domingo, 3 de agosto de 2008

LONDON CALLING (1979) e o movimento punk.



Nas inúmeras listas para eleger o melhor álbum de rock de todos os tempos, algumas figurinhas tarimbadas sempre dão as caras. Brigando pelos primeiros lugares sempre encontramos o Pet Sounds de 1966, dos Beach Boys - na verdade, de Brian Wilson – algum dos Beatles, o White Album de 68 ou o Sargent Peper’s de 67, e essa pérola do The Clash, London Calling de 1979.
Concordando-se ou não com tais juízos, sempre parciais e algo radical de “o mellhor”, ou “o mais influente”, ao menos é possível entender as razões pelas quais esses álbuns figurem nessas listas em tão alta cotação. O que Brian Wilson fez para o universo do rock equivale ao que Curtis Mayfield e Marvin Gaye fizeram (aliás, não à toa, em épocas bastante próximas) para a música negra com Superfly (1972) e What´s going on (1971), respectivamente. Cada canção é tratada como uma unidade complexa no interior de outra maior, com arranjos belíssimos e pequenas orquestras, em diálogos ricos e precisos com a nova forma pop e corais cuidadosamente elaborados, além de letras e harmonias mais sofisticadas, atingindo um resultado final de grande elaboração e requinte até então inédito nesse tipo de composição. Enfim, esse disco revelava ao mundo toda a beleza e sofisticação de que o rock era capaz, conferindo ao estilo o atestado de maturidade que muitos buscavam na época, tanto na forma quanto nas letras.
Quanto aos Beatles, eles simplesmente perceberam que a base simplificada do rock poderia atuar para o enriquecimento das canções ao invés de empobrecê-la, como costumava acontecer então, bastando para isso que essa base servisse como ponto de partida para aglutinar elementos heterogêneos no interior de uma nova forma original. Estava dado o salto qualitativo mas importante da música pop de todos os tempos, influenciando desde o Krautrock até nossa MPB.
Já o disco do Clash pertence a outro momento. Para começar, é um disco rebelde, mas não revolucionário como os mencionados anteriormente. Isso porque é feito com espírito punk, que é rebelde, mas não revolucionário. Basicamente, porque a revolução abre caminhos, enquanto que o punk os fecha. O grupo surge em meados dos anos 70 no interior desse movimento, após assistir a um show dos Sex Pistols e pensar, como muitos outros, que ali estava a música que iria salvar o mundo de sua auto destruição pela apatia. O punk surge em um período em que a cena rock estava entulhada de rock progressivo e metal sem criatividade. Solos intermináveis, mirabolantes e tediosas progressões harmônicas: naqueles dias para se fazer rock era preciso ter feito faculdade de música. O resultado é que o lado musical da coisa se desenvolvia sem atentar para o outro aspecto da relação, a atitude, responsável por dar vida à parte técnica.
O final dos anos 60 colocou em cena um dos momentos mais criativos da história da música pop em geral, levando-a a desdobramentos musicais até então impensáveis. E para que isso acontecesse, a atitude de seus protagonistas foi tão ou mais importante que sua técnica, bastando uma rápida passagem de olhos sobre a biografia dos gênios da época para se comprovar o fato. Todos se entregaram a alguma experiência radical, seja Beatles, Doors, Hendrix, Led Zeppelin. Mesmo o momento histórico estava carregado de radicalismos de toda sorte, protagonizados pelos diversos movimentos sociais de então. Mas o mais importante é que essa radicalidade vivida em diversos níveis era tornada música, catalizada e convertida criativamente para o formato canção. A lição das vanguardas do início do século era apreendida pelo novo gênero, e a revolta de tornava sobretudo uma questão estética.
Após esse surto mais “sincero”, como é natural, essas descobertas se cristalizaram em fórmulas que foram adquirindo certa rigidez, criando determinados gêneros (quando o barato da psicodelia era justamente quebrar todas as barreiras de gênero). As possibilidades musicais recém descobertas eram muitas, e o rock de então se concentrou nelas, abandonando a atitude que se traduzia musicalmente em criatividade. Contra esse estado de coisas algo inerte, é criado o punk em meados dos anos 70, trazendo de volta a atitude para primeiro plano. O rock saia da academia e era trazido de volta às ruas, para sua agitação e revolta. Entretanto, diferentemente do momento anterior, aqui a atitude (essa disposição para) não se traduzia em criatividade musical. Ao contrário, a atitude punk consistia em certa medida no abandono da criatividade, na separação de atitude e música. Quanto menos música, mais atitude. Como bem simbolizado pelo símbolo maior do movimento, os Sex Pistols, ser punk é gritar e tocar o mais alto e o pior possível, marcando uma postura mix de revolta e descaso para com tudo, incluindo com a própria música, sem se dirigir contra alvos determinados. Historicamente digamos que foi a forma como os adolescentes pós-hippies sentiram o impacto dos protestos da geração anterior, todos barrados definitivamente ou incorporados pelo próprio capital, quando não tornado-se um problema (como no caso das drogas, que deixa de ser visto como agente libertador para se tornar um dos principais vilões do sistema). Agora não é mais possível acreditar nas flores, no amor, na política. Só na própria revolta. Como tudo pode piorar sempre, hoje em dia nem isso, e os emos choram.

Em suma, o punk foi inventado para fazer os adolescentes urbanos gastarem sua energia sexual reprimida. Para isso, acelerou a música pop ao máximo (uma ouvida nos primeiros discos dos Ramones deixa bastante claro essa origem) e lançou palavras de ordem vazias e de muito efeito, como “Fuck the system”, separando assim a postura pessoal (atitudes e posicionamentos do sujeito perante a vida) de sua relação com a arte, engessando a ambas como simples produtos. O punk foi um movimento essencialmente de mercado (criado por um empresário que queria vender suas roupas) que ofertava rebeldia para um público adolescente, sendo musicalmente muito pobre, tão somente uma aceleração de musica pop dos primórdios do rock (as grandes bandas punk, que existem, devem sua qualidade exatamente aquilo que os faz escapar dos limites estreitos do gênero). Foi um grito, ou antes um peido, que teve uma existência tão curta quanto à de seus ícone, Sex Pistols. Nos dias de hoje foi substituída pela música eletrônica, que realiza melhor a função de dissipar energia acumulada, enquanto que seu aspecto de crítica social foi transferida de modo mais coerente para a periferia, com o hip hop.
O Clash percebeu o caráter auto-destrutivo de um movimento que só quer demolir as estruturas sem propor nada em seu lugar, sacando ao mesmo tempo que a anarquia é também uma construção (como nos ensina Alan Moore em V de Vingança, o quadrinho. O filme não é anarquista, mas se muito, democrático), e decidem constituir seu próprio universo a partir de seu terceiro cd, London Calling, voltando àquela antiga e produtiva concepção de que tal construção é estética antes de qualquer coisa.
Como o White Album dos Beatles, e nossa tropicália na mesma época, London Calling trata-se de um mapeamento, um balanço direcionado da história da música popular e uma delimitação de território. Ao invés da fórmula crua do punk, metais, pianos, corais e uma infinidade de estilos diferentes. Joe Strummer (vocais, guitarra rítmica), Mick Jones (vocais, guitarra), Paul Simonon (baixo e vocais), Keith Levene (guitarra guia) e Terry Chimes cresceram na periferia inglesa e tinha muito contato com a comunidade negra de lá. Por isso, sabiam muito bem que berrar Fuck the System! para os negros do gueto era quase o oposto de lançar o mesmo jargão para um político ou um figurão qualquer. Ao invés do anarquismo abstrato e sem direcionamento da geração rebeldes sem causa (Juventude Transviada – 1955 - de Nicholas Ray), o Clash se interessava por movimentos de libertação da América Latina e conclamavam os jovens brancos a apoiarem a luta armada dos negros do gueto (como na música “White Riot”). Por isso o disco é carregado de reggaes, rockabillies, ritmos latinos, disco, ska, além do bom e velho rock n’ roll. Mas o alerta dado pelo punk tem efeito na sonoridade da banda – o momento histórico não é mais o das flores lisérgicas e dos experimentos a la Beatles. Mudar a percepção do mundo já não basta para transforma-lo, apenas oferecendo novas formas de mercadoria. A leitura do Clash é mais sóbria, politizada. Há mistura e pirações, mas sempre mediada pela crueza punk a lembrar o verdadeiro lugar que todas aquelas formas ocupam no mundo, e que não são universais.
Trata-se ainda do mesmo princípio político dos movimentos de contracultura dos 60: ampliar os horizontes e abrir espaço para todos. Só que agora não se trata de celebrar uma união, mas de conclamar à luta para conquistar essa unidade à força. Mesmo o amor. Nesse sentido, a excelente capa do álbum é muito significativa. O mesmo layout de um disco clássico do Elvis, mas ao invés da imagem desse ícone do rock surge Simmons quebrando sua guitarra. Se o punk é essencialmente uma atitude, ela não precisa e não deve se restringir aos moldes de um gênero. Tem de ser uma forma de olhar para o mundo e recriá-lo. Não por acaso, o grupo apoiou diversos movimentos políticos. Com London Calling, o punk atingiu seu maior momento, justamente ao parar de gritar Fuck the System! ao léu e tentar compreender os movimentos de tal sistema.
A título de curiosidade, London Calling era um disco duplo lançado pelo preço de um álbum simples por exigência da banda, fato que obviamente não agradou em nada a gravadora. Para remediar o equívoco e sanar as desavenças com seus empregadores, o Clash foi lá e lançou Standinista! (Sandinismo, em inglês, o movimento comunista da Nicarágua), um disco triplo ainda mais heterogêneo que o anterior, e mais barato que um álbum duplo. Isso é atitude punk.
Por fim um poema de minha autoria que atualiza o punk para os dias de hoje.

