâneo, em São Paulo. Existe amor em SP? Sim, mas como promessa de vingança, como o fim de tudo, ou o início. Faz algum sentido? Sei-lá. Beije-me!
11) APENAS MAIS UMA DE AMOR (Lulu Santos). Lulu é o maior criador de hits dos anos 80 – nos 90 o cetro passou para as mãos de Nando Reis. Maior que Paralamas, Titãs, Renato Russo e Cazuza (não sei do Roupa Nova). Nessa época tudo o que ele tocava virava ouro, no sentido comercial da coisa. Aqui, ele vai além da fórmula de sucesso mergulhando nela de cabeça – afinal, o amor platônico adolescente tem mesmo a forma do clichê romântico pop. Uma das mais belas baladas românticas dos anos 80, tão linda quanto aquelas do Peninha – que poderia estar na lista.
12) PAIXÃO E FÉ (Tavinho Moura \ Fernando Brant). Intérprete: Milton Nascimento. Um dos mais sublimes (esse é o termo exato) arranjos da MPB, feito para sentirmos todo o peso da espiritualidade mineira em seu esplendor. Definitivamente, Milton é um anjo. Um anjo barroco, triste e mineiro.
13) O BEM DO MAR (Dorival Caymmi). Porque não há nada mais moderno que o encontro com as profundezas. O bem da terra suporta a dor, a esperança frágil do regresso. Dor, loucura, ausência. O pescador ama mesmo é o mar, e o mar é a morte. Na mitologia de Dorival Caymmi, as canções viram outra coisa, para além delas mesmas. O sagrado.
14) PRIMAVERA (Cassiano) Intérprete: Tim Maia. Saímos do campo do sublime para reencontrarmos o desejo em sua dimensão mais pura. Nada acontece nessa canção, nada para além do desejo.Tudo aqui, desde já, é. Puro querer. Conjunção plena de todos os elementos, do sujeito com seu amor que é a rosa, o céu, as vozes do coral, a própria primavera. 
15) NÃO APRENDI DIZER ADEUS (Joel Marques). Intérprete: Leandro e Leonardo. Porque nada é capaz de representar o fim do amor. O fim de um grande amor é a própria interrupção da possibilidade de compreender. Compreensão com o corpo, porque amor se vive. Só o silêncio pode então falar por mim, porque o silêncio é já um outro. Eu só posso\tenho que aceitar, condenado que estou ao mistério. Deixar de amar é um ato de fé.
16) TIVE SIM (Cartola). Escolher um samba lindo do Cartola é como escolher uma música do Sonic Youth que tenha distorção. O velhinho é, antes de tudo, um sábio, o próprio preto velho. Fiquemos então com a resposta que nunca gostaríamos de ouvir – fica a dica então para não perguntar. Uma baita lição de moral. O amor: essa eterna ausência do grande Amor. Independentemente de quem seja o objeto temporário de nossos afetos, este será sempre o lugar da falta.
17) NOVENA (Geraldo Azevedo). De volta a uma dimensão mais etérea, com tom de crítica, como é comum ao pessoal do Udigrudi. O clima que Geraldo Azevedo consegue tirar da relação entre violão e melodia, criando uma camada sonora densa e cheia de reverberações, impressiona. Com o Bicho de sete cabeças ele repete o feito, conciliando virtuosismo com climatizações densas. Violeiro bom é isso aí.
18) CANTEIROS (Fagner \ Cecília Meireles). Da mesma leva de compositores que Geraldo Azevedo, Fagner consegue extrair o sentido mais cortante dos versos de Cecília Meireles (diga-se de passagem, toda poética do Fagner consiste em buscar o mais ‘cortante’ nas canções). Nem aquilo a que me entrego já me dá contentamento, pois o eu cindiu-se sem sua contraparte, objeto de seu amor. Sendo assim, o fim do amor é como viver uma vida que é alheia, ainda que a única possível. Nenhum desejo pode ser satisfeito. pois quem deseja já não sou eu. A dor é tanta que ao final da canção a melodia se interrompe e torna-se em discurso ruinado continuamente até virar mero balbucio. Desde o início Fagner mostra competência para falar do amor e de seu conteúdo privilegiado, a falta.  
19) EVIDÊNCIAS (José Augusto \ Paulo César Valle). De volta ao sertanejo e ao jogo do desejo. O amante que não se resolve – o medo é um grande tema tanto do Sertanejo quanto do Pagode – remoendo-se em dúvida eterna que caminha por pares de oposição. O jogo de ocultamento do desejo do outro, a alteridade inapreensível, é a própria matéria da canção, que termina com uma súplica que mal consegue esconder o pavor: me diga qualquer coisa, pelo amor de deus, que ofereça uma mínima garantia de clareza, por mais mentirosa que seja.  A fragilidade do amante impressiona, sobretudo porque o clima de indecisão permanece inclusive no momento clássico de resolução da tensão: a canção apresenta dois refrões. Toda canção gira em torno da opacidade do outro, do pavor gerado por essa opacidade do desejo.
20) A FLOR E O ESPINHO (Nelson Cavaquinho \ Guilherme de Britto). Intérprete: Eliseth Cardoso. O sambista mais duro que já existiu, maravilhosamente interpretado pela musa Eliseth Cardoso. Talvez os mais emblemáticos versos sobre o fim do amor: “Tire seu sorriso do caminho \ que eu quero passar com a minha dor.” Quase um rap. Só Nelson Cavaquinho e Lupcínio Rodrigues atingiram esse grau de contundência, trazendo para o samba o lado mais sombrio que muitas vezes não queremos ver. Morte, Vingança, Ódio, conteúdos privilegiados do amor.
21) NO RANCHO FUNDO (ARY BARROSO \ LAMARTINE BABO). Intérprete: Chitãozinho e Xororó.  Pra terminar, um pouco de saudade, essa forma de possuir a própria ausência. Composta por dois monstros da música brasileira, e adaptada brilhantemente à sensibilidade moderna por Chitãozinho e Xororó.
O amor é a gente mesmo, demais.
O instante. Demais.
Infinito
22) PINTURA SEM ARTE (Candeia). Sabe qual a melhor parte do fim de um grande amor -  essa forma de deixar de ser? É quando ele vira um samba, em tom maior. Salve mestre Candeia.