Politicamente Correto
Foda-se!
Com moderação.

Da série Diretores cults que odiamos, diretores comerciais que amamos




I – Wood Allen e Steven Spielberg
Tenho dito: não gosto daquela coisinha neurótica irritante que nos obriga a assistirmos a um filme como se acompanhássemos a uma sessão de psicanálise. Pois é, não gosto de Woody Allen.
A bem da verdade, e pelo fato mesmo de não gostar, eu assisti a pouquíssimos filmes do cara, acho que uns quatro, daí que o juízo acima possa ser radical demais e mudado a qualquer momento. Mas o fato é que eu tenho a sensação (chame de intuição feminina) de que não vou gostar de nenhum filme do cidadão. Isso porque eu reconheço nele o talento de bom diretor, e de roteirista bem acima da média geral. Minha birra é com ele enquanto sujeito mesmo. Eu não gosto do Woody Allen, e ele nos obriga a engolir sua figurinha em todos os seus filmes de forma muito próxima, por conta de um caso patológico de narcisismo - o mais radical da história do cinema. Aproveito pra adiantar que o exame minucioso de suas neuroses, assim como o reconhecimento cínico da inutilidade dessa consciência, leitmotiv de muitas piadas, é uma de suas qualidades. Pois é, meu problema com o cara está exatamente em suas qualidades.
Decidi escrever esse texto após assistir o clássico Noivo neurótico e Noiva nervosa. Desde já digo que achei um ótimo filme. A estrutura não-linear realmente se aproxima muito do que o cinema de vanguarda europeu andava fazendo, e as soluções narrativas encontrados são primorosas, merecendo todo o destaque e premiações que recebeu. Méritos também por ter conseguido fazer dessa obra, bastante livre e avançada, um sucesso comercial. Eu sempre admiro os artistas que conseguem inserir algo de inovador no circuito fechado da cultura pop - por isso considero os Beatles a grande banda do século XX. Aqui uma primeira discordância com a crítica, se bem que leve: mesmo nesse filme, tido como um dos mais engraçados do diretor, as piadas não são de morrer de rir, e muito por conta de certo direcionamento a que já irei comentar. Mas em todo caso, elas são muito inteligentes e realmente afiadas, funcionando a seu modo. Não acho ruim o fato de ser uma comédia engraçada, mas que faça mais pensar do que rir. Comento isso por ser um argumento comum entre os que detestam o cara. Que comédia é essa que não faz rir? Mas nesse caso eu acho que é meio injusto, porque Allen é antes de qualquer coisa – como todo bom egocêntrico - fiel a si mesmo, e o fato de seus filmes tenderem a comédia se deve a uma fidelidade a sua visão de mundo particular, cínica e amarga, que tende ao cômico. Suas histórias contêm também toques de trágicos, melancólicos, de romance, mas tudo isso é filtrado por seu olhar e sua perspectiva ácida. É como se o fato de serem engraçados fosse uma conseqüência a contrapelo de sua perspectiva, e não a razão de ser do filme. O título de comédia nesse caso, é meramente um rótulo.
Sendo um grande cineasta, ótimo roteirista, inovador e corajoso, qual é afinal o meu problema com o cara? Pois é justamente esse narcisismo, a exposição de um tipo de homem que eu não gosto. Allen mistura em um só tipo muitas coisas que eu detesto. A arrogância nada dissimulada de um americano, ou melhor dizendo, de um Nova Yorquino que se acha o centro do universo. Mesmo no interior de um arsenal de críticas, e que mostra muito bem as fraquezas daquele universo – o neurótico não é apenas Allen, mas toda a sociedade que ele está descrevendo – o clima geral (e que não se nega) é o daquela patética camiseta Eu (coração) NY. E ele sabe disso melhor que ninguém, e o quanto isso é patético. O machismo que faz com que considere as mulheres seres inferiores destinadas a satisfação sexual, mas com inteligência suficiente para considerar que elas vieram com defeito de fabricação, advindo daí grande parte de seus problemas – eu realmente torci muito pra que a Annie Hall se livrasse da influência perversa daquele cara. Um egocentrismo absolutamente irritante, que torna o mundo um universo povoado de idiotas (ele mesmo um deles) desinteressantes - mas que ao mesmo tempo pode ser fascinante – a girar em torno de seu umbigo. Em suma, a arrogância nada dissimulada de um pseudo-intelectual no reino podre do show bussines. Mesmo quando o diretor faz uma crítica mordaz (e isso o tempo todo) daquela postura arrogante e superficial dos membros de uma elite que adora Bergman e Antonioni, se reúnem em saraus para ler poesia e ouvir jazz (no Brasil, para ler poesia e ouvir Chico Buarque), como na cena excelente em que chama o próprio Marshal Macluhan para contestar um desses malas de fila de cinema cult que citou o próprio em um chaveco de embrulhar o estômago. Mas o fato de colocar um filósofo no meio de uma comédia para fazer uma piada indica o quanto o diretor (e novamente, ele sabe disso melhor que ninguém) compartilha desse universo pseudo intelectual e reproduz seus valores. Porque afinal de contas, todo intelectual que se preze tem que ironizar o seu próprio meio.
Não que eu ache que o artista tenha que buscar transcender seu próprio meio. Ao contrário, eu acho que isso é impossível de ser feito, e caso Allen decidisse fazer dramas proletários (para ser bem clichê) aí não teria a menor relevância. Ele é excelente em mostrar os dilemas de seu meio. Mas também não é pelo simples fato de eu detestar o universo em que ele se concentra que eu não gosto de seus filmes. Eu adoro de paixão o Machado de Assis, que foi absolutamente fiel ao meio aristocrático brasileiro do Segundo Império, em minha opinião uma das classes mais nojentas que já apareceram na história. E tanto foi fiel a seu ponto de vista que os escravos – tidos como algo menos interessantes que baratas – quase sequer aparecem. Entretanto (e essa comparação apesar de injusta com o Allen e algo forçada, serve bem para mostrar meu desacordo) um abismo se coloca entre os dois quando comparamos o olhar que conta a história. O narrador machadiano é o principal a ser denunciado em seus romances maduros, de modo que a validade de seu ponto de vista cai por terra. Ao passo de que Allen reconstrói suas histórias a partir de sua perspectiva... honestamente apresentada para ser criticada e julgada realmente, é verdade, mas ainda assim integralmente sustentada. Allen diz, essa merda toda fede, mas é isso aí que é, aceite ou vá caçar outra coisa e para de me encher. Machado diz, isso ta fedendo demais e não tem mais jeito, por favor Prudêncio, dê a descarga.
Em suma, o diretor mostra uma imensa coragem em se expor (coragem proveniente de uma imensa satisfação narcísica) transformando cinema em consultório, mas no fundo apenas para afirmar que está certo, que os outros são inferiores mesmo, que as mulheres existem para ser subordinadas, que ser intelectual é estar um passo além. Eu não gosto de gente assim, e portanto, não gosto de Woody Allen. Outro mérito seu, evidentemente, é conseguir passar essa impressão – fruto da ilusão cinematográfica, por mais fiel que seja – de que é ele por inteiro que está ali. Nem Fellini, nem Truffaut conseguiram ir tão longe nesse propósito. Vem daí a relação de amor e ódio que se tem com o cara. Não da pra ficar indiferente diante de uma personalidade que se afirma com tanta ênfase. Ou se ama ou se odeia.
A impressão final que me fica é que Allen cria obras para serem exibidas entre seus amigos de universidade, agora senhores distintos. Uma espécie de auto ironia cínica e ao mesmo tempo complacente. Somos mal caráter, usamos Bergman para comer as calouras, e amamos isso. Acho que ele é o diretor que faz o retrato mais honesto dos membros da intelectualidade norte americana, sob a ótica dos seus atores, com seus dilemas e contradições. E por conta desta que talvez seja sua maior qualidade, o que se apresenta me incomoda e desagrada. Afinal, não é comigo que ele está falando. Daí deriva aquele humor sem risos a que aludimos no início. As piadas têm graça, porém para um grupo determinado a quem elas se destinam. Pode-se argumentar que todo filme que foge do esquema de Hollywood sofre do mesmo problema, só sendo compreendidos ou apreciados por alguns iniciados. Mas o problema é diferente justamente porque Allen faz filmes comerciais, só que direcionados para uma determinada classe mais ‘refinada’ (leia-se, aqueles que sabem que Foucault era gay, ou que conhecem a circunstância da morte de Walter Benjami). Uma coisa é você colocar o Marshal Macluhan pra fazer uma crítica direta a um pseudo intelectual. Outra é você fazer o mesmo Macluhan dançar Tha tha tha só de sunga – Groucho Marx com certeza deve ter pensado nisso. Só mais uma comparação também injusta, observe que Fellini (o do Oito e Meio e A Doce Vida) também aborda o meio intelectual em que vive, suas angustias e seu vazio, mas para transformar aquele universo reduzido em uma dor que se torna a tragédia do mundo contemporâneo. Salto não realizado por Allen, que não escapa a seu gigantesco ego.

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O diretor blockbuster, maintrean, e outros termos gringos que indicam supremacia em vendas que eu adoro é... Steven Spielberg. Amo! E não o Spielberg careta, choroso, candidato a cult, e clichê que resolveu se levar a sério com filmes bonitinhos e dispensáveis (pela repetição) como A lista de Schindler, aliás, um bom filme. Nada disso. Eu amo o Spielberg das crianças e dos jovens (de todas as idades, como diz a propaganda), aquele que renovou totalmente a forma do cinema dito comercial (e qual não é? Não é somente porque um produto não vende que ele não é comercial) de narrar uma fábula. O cara é um dos maiores contadores de história do cinema. Ele fez aquele bicho horripilante que é o E.T ficar mais famoso que o Mickey - que por sinal, não é menos horripilante - e nos fez tremer de medo com tubarões e dinossauros. Ah... e ele tem o trenó do Cidadão Kane. Aliás, coerentemente, pois em certa medida ele é o próprio Charles Foster. Ele e o Michael Jackson (quando será que um grande diretor vai descobrir que pode reler toda a história do mundo contemporâneo a partir da figura do Michael? O cara é um símbolo pronto, é só pegar, agitar e usar). Mas de qualquer forma, o que o Spielberg quis mostrar com a Lista de Schindler já havia sido dito (e muito bem) em E.T e Contatos Imediatos, de forma muito mais divertida.
Engraçado né... acabei de meter o pau no Wood Allen por questões ideológicas, e exaltei agora o símbolo maior da industria cinematográfica norte americana. Pois é.. mas um é cult e o outro não, grande diferença, como preferir Roberto a Chico; tem coisas que icomodam mais que outras. Como sempre afirma nosso querido Falcão a seu guru Galvão Bueno, é preciso cobrar de um time que tem qualidade, e é inútil exigir muito quando o time é fraco. Não sou nenhum purista ou reacionário de esquerda pra achar que os preconceitos em geral não podem ser divertidos. O machismo é desejável em um filme – excelente - como Duro de Matar: imagine se o Maclaine fosse um homem sensível a questão das mulheres e coisa e tal. Mereceria tomar um tiro. Mesma coisa com o preconceito em Rambo ou o conservadorismo em filmes de terror: são muito bem vindos. Mas esses caras não querem debater nada, só querem atirar e explodir e estripar. Agora quando esses mesmo valores estão presentes em filmes mais complexos, em um cinema que se pretende contrario ao mainstream, esses direcionamentos ideológicos se tornam problema estético.

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E não percam no próximo capítulo: porque odeio o chatíssimo Tarkóvski e adoro José Mojica Marins. Nacionalismo indulgente ou fetiche por unhas?

Filmes com a Turma do Chaves

A turma do "nada pra fazer" dessa vez se superou e criou algumas novas obras primas do maravilhoso universo youtube. Para quem, assim como eu, é fã incondicional do Chaves, e até chorou quando o SBT voltou a transmitir o Chapolin, esse trailers de possíveis filmes montados a partir dos episódios da série estão simplesmente maravilhosos. Muito bem feitos, com carinho e cuidado de quem é fã realmente. Parabéns pros meninos, e pra mim o oscar tem que ir pro filme protagonizado por um dos maiores talentos cômicos da América Latina, aqui nos revelando todo seu talento dramático.

Madruguinha, uma lição de vida





A invasão





Terror na Vila


quarta-feira, 18 de junho de 2008

Vamos falar de pagode I



Já disse aqui em outro momento que eu sou pagodeiro. Cresci ouvindo o ritmo, na sua versão anos 80, quando os ícones do gênero eram Leci Brandão, Eliana de Lima, Beth Carvalho, Marquinhos Satã, Royce do Cavaco, Jorge Aragão, Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Pedrinho da Flor, Neguinho da Beija Flor... e os meios de comunicação eram dominados pela onda pop rock. Depois, quando o pagode passou a dominar a industria musical, participei de um conjunto onde tocava teclado, e hoje em dia continuo no movimento fazendo umas rodas como percussionista. O pagode faz parte da minha vida, assim como o gosto por fazer listas, portanto nada mais justo que fazer uma pequena seleção. Como sempre acontece, os critérios serão os mais variados e explicados pelos comentários na medida do possível.
Apenas uma questão conceitual antes de passar pros finalmente. No meio do samba existe uma confusão bem grande entre os termos pagode e samba. Na maior parte das vezes pagode é usado de forma perjorativa, como um estilo de música comercial de baixa qualidade em contraposição ao samba, mais genuíno. Para alguns, o samba verdadeiro (ou como dizem, de raiz, como se falassem de mandioca ao invés de música) é aquele que se liga a seus primórdios, então feito por compositores como Sinhô, Donga, Ismael Silva, ou por aqueles compositores ligados ao morro ou que tem sua vida intimamente relacionada ao samba, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Monarco, e outros. Para outros, mais jovens, o samba autêntico é aquele feito pela nova turma surgida em Cacique de Ramos nos anos 70, samba de mesa, que se contrapõe ao pagode dos anos 90 feito por garotinhos bonitinhos e sem conteúdo. Entretanto, se pensado historicamente, é muito difícil falar que Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Cia são o que há de mais autêntico ou tradicional, pois o que marca sua entrada no mundo do samba é justamente seu caráter de novidade e inovação (o FDQ foi uma bomba lançada por Beth Carvalho), tanto na estrutura da roda de samba (todo mundo sabe dos novos instrumentos criados pelo grupo) quanto na questão musical propriamente dita, com novas formas de dizer, linhas melódicas e harmônicas diferentes. Essa turma cria o novo gênero que será denominado pagode, e que será modificado posteriormente ao se aproximar cada vez mais do gênero pop romântico. Pode-se talvez falar em um pagode mais genuíno, mas a sonoridade criada por esses grupos se afasta completamente do que anteriormente se denominava samba, assim como o estilo novo criado por Ismael Silva e a turma do Estácio já foge muito do samba amaxixado de um Sinhô.
Mas também é difícil falar em autenticidade nos primórdios do samba, quando este ainda estava criando suas características, ora se aproximando do Lundu, ora do maxixe, ora de ritmos afro. O que se constata na maior parte dos casos é uma tentativa de delimitar territórios, assim como fazem os roqueiros que definem um metal mais verdadeiro (kkkk) ou os membros da elite que definem a MPB como o que há de melhor na nossa música. Tais divisões dizem muito mais respeito a preconceitos, tentativas arrogantes de engrandecimento e formas de dominação dos ouvintes que sobre a estrutura musical propriamente dita, embora reflitam diferenças efetivamente existentes. No fim das contas, é o velho problema já levantado por Caetano – nosso maior intelectual. Criam-se divisões pejorativas que desobrigam os ouvintes a justificar suas opiniões desfavoráveis, alivio duplamente festejado porque a grande maioria dessas pessoas não sabe de fato ouvir fora dessas divisões mercadológica. Isso faz com que uma música gravada por Caetano seja considerada linda, e a mesma música executada pelo Peninha tida como brega e de mal gosto.
Mas o pagode a que me refiro é aquele dos grupos que estouraram nos anos 90 e entupiram as rádios com canções chorosas e extremamente bregas. Tem gente que detesta. Pra mim, o gênero não é pior do que inúmeros outros estilos comerciais, e seu problema mais evidente está em sua superexposição (quando só os pagodeiros ocupavam as rádios e a TV). Fora isso, não é um estilo pior que o sertanejo, o brega, a MPB, o rock, o forró, o axé, e possui como em todos os estilos momentos melhores e piores. Assim como Chitãozinho e Xororó perto do KLB ou de Bruno e Marrone são gênios, Exaltasamba perto dos Travessos é samba raiz. A característica mais marcante do estilo está em seu afastamento cada vez maior de suas origens no samba e a aproximação com o pop romântico, o que no fim das contas foi responsável por seu fim. Hoje o mercado pagodeiro – que tem um público muito fiel - se volta novamente para a batucada, nos moldes do Fundo de Quintal.
Eis agora alguns pagodes e grupos que fizeram parte da minha vida, e que vou carregar ainda por um bom tempo comigo (o que com certeza acontecerá com muito mais gente). Aproveito pra fazer um histórico do movimento, até onde eu me recordo.

Alguns antecedentes imediatos (e que embarcaram na onda):
FUNDO DE QUINTAL

Seja sambista tambémhttp://www.4shared.com/file/45956467/823bb8b5/14_SEJA_SAMBISTA_TAMBEM.html?s=1
Não quero começar a colocar esses pagodeiros velha guarda senão haja espaço para Ivone Lara, João Nogueira, Geraldo Filme, etc. Mas os principais responsáveis pelo nascimento do pagode não poderiam faltar. Por isso entram na lista com muito estilo, com esse que é um dos maiores hinos de amor ao samba, um pagode simplesmente maravilhoso. Conduzido por um violão sete cordas que dá o sentido da canção, inclusive a mudança de clima no meio, e com letras e melodias inspiradas, esse é um dos melhores exemplos de como pagode não é sinônimo de baixa qualidade.

JORGE ARAGÃO

Enredo do meu sambahttp://www.4shared.com/file/37050077/317370c/Jorge_Arago_-_Enredo_Do_Meu_Samba__Ao_Vivo_Vol_1_Ao_Vivo_Vol_1.html?s=1
Apesar de ser da geração mais antiga, sendo um dos fundadores do Fundo de Quintal, Jorge Aragão seguiu mais profundamente que seus companheiros o caminho do pagode romântico. E apesar de seus partidos de primeira linha (Vou festejar é simplesmente brilhante) ele mesmo se define como compositor romântico. Evidentemente que a riqueza de suas harmonias e letras aliados a beleza de suas melodias o colocam muitos degraus acima da média dos pagodeiros, mas isso não o coloca acima do estilo (como se fosse contagioso), e sim faz dele um excelente representante. Em todo caso, sempre será mais romântico que Zeca Pagodinho, Almir Guineto ou Bezerra da Silva, ocupando um meio termo entre esses caras e grupos como Exaltasamba e Katinguelê. Essa música em particular merece estar entre os grandes clássicos da canção brasileira, pela relação metafórica entre a condição do romance vivido pelo sujeito e um desfile de escola de samba. Simplesmente magistral, lindíssima e muito rica. Composição de um grande pagodeiro.

Vamos falar de Pagode II

Primeira Geração Pagodeira:
CRAVO E CANELA


Lá vem o negão (não achei o audio, mas voces se lembram dela, não?)
Essa música pode ser considerada como uma espécie de marco zero do pagode. Apesar do grupo que a cantava haver desaparecido, e já existirem grupos tocando e emplacando sucessos, ela inaugurou, salvo engano, junto com Marrom Bombom, a onda dos hiper mega sucessos pagodeiros que duram alguns meses para dar lugar a outro hiper sucesso. Só tocava lá vem o negão nas rádios, o tempo todo, e depois nada, o silêncio. Inclusive a banda desapareceu. Faz parte da primeira geração pagodeira, encabeçada por Raça Negra e Grupo Raça.

RAÇA NEGRA


É tarde demais
http://www.4shared.com/file/40809139/17d8c038/raa_negra_-__tarde_demais.html?s=1

Paulistas. Eis os verdadeiros culpados. Com eles o pagode abandona definitivamente o batuque e se aproxima do pop romântico, com estrondoso sucesso. Nas canções compostas pelo grupo pouco se reconhece de samba, e muito de José Augusto, Fábio Junior e Roberto Carlos. Esse aliás, é uma influência declarada (Ciúmes de você). Não a toa, no primeiro disco dos caras, tem tanto É o amor como Desculpa mas eu vou chorar. E quem não se lembra que os caras pagodearam Legião Urbana (Será) e Cazuza (Pro dia nascer feliz)? Só que aqui a coisa parece ainda um pouco simples, com arranjos basicamente sustentados por teclado e harmonias pobres, mais ou menos no esquema do brega atual. Mais tarde, com o sucesso do gênero, os arranjos serão melhor elaborados, as harmonias tornadas mais complexas. Mas o sentido inicial, especialmente o da melodia, não será alterado em essência. E quem daquela época não passou pelo menos um dia inteiro maldizendo o “que pena amor” que insistia em grudar na cabeça. Pode-se reclamar de tudo, menos de sua eficiência. Aliás, essa música está no Guinness, como a mais executada em um único dia no mundo.

GRUPO RAÇA

Seja mais vocêhttp://www.4shared.com/file/50085691/bcfcc08f/Grupo_Raca_-_Seja_Mais_Voce.html?dirPwdVerified=5930c431

Carioca. Diferente do Raça Negra, que de negro só tem o nome e a melanina, o Grupo Raça guardava um pé na batucada, mantendo em muitas músicas o estilo de samba de roda, à moda de Arlindo Cruz, inclusive com muitos cantos coletivos. Pode-se dizer que o grupo marcava uma transição entre o samba feito nos anos 70 e 80 e o que ele se tornou depois com os seguidores de Raça Negra. Pois o lado romântico encabeçado pelas composições de Délcio Luiz também está muito presente, com muitos sucessos emplacados. Gosto particularmente dessa música e de sua estrutura que caminha num crescendo até culminar no refrão, seu arranjo de choro, o canto suave de Délcio Luis.

Segunda Geração: O pagode romântico cria forma definitiva

EXALTASAMBA

Telegrama
Dez a um
http://www.4shared.com/file/50007958/f8b0f350/Exaltasamba_-_Dez_a_Um.html?dirPwdVerified=5930c431
Paulista. O Exaltasamba é talvez o grupo com a sonoridade mais característica do movimento. É possível reconhecer o samba ainda, de longe, em alguns instrumentos, numa certa curva melódica e em alguns escassos e nem sempre felizes partidos. Mas o clima do grupo já é total da nova moda, com o predomínio absoluto de canções românticas que tanto poderiam ser sertanejas, pagode ou MPB, e que seguem a mesma estrutura. O estilo boy band com um vocalista bonitinho também não falta ao grupo, assim como um número muito grande de sucessos que em sua grande maioria tem poucas chances de resistir ao tempo. Marca dessa nova geração também é o maior cuidado nos arranjos e nas músicas em comparação com o início (eu me lembro de uma música do Exalta que mudava quatro vezes de tom) e a grande relevância que assume a seção harmônica, em detrimento da percussão. Por isso também em geral no estúdio os grupos eram mais interessantes e ao vivo se limitavam a reproduzir os esquemas do estúdio com a máxima fidelidade. Mas o exalta é um grupo bastante competente que mantém ainda certo interesse pelo meio do samba e tem um vocalista excelente (Péricles), e algumas de suas composições são boas, especialmente as que escapam ao esquema José Augusto ou que o realizam com bom senso (o caso de Dez a um e de Telegrama). Sua longevidade, sobrevivendo às oscilações de mercado, é prova de seu diferencial. Telegrama é romântica porém agitada, possuindo um cavaco bem marcado, é bem produzida e tem um refrão direto e reto, que funciona bem. Além de ter sido cantada por mim em inúmeras situações, do chuveiro à fila de banco. Já dez a um é o pagode romântico clássico, porém com o capricho que será visto nos discos do Soweto pouco mais tarde, com estrutura mais interessante.
KATINGUELÊ

Cilada http://www.4shared.com/file/25972746/f6819948/katinguele_-_Cilada.html?s=1

Paulista. Que me lembre, salgadinho foi o primeiro grande símbolo sexual do pagode, e ele nem mesmo é bonito – pelo menos não tanto quanto o Alexandre Pires. Isso me lembra outra contribuição do pagode que tem a ver com os movimentos da época, que seja a valorização da imagem do negro (e do pobre por conseqüência), uma coisa até então inédita. O negro passa a se consumir também enquanto imagem, algo que de forma alguma é gratuita ou irrelevante. Musicalmente o Katinguelê não apresenta nenhum diferencial, nem o salgadinho é um grande vocalista, mas a exemplo do Exaltasamba é possível reconhecer ainda algo de samba, especialmente por ser um grupo surgido antes do estouro do pagode romantico. Na verdade, mais do que neste, especialmente nos primeiros discos. Suas batucadas (Ainda resta uma bagagem) apesar de feitos já no esquema pop romântico, são boas. Os arranjos são menos elaborados, os vocais mais descuidados, mas alguns momentos são de interesse, como nessa Cilada que trata de uma prostituta e não tem refrão, seguindo num crescendo que termina em Larauê, com um que de música de cabaré.

SÓ PRA CONTRARIAR

Essa tal Liberdade, http://www.4shared.com/file/42937497/f7f80831/So_Pra_Contrariar_-_Essa_Tal_Liberdade.html?s=1
Depois do Prazer http://www.4shared.com/file/27210893/e0088876/S_Pra_Contrariar_-_Depois_do_Prazer_-_Edy.html?s=1
Minha Metadehttp://www.4shared.com/file/39311189/f962a4a5/SPC_-_Minha_Metade.html?s=1

Mineiro. Enfim eles. O grupo de pagode mais bem sucedido de todos os tempos coloca um dilema para o ouvinte, pois definitivamente se torna um sucesso estrondoso na medida em que afasta do batuque e se torna exclusivamente romântico. O som feito por Alexandre Pires e companhia não se distingue musicalmente das gravações do Daniel ou do Leonardo. Ou seja, já não é mais pagode, ou então o pagode é exatamente isso. Em todo caso, um impasse se coloca quando o grupo aposenta de vez o cavaco e troca pelo violão, e a percussão pelas congas. De fato o grupo percebeu bem que o pagode não era samba, mas música pop, e se aproveitou da brecha. Claro que lentamente. Domingo ainda parece um pagode estilo Conselho de Almir Guineto, ou Insensato Destino. Que se Chama Amor e Meu Jeito de Ser ainda tem algo de Raça Negra. Mas os sucessos absolutos Essa Tal Liberdade e Depois do Prazer poderiam ser facilmente gravadas por Leonardo, ou Peninha. Aliás, Mineirinho não é forró forçado no samba? Enfim, a fórmula funcionou, muito por conta do carisma e voz (que evoluiu bastante tecnicamente ao longo do tempo e é bonita pra porra) de Alexandre Pires, mas a dissolução do gênero que lhe amplia os horizontes também é responsável por seu fim, por não ter já onde se sustentar. Significativamente o grupo hoje, já sem Alexandre Pires, voltou para o estilo samba de mesa que consagrou o Revelação, abandonado o pop romântico seguido pelo cantor.

SENSAÇÃO


Preciso desse mel
http://www.4shared.com/file/41271583/6388841c/Grupo_Sensao_-_Preciso_Desse_Mel.html?s=1
Demorô\ Sacode\ Já é madrugada\ Na palma da mão
http://www.4shared.com/file/27365891/40a416dd/Sensao_04_Demor_-_Sacode_-_J__Alvorada.html?dirPwdVerified=819d5b73


Paulista. Perto de outros grupos de muito sucesso, o Sensação parece meio lado B. Na verdade, ele participa de uma outra classificação, a dos grupos de pagode sem vocal bonitinho. Mas o Marquinhos segura muito bem com seu timbre que alcança longe e o grupo tem o Carica (além de uma cozinha respeitável e a relação do grupo com escolas de samba), principal responsável pelo Sensação ser o grupo de pagode romântico com os melhores partidos, ganhando de longe de outros da época. Daí as apresentações ao vivo do grupo serem melhores que a média para quem gosta de batuque, e algumas músicas românticas como Um dia soarem muito mais “tradicional”. Mas o grupo também conseguiu emplacar vários sucessos românticos com Preciso desse mel, que eu adoro. Gosto do arranjo simples, gosto do teclado, gosto da cadência diferente, da interpretação do Marquinhos jogando com o coral. A outra música é um medley de partidos que funciona muito bem em qualquer roda de samba.

Vamos Falar de pagode III

AMPLIAÇÃO DE HORIZONTES E DISSOLUÇÃO


ART POPULAR

Utopia http://www.4shared.com/file/49963937/404a3f35/Art_Popular_-_Utopia.html?dirPwdVerified=5930c431,
Temporal http://www.4shared.com/file/41158198/6b14aa4d/10-Temporal_-_AudioTrack_10.html?s=1
Requebrabum http://www.4shared.com/file/41159556/9fac07ff/18-Requebrabum_-_AudioTrack_18.html?s=1
Vestida de Doida
http://www.4shared.com/file/49964053/837b5f9c/Art_Popular_-_Vestida_de_Doida.html?dirPwdVerified=5930c431

Paulista. Com certo exagero, ironia, e elevado grau de verdade, o pessoal do Art Popular pode ser considerado como os tropicalistas do pagode. Eles fizeram de tudo, experimentaram muitos estilos. Os caras fizeram uma leitura da cena musical de sua época e incorporam tudo, criando um estilo próprio que atirava para todos os lados. Acredito que alguns anos mais tarde, quando começar o inevitável movimento de busca pela sonoridade dos anos 90, o grupo será considerado um dos grandes da época. Mas é claro que ele passa longe das inovações dos anos 60, pois se sua obra atravessa muitos estilos com competência, é fato que pouco se vê de mistura. A base é a musica pop, que pode ser sertaneja, samba, pagode, melodia, samba rock, partido alto, pagode de mesa do tipo todo mundo cantando junto, musica flamenca, axé. Seu último trabalho com a formação original se chama sambapopbrasil. Isso é o art popular, desde o início. Sem dúvida muito se deve a certa ousadia e prepotência do líder do grupo, Leandro Lehart (que inclusive andou gravando com Max de Castro), devidamente ancorado por músicos bons e sem medo de arriscar e um dos melhores vocalistas do pagode, o Márcio Art. O fato é que essa dimensão camaleônica executada com competência torna o grupo dos mais interessantes da época. Também foi o principal responsável por uma onda de grupos horrorosos que misturavam pagode com outros estilos, como a melodia do Sampa Crew. Um exemplo de grupos desse tipo é Os Travessos. Para dar conta da polivalência do Art Popular, escolhi Utopia um pagode romântico do primeiro disco, que é praticamente sem efeitos de arranjos que não os de samba, e sem dúvida um dos melhores discos de pagode produzidos. Mesmo os adeptos e defensores do samba “raiz” concordam com o prognóstico. Depois um pagode romântico que se tornou clássico e marca do Art Popular, Temporal, que de tão exageradamente sofrida lembra o bolero. Na sequência duas viagens muito boas da banda, a mistura de flamenco com pagode em Vestida de Doida e um tipo de samba rock estilizado com toques de eletrônico, Requebrabum.
Adicionar legenda

MOLEJO

Caçamba http://www.4shared.com/file/11360965/1b1266d7/Molejo_-_caamba.html?s=1
Dança da Vassoura
http://www.4shared.com/file/50865327/e3c34296/Molejo_-_dana_da_vassoura__1_.html?s=1


Rio de Janeiro. O Molejo sempre foi mais um grupo de samba rock atirado ao balaio de gato da classificação pagode. Seus sucessos como Cilada, Caçamba, Clínica Geral, Brincadeira de Criança e Dança da Vassoura eram muito mais próximos da pegada swingada do samba rock do que do pagode romântico, o mesmo valendo para o estilo do grupo e a peculiaridade de seu vocalista. O Molejo traz para o pagode uma nova moda de músicas com danças coreografadas, que iria ser o mote do mercado no próximo gênero a ser vendido. Aliás, foi provavelmente no estilo baiano que o grupo buscou inspiração para seu som, e as gravadoras perceberam o movimento. O grupo Molejo já marca a passagem do pagode para o Axé. Nessa Dança da Vassoura se reconhece facilmente o andamento mais “duro” do Axé, assim como o samba rock em Caçamba.


NEGRITUDE JUNIOR

Cohab City\ Vem pra cá
http://www.4shared.com/file/50631691/921785d4/11_Cohab_City___Vem_Pra_C.html?s=1


São Paulo. O grupo liderado pelo mais carismático dos vocalistas também investiu no ecletismo, sem no entanto chegar no mesmo ponto que o Art Popular. Aproveitando-se dos metais, muito marcantes em suas composições, o Negritude aposta no pagode em conjunto com outros estilos de música negra, como o funk, soul,hip hop, ijexa, reggae. Nada muito radical evidentemente, e com predominância absoluta do estilo romântico pop mas com bons momentos. Talvez o mais interessante do grupo seja essas duas músicas que fizeram grande sucesso, e que são de fato muito boas. Outras merecem algum destaque, como Beijo geladinho, que também tem um swing contagiante. Gente da gente é interessante pelo contraste entre a postura alto astral do Negritude e a então radicalidade negativa de mano Brown e Tanajura malandramente mistura um tema muito conhecido de salsa com pagode. Mas o grupo tem também diversos sucessos românticos, inclusive com algumas outras misturas como o pagode e o soul em Parece Criança, e incontáveis pagodes mais tradicionais como Jeito de Seduzir.

KARAMETADE

Decisão http://www.4shared.com/file/22771387/c722be1e/karametade_-_decisao.html?s=1
Santos. Grupo mais tardio, do fim dos anos 90. Em primeiro lugar, detesto o grupo, mas acho interessante citar porque foi ele que abriu caminho para a onda atual do pagode universitário, feito por brancos de classe média e que hoje faz sucesso com grupos como Inimigos da Hp. E essa é a única música do grupo que consegue empolgar.




SOWETO

Momentos http://pagodesdomulek.blogspot.com/2008/01/soweto-refm-do-corao.html (só consegui o link pra baixar o disco todo)
Paulista.O Soweto começou a fazer sucesso um pouco mais tarde que os demais grupos. Não chegou apresentando nenhuma proposta nova (em um mercado que exige idéias frescas a cada segundo) mas representou em certo sentido uma maturidade no gênero. As composições, harmonias, melodias, o trabalho com as vozes, o canto fantástico de Belo, os arranjos simples mas de bom gosto levavam o pagode para uma dimensão mais suave, tranqüila e consciente, próximo do que em outra época fazia Emílio Santiago e que iria influenciar grupos como Exaltasamba. As composições enquanto conjunto pareciam mais amadurecidas (especialmente se comparados com os primórdios) e sem se afastar completamente do batuque como fazia o SPC. Estaria o pagode tomando lições com a MPB? Bem, ao menos com a parte mais popular desta, não resta dúvidas de que sim. Observe nessa música a inteligência dos arranjos, pop, com tecladinho vagabundo fazendo string, mas com cada coisa no seu lugar, sem ficar devendo em nada para mestres do pop nacional, como Fabio Junior. Depois disso, o pagode vai perdendo terreno e por fim desaparece, no segundo disco do Soweto, ainda mais bem elaborado. O grupo aparece em cena fora de hora, marcando o fim do gênero em seu auge.

Retorno ao batuque
Com o fim da moda do pagode romantico, este fica em segundo plano durante certo tempo, cedendo espaço para outros modismos, até que vimos ressurgir não o romantismo dos anos 90, mas aquele estilo mais antigo. Os discos ao vivo do Jorge Aragão batem recordes de venda, um disco ao vivo do Reinaldo de samba de mesa estoura nas rádios. E principalmente vemos o retorno triunfal de Zeca Pagodinho, em grande parte devido aos esforços do maestro Rildo Hora em revitalizar a forma dos arranjos do samba. Surgem novos artistas ligados ao mundo mais tradicional do samba (Dudu Nobre, Teresa Cristina), compositores da Velha Guarda gravam discos (Monarco, Nelson Sargento, Guilherme de Brito, Geraldo Filme, as velhas guarda de Mangueira, Portela e Império Serrano).



REVELAÇÃO

Grades do Coração
http://www.4shared.com/file/50222644/e397cb5e/Revelacao_-_Grades_do_Coracao.html?dirPwdVerified=5930c431

Samba de Arerê\ O simpáticohttp://www.4shared.com/file/37633105/e8361383/Grupo_Revelacao_-_ao_vivo_-_samba_de_arere_o_simpatico.html?s=1

Rio de Janeiro. Finalmente, depois de haver sendo colocado em segundo plano pela mídia durante a ditadura do pagode romântico, surge um grupo de pagode que pode ser visto como herdeiro do Fundo de Quintal, por fazer pagode ancorado no batuque em primeiro lugar. Com o fim daquela onda, os pagodeiros voltaram a fazer samba de mesa, trazendo a forma nova de volta ao batuque. Os pagodes do Revelação lembram mais Exaltasamba do que Almir Guineto, mas um exalta sem arranjos de cordas que escondem a percussão. De volta as origens o pagode não sumiu, mas vive um novo momento, quem sabe mais profícuo. Pra firmar e fechar com chave de ouro, primeiro um pagode romântico estilo Revelação, ou seja, com muito mais pegada, e em seguida uma batucada nervosa dos caras que tem uma cozinha fantástica (lembrando que é só pandeiro, rebolo e reco), pra mostrar do que os homens são capazes quando provocados.

Pois é assim, e pra poder criticar qualquer coisa, é preciso antes entender seu significado. O fato do pagode ser um gênero totalmente voltado para atender as demandas do mercado não significa ser ele homogêneo e sem distinções reveladoras. Evidentemente que a dissolução do gênero se deve ao movimento do mercado, mas é possível reproduzir esse movimento observando mais de perto esses grupos, agora já com o devido distanciamento. O fato de ser um estilo completamente comercial cria uma estrutura formal fragilizada que acaba por condicionar a definição do gênero a fatores externos à musicalidade propriamente dita, como o estilo dos integrantes, os instrumentos, a postura feliz. O estilo musical tem de ser o mais aberto e flexível possível para se moldar às exigências da industria, mas essa flexibilidade é o principal fator que determina o fim do movimento, quando o modismo chega ao fim. Pois é um tipo de musica com identidade interna frágil. Outros estilos “acabaram” pelos mesmos motivos, como o rock n’ roll, que sempre teve na atitude sua marca distintiva. Por outro lado as variações possíveis são muitas, e quando escapam das necessidades mercadológicas imediatas podem render frutos interessantes, como o já mencionado retorno ao pagode mais tradicional, ou a presença desse gênero em outros estilos, como na Black music de bandas como Farofa Carioca.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Um desabafo – pra que intelectual em um país que tem o Chapolin como herói nacional?


OS IRMÃOS MARX

Introdução
Depois de receber algumas críticas acadêmicas quanto ao conteúdo do meu blog – não com relação ao que era dito, mas à escolha dos os objetos aos quais os comentários se dirigiam – lembrei de algumas coisas que estavam guardadas em meu lado sombrio, mas que eu ainda não posso esquecer de todo, uma vez que continuo escrevendo e refletindo, ainda que de forma diversa e em outro sentido. Além de me jogar na cara o que eu sempre tento esquecer – pra poder continuar fazendo o que eu gosto: pra quem eu escrevo? Ou melhor, pra quem se escreve?

Desenvolvimento
Para ser levado a sério frente a classe intelectual do país (kkkkkkkkkkkk), é preciso argumentar que o narcisismo lírico felliniano consegue transpor mais radicalmente as barreiras da forma desmaterializada da mercadoria do que o desconstrutivismo empreendido por Godard. Se conseguir demonstrar a ligação dos procedimentos técnicos desde com a estética de Jerry Lewis, desmoralizando-o frente a todos (menos a ele mesmo), ainda melhor.
Precisa-se mostrar como o pastiche empreendido por Stravinsky (sem esquecer de mencionar que a partir de uma perspectiva adorniana) conseguiu suplantar o emparedamento auto referencial – em comunhão espiritual com Joyce e Proust – do dodecafonismo de Shoemberg no desvelamento do caráter mais material da impossibilidade narrativa em um mundo desprovido de subjetividades plenas.
Tem-se que reconhecer Kant em Hegel, e Hegel em Marx, com o risco de superficialidade hermenêutica e miopia ideológica (esse termo aqui anda meio fora de moda, assim como citar Lênin ou Luxemburgo (a Rosa, não o Wanderley), mas ainda serve pra se fingir de esquerda. E é absolutamente necessário se fingir de esquerda, mesmo pra expressar a mais conservadora das opiniões. (Nota: pobre bom, rico mau).
É imperioso estar ciente do substrato histórico e social que conforma e possibilita a ambivalência formal machadiana.
É preciso fazer entender as raízes do contrasenso que leva o aspecto revolucionário do conceito de montagem de Einsenstein a ser apropriado em contexto contemporâneo pelas técnicas de edição dos videoclipes da MTV, tornado-a assim inofensiva. Note-se a importância de se grafar videoclipe, ao invés de simplesmente clipe, para denotar certo distanciamento, como quem diz ‘entendo tudo, afinal é banal, mas detesto’.
Tenho que demonstrar coerentemente porque é ruim aquilo que eu gosto, como futebol e novela, e compreender direitinho como é que aquilo que me torna mais humano e concreto – futebol e novela – em verdade me desumaniza e aliena, sendo portanto, coisas do diabo.
Conclusão
É preciso manter uma distância segura, conformista, idiota e funcional (emocional), disfarçando e (re)produzindo nossa cotidiana escrotice canalha na linguagem.

Em suma: é necessário ser deliberadamente ridículo e canalha, pois é impossível se produzir 'conhecimento intelectual' em um país onde a linguagem se converte, sem mediação e por vontade própria, em política.

Próximos passos: publicar uma crítica apologética ao melhor funk já composto: Crééééééu

sábado, 10 de maio de 2008

O corajoso e polivalente Mel Brooks


Sei que ninguém está muito interessado em opiniões pessoais sobre qualquer assunto. O negócio é fazer download... ainda mais quando os textos são grandes assim. Eu pelo menos não tenho muita paciência pra ler artigos ou ensaios longos na net. Mas o legal da internet é isso... como não é pra vender, voce pode publicar o que quiser sem se importar se alguem vai se interessar ou não.. e no fundo no fundo... vai que alguém se interessa... Então vamo ae!
Eu gosto muito de Month Python. Acho os caras fodas de verdade. Mas seu humor é refinado demais pra mim, criado no Brasil a base de Chaves e Trapalhões. Piadas sobre declinação latina (como na Vida de Brian), por mais engraçadas que sejam, e por mais que sejam feitas pra ridicularizar, tem um sabor acadêmico de classe média que se distância um pouco (verdade que, infelizmente, não o suficiente) da minha pegada. Eu dou risada com os caras, mas o que me faz mijar e chorar mesmo é o Chaves (ainda vou escrever alguma coisa aqui sobre o seu Madruga, a meu ver um comediante verdadeiramente extraordinário), Chaplin, Corra que a polícia vem aí, Borat, Mel Brooks, Ronald Golias, uma coisa por assim dizer menos sutil, mas igualmente excelente. Lembrando ainda que não se trata aqui de juízo estético, mas só uma consideração daquilo que eu acho mais divertido, ou que eu prefiro, por uma conjunção de fatores subjetivos e históricos.
Mel Brooks é geralmente definido como um excepcional diretor de paródias, um tipo de comédia que satiriza alguns gêneros hollywodianos. Fez sátiras de filmes de ficção científica (S.O.S – um louco a solta no espaço), faroeste (Banzé no Oeste), suspense (Alta-ansiedade), filme mudo (A última loucura de Mel Brooks), terror (Jovem Frankstein e Drácula, morto mas feliz), filmes bíblicos (História do Mundo Parte I), aventura (As loucas aventuras de Robin Hood), sempre de forma competente e, principalmente, muito engraçada. Mas ainda que seja um verdadeiro mestre no gênero, tal definição só recobre um aspecto do talento do sujeito. Seu tipo de paródia difere bastante de outros filmes clássicos do gênero – a típica comédia besteirol, que se tornaria uma verdadeira indústria a partir dos anos oitenta. Por exemplo, o tipo de humor da turma do ZAZ, autores de clássicos como (Apertem os cintos, o piloto sumiu, Corra que a polícia vem aí, Top Secret, etc. Isso porque Brooks não direciona suas tiradas para os clichês de cada gênero que, nos melhores casos, ao serem expostos ao ridículo tem seu caráter absurdo (de coisa forçada, construída) desmascarado, ou apenas servem de pretexto para fazer uma piada – como nos inúmeros besteiróis adolescente insuportáveis. É claro que ele também faz isso, mas seu diferencial consiste em considerar o gênero enquanto portador de uma determinada ideologia, que será criticada ou desmascarada a partir da paródia. Algo como voltar um gênero contra ele próprio, inserindo (ou retirando) algum elemento essencial a este, para que este crie um curto circuito em sua estrutura, que é fechado por princípio, ou seja, possui regras e valores que precisam ser respeitados para ser considerado enquanto tal.
Primavera pra Hitler (1968), o primeiro filme de Brooks, conta a história de um produtor e seu advogado, encrencados financeiramente, e que tem uma idéia bastante original pra sai desta: montar um espetáculo para que seja um total fracasso. Para tanto contratam atores ruins, equipe péssima, e resolvem montar um musical romântico na Broadway cujo mocinho é Hitler. Nem precisa dizer que a peça se torna um sucesso de crítica e público. O roteiro fantástico é uma crítica tanto ao sistema de entretenimento americano (teatro, musicais), que aceita qualquer coisa desde que se transforme em ouro, como é também uma espécie de cartão de apresentação do diretor, como que dizendo qualquer coisa, tratada da maneira adequada, pode ser piada. Isso sem contar que a turma do politicamente correto (que oculta a sujeira debaixo do tapete pra fingir que ela não existe e poder levar uma existência sem culpa) fica de cabelo em pé quando vê humor sendo feito a respeito do nazismo. E como se não bastasse, Mel Brooks (eita judeu porreta esse) ainda repete a dose no extraordinário Sou ou Não Sou, uma adaptação de uma peça de teatro sobre um grupo de teatro na polônia na época da ocupação alemã. Outro roteiro bastante corajoso, com piadas e atuações fabulosas. O cara é também muito talentoso como ator, diga-se de passagem.
Outro exemplo de sátira fantástica de Brooks está naquele que é talvez seu melhor filme, Banzé no Oeste (1974). A história: um ‘típico’ bandido de faroeste quer destruir uma cidade pra poder construir sua estrada de ferro no local. A partir desse ultra clichê de bang bang (essa onomatopéia é muito melhor que o nome faroeste), Brooks começa a subverter tudo. Começando com a grande sacada do filme: um dos planos do bandido é colocar um xerife negro na cidade. Nem pense em baboseira como James West, em que o mocinho poderia tanto negro como branco, amarelo, verde ou roxo que não faria a menor diferença na estrutura da obra. O filme tem algumas de suas melhores piadas tiradas de situações de racismo, e outras tantas com relação ao homossexualismo, com drogas, manipulando esses elementos pra fazer humor, sem tratá-los como tabus, mas tampouco considerando como a coisa mais normal e saudável do mundo.
A crítica ao racismo (mal) dissimulado nos faroeste – considerado portanto como um representação ideológica da estrutura daquela sociedade - gera alguns dos momentos mais hilários do filme, como quando o xerife e seu parceiro (Gene Wilder, loiro de olho azul) decidem chamar a atenção de dois membros da Klu Klux Klan – pois é, Brooks mistura tudo mesmo, tudo serve como piada. Wilder grita para os dois ‘ei, olha o que eu tenho aqui’, e o xerife aparece por detrás de um rocha dizendo do modo mais caricatural possível, como um monstro de filme B, ou um negro dos filmes de Hollywood e das nossas novelas: ‘eu onde estão as mulheres brancas?’. Ou quando um grupo de índios cerca uma caravana, e estas começam a andar em círculo para se proteger, só que a carruagem dos negros é proibida de entrar no círculo junto com a dos brancos, e fica então rodando pateticamente em torno de seu próprio eixo, sozinha. Ou ainda em outra cena, após uma velhinha responder aos comprimentos educados do xerife com um ‘vai a merda crioulo’ (níger), Gene Wilder fala ao xerife: “O que você esperava? Seja bem vindo filho... sinta-se em casa... case-se com minha filha? Lembre-se, eles não passam de agricultores... são gente da terra... o barro do novo oeste. Você sabe... babacas idiotas!”. O que Brooks faz nesse filme não é apenas uma paródia do gênero (na verdade, são muitos as escolas parodiadas no filme, desde musicais até desenho animado, nada escapando a demolição – literal, como se observa ao final), mas uma crítica pesada à ideologia (no presente) transmitida pelo mito fundacionista do velho oeste, com direito a um tom muito característico dos anos 70.
Humor inteligente, sem concessões, ousado e corajoso, como está difícil de encontrar nos filmes ultimamente. O que de melhor se tem feito em termos de humor tem de ser procurado nos desenhos – e salve Simpsons - desde que aquela boa safra de comediantes dos anos 80, saídos de quadros humorísticos da TV (John Belushi, Eddie Murphy, Bill Muray, Steve Martin, Leslie Nielsen, Chavie Chase, etc...) ou morreu ou simplesmente perderam a graça. Agora Ben Stiler e Adan Sandler ninguém merece. Por favor, até o Ernest que passava todo dia no SBT (lembram dele) é mais engraçado do que esses caras.
Filmografia:

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Di Melo - Di Melo (1975)


Historinha: Estava eu curtindo uma balada num lugar chamado Aldeia Turiassú entre a Pompéia e a Barra-Funda uma noite destas...Na ocasião, no palco rolou um Show da Banda Glória [divina!] e o Dj Tutu mandou bala na pista com sua discotecagem 'brasileira não clichê' [não tão menos divina!]...Entre um Jorge Ben e um Tim Maia Racional, ele colocou um Som ['O' som] que posteriormente em conversa pessoal, ele me passou a referência, que sem pestanejar, fui atrás e me deleitei. A música em questão chamava Kilariô [escute no youtube, clique aqui.], de um músico de um disco [que pena!] chamado Di Melo. Eis a história [estraido do blog Ouro de tolo]:

"Se você desconhece este cidadão, saiba que tá perdendo um som que não é brincadeira. Di Melo é um um cantor e compositor pernambucano que diz a lenda, sempre estava bem acompanhado. Mas isso não vem ao caso hehehe, o que vem ao caso é que esse rapaz é um dos muitos músicos injustiçados Brasil a fora. Considerado um dos pioneiros da música soul aqui no Brasil, Di Melo é desconhecido do grande público e é até difícil de compreender como o cidadão ficou no anonimato fazendo o som que faz. Vai entender...
Di Melo só tem um disco lançado, e pasmem(música de suspense)...é esse mesmo que eu vou deixar aí para os apreciadores de boa música baixarem. Soul, funk e Mpb de primeira no mesmo prato e para complicar mais a situação, os arranjos são do "bruxo dos sons" Hermeto Pascoal. Esse é discaço, vale a pena e essa tal de "Se o mundo acabasse em mel"...só pode ser brincadeira.

Músicas:
1 .Kilariô (Di Melo)
2. A vida em seus métodos diz calma (Di Melo)
3. Aceito tudo (Vidal França - Vithal)
4. Conformópolis (Waldir Wanderley da Fonseca)
5. Má-lida (Di Melo)
6. Sementes (Di Melo)
7. Pernalonga (Di Melo)
8. Minha estrela (Di Melo)
9. Se o mundo acabasse em mel (Di Melo)
10. Alma gêmea (Di Melo)
11. João (Maria Cristina Barrionuevo)
12 .Indecisão (Terrinha)"

ps: Chamo atenção para as três primeiras faixas. Geniais!

Download do disco [AQUI]